Mula sem cabeça, a que corre de noite novo
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A mula sem cabeça é uma assombração da noite, e este verbete reúne registros dela e de outras duas assombrações noturnas parecidas, que as fontes antigas não chamam de mula. O mais curto é de João Simões Lopes Neto, numa das notas que fecham as Lendas do Sul, de 1913. Depois de contar, na nota 13, o que diziam do lobisomem, ele escreve, na nota 14, que diziam também que as mulheres de má vida, relacionadas com padres, se transformavam, tarde da noite, em mula sem cabeça, levando na cauda um facho de fogo que nenhum vento nem chuva apagava antes de romperem as barras do dia. O verbo está no passado: é o que se dizia.
Em 1889, no Folk-lore brésilien, publicado em Paris, Frederico José de Santa-Anna Nery passa, como ele mesmo escreve, a outras superstições de origem portuguesa, e registra que no Pará, segundo Pádua Carvalho, há várias espécies de lobisomem. Uma delas, na tradução deste verbete: o lobisomem cuja cabeça se separa do corpo, e que chamam Kumacanga, é sempre a concubina de um padre, ou então o sétimo filho desse amor, que ele chama de sacrílego. O corpo fica em casa; só a cabeça sai, na noite de sexta-feira, e voa pelos ares como um globo de fogo. Nesse registro não há mula: há o fogo, a noite e a ligação com o padre, numa cabeça que voa sozinha.
No mesmo livro, num capítulo sobre crenças dos índios, Santa-Anna Nery diz que os caboclos de São Paulo acreditam no caapora, no cavalo sem cabeça e no saci-pererê, e remete, numa nota, a Campos Novos, livro de Jorge Velho publicado em Santos em 1878, que descreve os costumes do interior da província. O cavalo sem cabeça, escreve ele, não mora no mato, como o caapora: reina nas planícies, nos campos verdejantes, e passeia à noite, às sextas-feiras, ao luar. Os passos dele não deixam rastro, a não ser um buraquinho cercado por um círculo um pouco maior. Quem enfia uma vara nesse buraco percebe que ele não tem fundo, porque dá no inferno, e ninguém passa perto de um desses buracos sem fazer o sinal da cruz. Aqui o bicho é cavalo, e o texto não fala de padre.
Em 1918, Monteiro Lobato publicou O Sacy Perêrê: resultado de um inquérito, que reúne respostas a um inquérito sobre o saci. Num dos depoimentos, quem escreve lembra as histórias que ouvia, mais de quarenta anos antes, numa cidade do sul de Minas, e diz que as que metiam medo de verdade eram as do velho Zé Camillo. Entre elas estava a da mula sem cabeça, botando fogo pelos olhos, que tinha sido em vida moça de padre e andava galopando à noite pelos espigões.
Comparados, esses registros apresentam figuras diferentes, em regiões diferentes: no Rio Grande do Sul de Simões Lopes Neto e no sul de Minas do depoimento de 1918, uma mula sem cabeça com fogo, na cauda ou nos olhos; no Pará de Pádua Carvalho, uma cabeça que voa como globo de fogo; nos campos de São Paulo descritos por Santa-Anna Nery, um cavalo sem cabeça que deixa buracos sem fundo. Três registros associam a assombração à relação de uma mulher com um padre. Nos dois relatos da mula, ela é a mulher transformada; no da Kumacanga, é a concubina ou o sétimo filho dessa relação, cuja cabeça sai enquanto o corpo fica em casa. Esse julgamento é de quem contava a história, e este verbete o registra sem tomá-lo como seu. Santa-Anna Nery põe a crença do Pará entre as de origem portuguesa; as outras fontes não dizem de onde vêm as figuras que registram.
Veja também: Saci, o de uma perna só; Boitatá, a cobra de fogo; Cuca, a que assusta as crianças; Negrinho do Pastoreio, o afilhado da Virgem; Caipora, o que protege a caça.
Para conferir
- João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, Pelotas, Echenique & C., 1913, nota 14, p. 91, no Wikisource: na nota 14, o que diziam das mulheres relacionadas com padres, a transformação tarde da noite em mula sem cabeça, o facho de fogo na cauda que nenhum vento ou chuva apagava antes de romperem as barras do dia.
- Lendas do Sul, 1913, fac-símile no Wikimedia Commons: o texto impresso das notas 13 e 14 na p. 91, com o lobisomem na nota 13 e o também da nota 14, conferido na imagem.
- Frederico José de Santa-Anna Nery, Folk-lore brésilien, Paris, Perrin, 1889, p. 31 e p. 254 a 256, no Internet Archive: as outras superstições de origem portuguesa, as várias espécies de lobisomem do Pará segundo Pádua Carvalho, a Kumacanga, cabeça que se separa do corpo, concubina de um padre ou sétimo filho, que voa na noite de sexta-feira como globo de fogo (p. 31); os caboclos de São Paulo, a nota sobre Campos Novos, de Jorge Velho (Santos, 1878), e o cavalo sem cabeça das planícies, das sextas-feiras ao luar, do buraquinho sem fundo que dá no inferno e do sinal da cruz (p. 254 a 256). A tradução do francês é deste verbete.
- Monteiro Lobato, O Sacy Perêrê: resultado de um inquérito, São Paulo, Secção de Obras d'O Estado de S. Paulo, 1918, p. 29, no fac-símile de 1998, no Internet Archive: o depoimento sobre as histórias de mais de quarenta anos antes, numa cidade do sul de Minas, as do velho Zé Camillo, e a mula sem cabeça botando fogo pelos olhos, que foi em vida moça de padre e andava galopando à noite pelos espigões.
Na coleção Halloween, leitura 10 de 15
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