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Cuca, a que assusta as crianças novo

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Cuca é um nome com que se mete medo às crianças no Brasil. Em 1889, o Diccionario de vocabulos brazileiros, do visconde de Beaurepaire-Rohan, explica que fazer cuca ou cucas é procurar meter medo às crianças, e dá o exemplo de quem diz: se continuas a chorar, chamarei a onça para que te coma. Num segundo exemplo, um vizinho avisado do perigo responde que não tem medo de cucas. O dicionarista acrescenta que Moraes registra côco no mesmo sentido e que Aulete nada diz a respeito.

O mesmo dicionário traz um segundo verbete, marcado para Pernambuco e Alagoas: cuca é mulher velha e feia, espécie de feiticeira, que pode com seus sortilégios causar males à gente, e também lhe chamam coróca, curuca e curumba. A informação, diz o verbete, vem de quem ele indica como B. de Maceió. As duas entradas distinguem, assim, o uso de cuca para meter medo e, em Pernambuco e Alagoas, o nome dado a uma mulher tida como feiticeira.

Em Portugal, Teófilo Braga, em O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, de 1885, conta entre os fenômenos que as superstições populares personificam o terror da escuridão ou do desconhecido, nos nomes Medo, Cousa ruim, Coca, Coca Loba e Farronca. Numa nota, cita uma fala das Óperas de António José que junta fantasma, quimera, sombra, ilusão, côco e papão. No mesmo livro, transcreve do Almanach de Lembranças para 1867 a procissão de Corpus Christi em Monção: um São Jorge a cavalo entra no campo da feira à procura da Santa Coca para travar combate com ela. A Coca é um monstro em figura de dragão, feito de arcos cobertos de lona e montado sobre rodas, com asas, pontas e uma grande cauda retorcida; a boca, de molas, abre e fecha puxada por uma corda, para meter medo ao cavalo, e depois de muitos assaltos São Jorge sempre consegue transpassar o costado do monstro. Nenhuma das fontes deste verbete liga expressamente a coca portuguesa à cuca brasileira; Beaurepaire-Rohan só aproxima a cuca do côco registrado por Moraes.

Em 1918, numa das páginas de abertura de O Sacy Perêrê: resultado de um inquérito, Monteiro Lobato dedica o livro à memória da saudosa tia Esméria e de quanta preta velha, escreve ele, nos pôs, em criança, de cabelos arrepiados com histórias de cucas, sacis e lobisomens. A cuca aparece ali no plural, ao lado do saci e do lobisomem, entre as histórias que se contavam às crianças.

Na edição digital de O Saci preparada por Iba Mendes em 2019, com a ortografia atualizada, que diz reproduzir o livro infantil de Lobato publicado originalmente em 1921, a Cuca participa da aventura de Pedrinho. O menino se lembra da Cuca como a bruxa das histórias que a ama lhe contava quando pequeno, e dos versos com que ela o fazia dormir: durma, nené, que a Cuca já lá vem. O saci a chama de Rainha das Coisas Feias e diz que ela é poderosa e má, um monstro de três mil anos que só dorme uma noite a cada sete anos. É a Cuca quem rapta Narizinho, e Pedrinho, com a ajuda do saci, vai até a caverna dela; quando enfim a vê, à luz de uma fogueira, ela tem cara de jacaré e garras nos dedos como as dos gaviões. Este verbete não conferiu esse texto com o da primeira edição.

Veja também: Saci, o de uma perna só; Mula sem cabeça, a que corre de noite; Curupira, o dos pés virados.

Para conferir

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