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Rá, o sol de muitos nomes novo

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Rá é o deus do sol do Egito antigo, e é difícil de resumir porque o mesmo deus aparece com muitos nomes e muitas formas. Na lenda contada no verbete Ísis e o nome secreto de Rá, ele mesmo diz que é Khepera de manhã, Rá ao meio-dia e Temu à tarde, e o egiptólogo E. A. Wallis Budge anota que eram as três formas principais do deus Sol na teologia dos sacerdotes de Heliópolis, a cidade que os egípcios chamavam de Annu, ou On. Heródoto, no livro II das Histórias, na tradução de G. C. Macaulay (1890), conta que uma das grandes assembleias religiosas dos egípcios se fazia em Heliópolis em honra do Sol, que ele chama pelo nome grego, Hélio. O povo de lá lhe falou da fênix, que viria da Arábia de quinhentos em quinhentos anos para enterrar o pai no templo do Sol; Heródoto diz que só viu a ave em pintura e que não acredita na história. As citações deste verbete vêm de traduções e livros em inglês, passados ao português aqui.

No Livro dos Mortos, a coleção de textos funerários egípcios que Budge apresenta em The Book of the Dead, de 1920, os grandes papiros começam com um hino a Rá. Budge escreve que Rá era o rei dos deuses do Egito desde a IV dinastia e que o culto dele se firmou na V. No hino, o morto saúda Rá no seu belo nascer: o barco da manhã encontra o barco da tarde com bons ventos, e o deus é saudado nas suas formas de Hórus, Tem e Khepera, o grande falcão. É o deus que se criou a si mesmo, que fez a terra e o céu, os homens e os animais, e que renova a juventude e volta ao lugar onde estava ontem; o hino diz também que o demônio Nak foi derrubado. Num papiro datado de 311 antes de Cristo, Budge traduziu partes do Livro de derrubar Apep, uma série de fórmulas contra Apep, a grande serpente que, à frente dos demônios do mundo de baixo, tentava manter o deus Sol preso nas trevas e impedir que ele nascesse de manhã.

Uma lenda sobre ele está escrita nas paredes de uma pequena câmara do túmulo do rei Seti I, em Tebas, e Budge a traduz em Legends of the Gods, de 1912, como a Lenda da Destruição da Humanidade. Rá, o deus que se criou a si mesmo, reinava sobre homens e deuses e envelheceu: os ossos viraram prata, os membros ouro, o cabelo lápis-lazúli. Os homens começaram a se queixar dele. Rá reuniu os deuses antigos e pediu conselho a Nu, de quem tinha vindo, e eles mandaram o Olho de Rá contra os homens, na forma de Hátor; a deusa, chamada ali também de Sekhet, matou os que tinham fugido para o deserto. Depois Rá quis proteger os homens dela. Mandou buscar em Elefantina frutos que Budge, seguindo uma sugestão de Brugsch, traduz provisoriamente por mandrágoras, misturou-os à cerveja com sangue dos mortos e encheu sete mil jarros, derramados à noite nos campos por onde ela ia passar. De manhã a deusa achou os campos inundados, bebeu, ficou embriagada e não deu mais atenção aos homens. Cansado de viver entre eles, Rá subiu às costas da deusa do céu, Nut, transformada em vaca, e se afastou. A lenda explica costumes, como os jarros de cerveja da festa de Hátor.

Rá também foi juntado a outros deuses, e é daí que vêm os nomes compostos. Budge explica que, quando um deus era identificado com uma das formas do deus Sol, passava a ter os atributos dela. Amon-Rá é o caso mais conhecido. Em The Gods of the Egyptians, de 1904, Budge diz que Amon, ou Amen, cujo nome se costuma entender como o oculto, era um deus de importância apenas local, com centro em Tebas, até a XII dinastia. Quando os príncipes de Tebas passaram a reinar sobre o Egito, os sacerdotes de Amon declararam que ele era outra forma do grande deus Sol criador adorado havia séculos em Heliópolis com os nomes de Rá, Temu, Khepera e Heru-khuti, que tinha todos os atributos deles e era maior que eles, e Amon-Rá virou o rei dos deuses. Rá-Horakhty, que Budge escreve Ra-Heru-khuti, junta Rá a Heru-khuti, Hórus dos dois horizontes: uma das principais formas do deus Sol, o sol no seu percurso diário pelo céu, do monte do nascente ao monte do poente. Budge registra ainda Rá-Tem, a junção com o deus do sol poente, e, já no Livro dos Mortos do começo da XVIII dinastia, a frase em que o morto diz: eu sou Rá-Osíris.

Na lenda de Hórus de Edfu e do Disco Alado, que Budge traduz de inscrições do templo de Edfu, o deus, chamado Rá-Harmachis na tradução dele, viaja no seu barco pelo Egito e manda Hórus de Behutet, que ele chama de filho, combater os seus inimigos. O nome de Rá aparece também ligado a outras divindades: Bastet, diz Budge, era chamada olho de Rá (o verbete Bastet, a deusa de Bubástis, conta mais), e, por um dos pontos de vista que Budge registra, Anúbis era filho de Rá. O mesmo deus que nasce de manhã e se põe à tarde, e que nem os deuses conhecem por todos os nomes, atravessa a religião egípcia de ponta a ponta, mudando de nome conforme a cidade, a época e o momento do dia.

Veja também: Ísis e o nome secreto de Rá; Osíris e Ísis; Anúbis, o que cuida dos mortos; Bastet, a deusa de Bubástis.

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