Saci, o de uma perna só novo
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O Saci é figura do folclore brasileiro, e cada fonte antiga o descreve de um jeito. Em O Selvagem, de 1876, livro que traz também um curso da língua geral, Couto de Magalhães conta que os brasileiros criados nas fazendas do interior ouviam das amas de leite as histórias do Saci Cererê, e que talvez não houvesse caipira de São Paulo nem bruaqueiro de Minas a quem se pudesse dizer que o Saci era imaginário: o caipira julgava tê-lo encontrado fora de hora junto a uma porteira, quando ele lhe saltou na garupa ou lhe fez outra tropelia. As tradições, escreve, o representam como um pequeno tapuio, manco de um pé, com um barrete vermelho e uma ferida em cada joelho. Couto de Magalhães arruma os seres dessas histórias numa teogonia tupi, com deuses maiores e menores, e põe o Saci entre os que obedecem a Jacy, a lua, mãe dos vegetais; mas confessa que encontrou as tradições tão confundidas com superstições cristãs que não consegue entender qual seria o papel do Saci entre os vegetais. O arranjo é dele, um estudioso do século 19 dando ordem ao que ouviu.
Em 1890, na Poranduba amazonense, João Barbosa Rodrigues junta versões de várias províncias. Para ele, o Saci é o filho predileto do Kaapora, que ele também chama de Korupira: o filho que anda pelas estradas, pelos caminhos, pelas ruas e pelas roças, e que muda de nome como o pai. No Sul é Çacy tapererê, no centro Kaipora e no Norte Maty-taperê; e quem não entendia a pronúncia do sertanejo, diz ele, ainda o chamou de Çacy-pererê, Saperê, Sererê, Sarerê, Siriri, Matim-taperê e Matinta-Pereira. Quase sempre, escreve, vive transformado num pássaro que não se vê, de canto ora grave, ora agudo: quem o procura pelas notas graves, que parecem perto, ouve logo as agudas, que parecem longe, e acaba perdido. Quando o canto se ouve, os velhos o esconjuram, as crianças se encolhem no colo das mães, e os pais espalham fumo pelas cercas e pelas portas para que o Saci se cale e vá embora levando com que fumar.
Quando toma forma humana, as descrições de Barbosa Rodrigues mudam de região para região. No Amazonas e no Pará é um kurumi, um menino, de uma perna só e cabelos vermelhos, sempre acompanhado de uma velha vestida de andrajos; no Pará, segundo ele, a civilização transformou esses cabelos em barrete vermelho, e numa nota ele registra que alguns trocam a velha por um velho, também andrajoso. No centro e no norte de Minas Gerais é um caboclinho de pés bifurcados, de cachimbo no canto da boca. Pede farinha à forneira ou lhe joga cinza nos olhos, procura as encruzilhadas das estradas, trepa nas porteiras e nos cupinzeiros para desencaminhar os viajantes e monta nos porcos para espalhar as porcadas. Na estrada real de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, diz ter ouvido muitas vezes que o Caapira tinha por companheiro o Çacy-pererê, pássaro de um pé só que alta noite vagueia pelas estradas cantando “Çacy-pererê minha perna me dóe”; da fazenda de Santa Cruz reproduz uma notícia de Félix Ferreira, repetida por Eduardo Perié, com o verso “Sacy Pereira minha perna me dóe”. Para o Rio de Janeiro, Barbosa Rodrigues propõe ainda que a figura tomou a cor negra e o barrete vermelho que os africanos recebiam nos armazéns do Valongo, do Caju e da Marambaia, num trecho em que fala da escravidão; é uma explicação dele, escrita com os preconceitos raciais do seu tempo, que este verbete registra sem repetir.
Em 1913, João Simões Lopes Neto fecha as Lendas do Sul com notas curtas sobre figuras que, diz a nota de abertura do livro, chegaram ao Rio Grande do Sul vindas do centro e do norte do Brasil com os mamelucos paulistas e ali se apagaram no esquecimento: o saci, o caapora e a oiára. A nota sobre o Saci diz que era um caboclinho de um pé só, muito ágil, que saltava na garupa dos cavalos dos viajantes e gostava das picadas e das encruzilhadas das estradas sombreadas. Outros, acrescenta, diziam que o Saci era apenas manco de um pé e tinha uma ferida em cada joelho, que usava um barrete feito das marrequinhas, as flores da corticeira, e que era ele quem governava as moscas importunas, as mutucas e os mosquitos.
As fontes concordam em pouco. Uma perna só, no kurumi do Amazonas e do Pará de Barbosa Rodrigues; um pé só, na primeira descrição de Simões Lopes Neto; manco de um pé, em Couto de Magalhães e na segunda descrição de Simões Lopes Neto; pés bifurcados, no Saci de Minas de Barbosa Rodrigues. O barrete é vermelho em Couto de Magalhães e em Barbosa Rodrigues, e de flores na nota gaúcha. A garupa do cavalo está em Couto de Magalhães e em Simões Lopes Neto; a encruzilhada, em Barbosa Rodrigues e em Simões Lopes Neto. Sobre a origem, Couto de Magalhães trata o Saci como crença tupi que passou ao povo brasileiro, Barbosa Rodrigues como figura indígena que mudou de nome e de feição pelo caminho, e Simões Lopes Neto como lenda que chegou ao Sul vinda do centro e do norte. Barbosa Rodrigues lembra ainda que, em 1859, o Correio Paulistano já publicava contos do Sacy-sererê com o título Tradições populares de Minas e S. Paulo.
Para conferir
- José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, Typographia da Reforma, 1876, parte II, Família e religião selvagem, p. 120 e 121, no Internet Archive: as amas de leite e as histórias do Saci Cererê, o caipira de São Paulo e o bruaqueiro de Minas, a porteira, a garupa e a tropelia, e as crenças indígenas que passaram ao povo.
- Couto de Magalhães, O Selvagem, 1876, parte II, Família e religião selvagem, p. 138: os deuses submetidos a Jacy, a lua, mãe dos vegetais, a confusão com as superstições cristãs e o pequeno tapuio manco de um pé, de barrete vermelho e com uma ferida em cada joelho.
- João Barbosa Rodrigues, Poranduba amazonense, Rio de Janeiro, Leuzinger, 1890, p. 12, 13, 16 e 17, no Internet Archive: o filho predileto do Kaapora, os nomes por região e os nomes alterados, o pássaro e o canto, o fumo nas cercas, o kurumi de cabelos vermelhos, a velha, o caboclinho de pés bifurcados de Minas, a forneira, as porteiras, os porcos, a cantiga ouvida pelo autor na estrada real de Santa Cruz e a da fazenda de Santa Cruz, que ele reproduz de Félix Ferreira e Eduardo Perié, a hipótese do Valongo e a nota sobre o Correio Paulistano de 1859.
- João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, Pelotas, Echenique & C., 1913, Nota e nota 10, O Sací, p. 89 e 90, no Wikisource, com o fac-símile: o saci, o caapora e a oiára vindos com os mamelucos paulistas, o caboclinho de um pé só, a garupa, as picadas e encruzilhadas, a outra versão do manco com feridas nos joelhos, o barrete de marrequinhas e as moscas, mutucas e mosquitos.



