Curupira, o dos pés virados novo
- Tamanho
- 847 palavras
O registro mais antigo que este verbete usa é uma carta em latim que o jesuíta José de Anchieta escreveu em São Vicente, no fim de maio de 1560, descrevendo as coisas naturais da província. Depois das árvores, das ervas e das pedras, ele diz que vai acrescentar poucas palavras sobre as aparições noturnas, ou antes demônios, que costumam aterrorizar os índios. Na tradução deste verbete: é coisa sabida, e corre na boca de todos, que há certos demônios, a que os índios, que a carta chama de brasis, dão o nome de corupira, que muitas vezes os atacam no mato, os açoitam, os maltratam e os matam; os irmãos da Companhia, que algumas vezes viram mortos por eles, são testemunhas. Por isso, conta Anchieta, os índios costumam deixar, num caminho que sobe por matas ásperas e montes íngremes para o interior, no alto do monte mais elevado, penas de aves, abanos, flechas e outras coisas, como oferenda, pedindo muito aos corupiras que não lhes façam mal. É o olhar de um missionário, que chama de demônio o que descreve. O anotador da edição da Academia Real das Ciências de Lisboa, de 1812, escreveu por sua vez que não admira que um homem de tanta piedade desse crédito ao que ele chamou de delírios dos índios, porque histórias horríveis de espectros e demônios aparecem em muitos escritores doutos de todos os tempos.
Couto de Magalhães, em O Selvagem, de 1876, lê a figura de outro modo. Para ele, o Curupira é o deus que protege as florestas. As tradições o representam como um pequeno tapuio, com os pés voltados para trás e sem os orifícios necessários às secreções do corpo, e por isso a gente do Pará diz que ele é mussiço. Curupira, ou Currupira, como se diz no Sul, aparece numa infinidade de lendas, no norte e no sul do Império. No Pará, quando se viaja pelos rios e se ouve uma pancada distante no meio do mato, os remeiros dizem que é o Curupira batendo nas sapupemas, para ver se as árvores estão fortes o bastante para aguentar alguma tempestade próxima. Quem derruba ou estraga à toa as árvores é castigado por ele: erra por tempo imenso pelo mato, sem atinar com o caminho de casa nem com meio de chegar aos seus.
Na mesma obra, Couto de Magalhães responde aos que dizem que o Anhangá, o Curupira e o Caapora só sabem fazer mal ao homem. Isso vale, escreve, para as tradições do povo modificadas pelo cristianismo, mas não porque esses seres sejam maus por natureza: os índios, segundo ele, dão a cada ordem da criação um deus protetor, uma espécie de mãe, e nas histórias que contam quase sempre há um homem que persegue aquilo que o deus protege; o mal que o deus lhe faz é castigo. É a leitura de um estudioso do século 19, que organiza as crenças numa teogonia tupi, e que neste ponto diverge da carta de Anchieta, onde os corupiras atacam os índios sem motivo dito.
Em 1890, na Poranduba amazonense, João Barbosa Rodrigues chama a figura de Korupira e a aproxima do Kaapora, que muda de nome conforme a região. Na Bahia, diz ele, o nome Korupira desapareceu, trocado pelo de Kaiçara, mas existiu, e para prová-lo cita a mesma carta de Anchieta, que ele data de maio de 1550; o latim impresso em 1812 traz 1560. É sempre o fumo para o cachimbo, escreve, que lhe abranda a raiva, e com ele se compra a sorte na caça ou a licença para andar pelas florestas que têm o Korupira por protetor. Nos campos do Rio Grande do Sul, conta, ele deixa a montaria e anda só a pé, mas com pés duplos, para que não se saiba se vai para a frente ou para trás.
Nas notas das Lendas do Sul, de 1913, João Simões Lopes Neto descreve um Curupira mais sombrio: o espírito malfazejo do mato, que enreda os trilhos do caminho para enganar os andantes e sugar-lhes o sangue. Andam sempre em casal e moram no oco das árvores de madeira de lei; aparecem de repente, fazem as suas trapaças e se escondem de tocaia, rindo em silêncio. O Curupira é como um tapuio pequeno, de dentes verdes e pés virados para trás. Quando ele persegue alguém, diz a nota, o melhor meio de fugir é, nas palavras dela, atirar-lhe e ir deixando pelo caminho cruzes e rodilhas de cipó trançadas: ele se distrai examinando o achado e destrançando-o, e enquanto isso o perseguido escapa.
Os pés virados para trás estão em Couto de Magalhães e em Simões Lopes Neto; os pés duplos, no Rio Grande do Sul de Barbosa Rodrigues. O que muda de uma fonte para outra é o caráter da figura: demônio que ataca os índios, na carta do missionário; deus que protege as florestas e castiga quem as destrói à toa, em Couto de Magalhães; protetor das matas que se acalma com fumo, em Barbosa Rodrigues; espírito malfazejo que suga o sangue dos andantes, na nota gaúcha de 1913.
Para conferir
- José de Anchieta, carta de São Vicente, maio de 1560, em latim, na Collecção de noticias para a historia e geografia das nações ultramarinas, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1812, tomo I, n. III, parágrafo XLVI, p. 161 a 163 e nota 85, no Internet Archive: as aparições noturnas ou demônios, os corupira que atacam, açoitam, maltratam e matam os índios, os irmãos como testemunhas, as penas, abanos e flechas deixados no alto do monte, a data no fim da carta e a nota do anotador sobre a crença de Anchieta. A tradução do latim é deste verbete.
- José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, Typographia da Reforma, 1876, parte II, Família e religião selvagem, p. 128, 138 e 139, no Internet Archive: o deus que protege as florestas, o pequeno tapuio de pés voltados para trás, o mussiço do Pará, Currupira no Sul, as pancadas nas sapupemas, o castigo de errar pelo mato e a resposta aos que negam boas ações a esses seres.
- João Barbosa Rodrigues, Poranduba amazonense, Rio de Janeiro, Leuzinger, 1890, p. 12, no Internet Archive: o Korupira trocado por Kaiçara na Bahia, a citação de Anchieta datada de maio de 1550, o fumo para o cachimbo, a sorte na caça e os pés duplos no Rio Grande do Sul.
- João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, Pelotas, Echenique & C., 1913, nota 9, O Curupira, p. 89, no Wikisource, com o fac-símile: o espírito malfazejo que enreda os trilhos e suga o sangue, o casal no oco dos paus de lei, o tapuio pequeno de dentes verdes e pés às avessas, e a fuga com cruzes e rodilhas de cipó.



