Thor na casa de Utgarda-Loki novo
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Na Edda em Prosa, a viagem de Thor até Útgarda-Loki (a grafia é a da tradução de Arthur G. Brodeur, de 1916) está na Gylfaginning, e começa com uma recusa. Gangleri pergunta se Thor já encontrou pelo caminho alguém tão forte que o vencesse pela magia. Hárr responde que poucos saberiam contar isso e que, mesmo que tenha havido, não é preciso falar no assunto, porque todos são obrigados a crer que Thor é o mais forte. Gangleri insiste e diz que os dá por vencidos se não responderem. Quem conta, então, é Thridi, avisando que a história não lhes parece agradável de contar.
Thor sai no seu carro de bodes, com Loki, e pede pouso na casa de um lavrador. Mata os dois bodes, que são esfolados e cozidos, convida para a ceia o lavrador, a mulher e os filhos, Thjálfi e Röskva, e manda jogar os ossos sobre as peles. Thjálfi racha com a faca um osso da coxa para tirar o tutano. Antes do dia, Thor ergue o martelo Mjöllnir e consagra as peles; os bodes se levantam, mas um deles manca de uma pata traseira. Thor entende que o osso foi quebrado, franze as sobrancelhas e aperta o cabo do martelo até os nós dos dedos branquearem. A família grita, pede paz e oferece tudo o que tem. Ao ver o medo deles, a fúria passa, e Thor aceita como reparação os dois filhos, que se tornam seus servos e o seguem desde então.
Deixando os bodes, Thor segue para o leste, rumo a Jötunheim, atravessa o mar e continua a pé com Loki, Röskva e Thjálfi, o mais rápido de todos os homens, que leva o saco de Thor. À noite se abrigam num salão enorme, com uma porta da largura inteira, e à meia-noite a terra treme; eles se refugiam num cômodo lateral, e Thor fica na entrada com o martelo. De manhã, ele encontra no bosque um homem nada pequeno, dormindo e roncando alto. O homem acorda, e Thor, pela primeira vez, diz o texto, não tem coragem de golpear. É Skrýmir, que já sabe quem ele é e pergunta se Thor arrastou a sua luva: o salão era a luva, e o cômodo, o polegar. Skrýmir junta as provisões de todos num saco só, e à noite Thor não consegue desatar nenhum nó. Furioso, bate três vezes com o Mjöllnir na cabeça do gigante adormecido, e a cada vez Skrýmir acorda e pergunta se caiu uma folha, uma bolota ou um pouco de sujeira dos galhos. De manhã, aconselha os viajantes a não se gabarem no castelo de Útgardr, onde verão homens maiores que ele, e diz que seria melhor voltar.
Os quatro seguem e, ao meio-dia, avistam o castelo, tão alto que precisam encostar a nuca nas costas para ver o topo. A grade do portão está fechada, e eles passam entre as barras. Útgarda-Loki os olha sem pressa, sorri com desprezo e pergunta se aquele pirralho é Öku-Thor: ali só fica quem sabe alguma arte melhor que a maioria. Loki diz que ninguém come mais depressa do que ele e enfrenta Logi diante de um cocho cheio de carne; os dois se encontram no meio, mas Loki comeu só a carne, e Logi comeu a carne, os ossos e o cocho. Thjálfi corre três vezes contra um rapaz chamado Hugi e perde por mais a cada vez. Thor aceita beber de um chifre que, segundo o rei, ninguém deixa de esvaziar em três goles, e depois de três goles o chifre só baixou um pouco. Tenta erguer o gato do rei, cinzento e muito grande, e só consegue tirar uma pata do chão. Zangado, pede alguém para lutar, e o rei chama a velha Elli, sua ama; depois de muito esforço, Thor cai sobre um joelho. Já é noite, e eles são acomodados e bem tratados.
De manhã, Útgarda-Loki serve a mesa, sai com eles e, já do lado de fora, conta a verdade: se soubesse da força de Thor, nunca o teria deixado entrar, e não vai deixar de novo. Tudo foram ilusões dos olhos. Skrýmir era ele mesmo; o saco estava amarrado com ferro, e os três golpes, dos quais o menor o teria matado, caíram numa montanha que ele pôs no caminho sem Thor ver, e as marcas do martelo são os vales que cortam o alto dela, um deles o mais fundo. Logi era o fogo selvagem, que queimou o cocho tão depressa quanto a carne; Hugi era o pensamento do rei. A outra ponta do chifre estava no mar, e o que Thor bebeu se vê na praia: é o que passou a se chamar maré vazante. O gato era a Serpente de Midgard, que rodeia a terra inteira, e todos se assustaram quando ele levantou uma pata do chão. Elli era a Velhice, que derruba quem vive o bastante, e Thor só caiu sobre um joelho. Thor ergue o martelo, mas o rei não está mais ali, e onde estava o castelo só há uma planície larga e bonita. O narrador acrescenta que foi então que Thor resolveu ir ao encontro da Serpente, e na seção seguinte Hárr conta a pescaria com o gigante Hymir, em que Thor engana a Serpente tanto quanto Útgarda-Loki tinha zombado dele.
Para conferir
- Snorri Sturluson, Edda em Prosa, Gylfaginning, seção XLIV, tradução de Arthur Gilchrist Brodeur, 1916, no Wikisource: a pergunta de Gangleri, a recusa de Hárr, Thridi que conta, os bodes, o osso rachado por Thjálfi e os filhos do lavrador.
- Gylfaginning, seções XLV e XLVI, mesma tradução: Skrýmir e a luva, o saco de provisões, os três golpes, o conselho, o castelo de Útgardr e as provas de Loki, Thjálfi e Thor.
- Gylfaginning, seções XLVII e XLVIII, mesma tradução: a revelação das ilusões, a montanha, o fogo, o pensamento, o mar, a Serpente, a Velhice, o castelo que some e a pescaria com Hymir.



