Caipora, o que protege a caça novo
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Caipora é o nome de um ser do mato, que muda de forma conforme a região, e também uma palavra do português do Brasil para quem tem má sorte. Em 1889, o visconde de Beaurepaire-Rohan, no Diccionario de vocabulos brazileiros, escreve que caipora é corruptela de caápora, termo tupi que significa morador do mato. O caipora, ou a caipora, diz ele, é um ente fantástico que, segundo a crendice de cada região do Brasil, é representado ora como uma mulher de um pé só, que anda aos saltos, ora como uma criança de cabeça enorme, ora como um caboclinho encantado. Mora nas florestas ermas, de onde sai à noite a percorrer as estradas, e infeliz de quem o encontra: nesse dia tudo lhe sai mal, e o mesmo nos dias seguintes, enquanto durar a impressão do terror. Por extensão, caipora é a pessoa cuja presença pode prejudicar os negócios alheios, e também quem, apesar das boas intenções, se vê sempre contrariado; daí o caiporismo, a má sorte.
No Rio Grande do Sul, João Simões Lopes Neto escreve, na nota 8 das Lendas do Sul, de 1913, que o Caapora é um espírito com forma de homem, gigante, peludo e muito tristonho, que comanda as varas de porcos do mato e anda sempre montado sobre um deles. Quem topar com ele arrastará consigo a infelicidade, o caiporismo, pelo resto da vida: se era bom caçador ou pescador, torna-se mau, dá topadas no caminho, espinha-se nas roçadas, perde objetos, anda atrasado e apoquentado, e até os animais domésticos sentem a sua má influência e ficam doentes. No entanto, diz a nota, o Caapora protege a caça bravia dos matos. Na nota de abertura do livro, Simões Lopes Neto conta o caápora entre as lendas que vieram do centro e do norte do Brasil com a entrada dos mamelucos paulistas, e que, no Rio Grande do Sul, se apagaram no esquecimento.
Santa-Anna Nery, no Folk-lore brésilien, de 1889, registra que os caboclos de São Paulo acreditam no caapora, no cavalo sem cabeça e no saci-pererê, e remete, numa nota, ao livro Campos Novos, de Jorge Velho (Santos, 1878). Na tradução deste verbete: o caapora é o rei das florestas; é alto e cavalga um porco-do-mato vermelho, grande e magro, leva uma zagaia na mão direita e tem um olho só, no meio da testa, como os ciclopes. É um gênio mau e muito difícil de matar: só se consegue com uma bala de cera benta, e acertando bem no umbigo. Um morador do interior de São Paulo contou a Jorge Velho que só temia uma coisa no mundo, o caapora, e jurava que ele tinha aparecido a um tio seu. Perdido no mato, o tio acendeu uma fogueira; o caapora chegou, pôs-se a se esquentar e pediu o charuto dele para umas baforadas. O tio disparou a espingarda contra ele, dizendo que aquele era o charuto que ele usava. O caapora soltou fumaça pela boca e respondeu, sem se abalar, que o tabaco não era forte, mas tinha bom gosto; deu um piparote no tio e sumiu, e o homem ficou como morto até o dia seguinte.
Em 1890, na Poranduba amazonense, João Barbosa Rodrigues trata o Kaapora como um dos nomes que o Korupira, o curupira, recebe pelo caminho, e acompanha a figura de província em província. Atravessando o Rio Grande do Norte e a Paraíba, escreve, o Korupira toma o nome de Kaapora, torna-se inimigo dos cães de caça e toma a forma de qualquer animal para atraí-los ao meio do mato, onde os açoita com cipós ou os mata; quase sempre anda montado num veado ou num coelho, e o caçador que leva fumo e o dá quando ele pede pode contar com boa caça dali em diante. No Ceará, conserva o nome, mas perde o pelo do corpo, que vira uma cabeleira de cabelos hirtos, tem dentes afiados como os dos guaribas e olhos como brasas, sai das matas da serra montado num taititu, com uma chibata de iapecanga na mão, e não perdoa o caçador que invade os seus domínios sem licença, licença que se obtém com um pouco de fumo. Em Pernambuco, o Korupira reaparece como sinônimo de Kaapora; em alguns lugares tem um pé só, redondo, anda num veado, leva sempre um cão chamado Papa-mel e é um caboclo pequeno coberto de cabelos, que dizem ser a personificação da alma de caboclo pagão. Como em toda parte, escreve Barbosa Rodrigues, ali ele é protetor da caça, cuja destruição evita, mas nem sempre torna infelizes os que o encontram; para ganhar a simpatia dele, basta um presente de fumo.
As descrições variam entre os registros: gigante peludo e tristonho no Rio Grande do Sul de Simões Lopes Neto, homem alto de um olho só, montado num porco-do-mato, em São Paulo, no livro de Santa-Anna Nery, figura de cabelos hirtos e olhos de brasa no Ceará e caboclo pequeno e cabeludo, às vezes de um pé só, em Pernambuco, nos de Barbosa Rodrigues, e, no dicionário de Beaurepaire-Rohan, mulher de um pé só, criança de cabeça enorme ou caboclinho encantado, conforme a região. Nos relatos de Simões Lopes Neto, de Santa-Anna Nery e de Barbosa Rodrigues ele anda montado num bicho do mato; Simões Lopes Neto e Barbosa Rodrigues o dão como protetor da caça; Beaurepaire-Rohan e Simões Lopes Neto associam o encontro com ele à infelicidade, e em Pernambuco, segundo Barbosa Rodrigues, isso nem sempre acontece. Barbosa Rodrigues faz do Kaapora um nome do Korupira; Simões Lopes Neto trata o Caapora e o Curupira em notas separadas, a 8 e a 9.
Veja também: Curupira, o dos pés virados; Saci, o de uma perna só; Mula sem cabeça, a que corre de noite.
Para conferir
- Visconde de Beaurepaire-Rohan, Diccionario de vocabulos brazileiros, 1889, verbetes Caipóra e Caiporismo, p. 27, no Internet Archive: a corruptela de caápora, morador do mato, o ente fantástico representado, conforme a região, como mulher de um pé só que anda aos saltos, criança de cabeça enorme ou caboclinho encantado, as florestas ermas e as estradas à noite, o dia em que tudo sai mal, a pessoa que prejudica os negócios alheios, o malfadado e o caiporismo. Conferido na imagem da página.
- João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, Pelotas, Echenique & C., 1913, nota 8, O Caapóra, p. 89, no Wikisource: o espírito com forma de homem, gigante, peludo e tristonho, as varas de porcos do mato, a infelicidade (caiporismo) de quem o encontra, o caçador e o pescador, as topadas, os espinhos, os objetos perdidos, os animais domésticos e a caça bravia que ele protege.
- Lendas do Sul, 1913, Nota (p. 5) e notas 8 e 9 (p. 89), fac-símile no Wikimedia Commons: o caápora entre as lendas vindas do centro e do norte com os mamelucos paulistas, que se esfumaram no olvido, e o texto impresso da nota 8, O Caapóra, e da nota 9, O Curupira, separadas na mesma página, conferidos na imagem.
- Frederico José de Santa-Anna Nery, Folk-lore brésilien, Paris, Perrin, 1889, p. 254 a 256, no Internet Archive: os caboclos de São Paulo, a nota sobre Campos Novos, de Jorge Velho (Santos, 1878), o rei das florestas, o porco-do-mato vermelho, grande e magro, a zagaia, o olho no meio da testa, a bala de cera benta no umbigo, e o caso do tio, da fogueira, do charuto, do tiro, do tabaco de bom gosto e do piparote. A tradução do francês é deste verbete.
- João Barbosa Rodrigues, Poranduba amazonense, Rio de Janeiro, Leuzinger, 1890, Lendas mythologicas, p. 8 e 9, no Internet Archive: o Korupira que toma o nome de Kaapora no Rio Grande do Norte e na Paraíba, os cães de caça, o veado e o coelho, o fumo e a boa caça; no Ceará, a cabeleira hirta, os dentes de guariba, os olhos como brasas, o taititu, a chibata de iapecanga e a licença por um pouco de fumo; em Pernambuco, o sinônimo, o pé só e redondo, o veado, o cão Papa-mel, o caboclo pequeno coberto de cabelos, a alma de caboclo pagão, o protetor da caça e o presente de fumo. Conferido na imagem das páginas.
Na coleção Halloween, leitura 12 de 15
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