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Loki, o que traz o perigo e a saída novo

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Na Edda em Prosa, Loki é contado entre os deuses de Ásgard sem ser um deles de nascimento. Snorri Sturluson, na Gylfaginning, diz que alguns o chamam de causador de males dos deuses, o primeiro pai das mentiras e a mancha de deuses e homens. É filho do gigante Fárbauti; a mãe se chama Laufey ou Nál. Snorri o descreve bonito de ver, mau de espírito e muito volúvel, e mais hábil que todos naquela sabedoria que se chama astúcia: vive metendo os deuses em grandes apertos e depois os tira deles com conselhos espertos. A mulher dele é Sigyn, e o filho dos dois se chama Nari ou Narfi. No Lokasenna, da Edda Poética, Loki lembra a Odin que os dois misturaram o sangue nos velhos tempos, e Henry Adams Bellows, que traduziu o poema em 1923, explica em nota que Loki, filho de gigantes, não era da raça dos deuses, mas tinha sido praticamente adotado por Odin. Irmão de sangue de Odin, portanto; nenhuma das fontes deste verbete faz dele irmão de Thor. As citações vêm das traduções inglesas de Arthur Gilchrist Brodeur (1916) e de Bellows, passadas ao português aqui.

Com a giganta Angrboda, Loki teve três filhos: o lobo Fenrir, a Serpente de Midgard e Hel. Os deuses souberam por profecias que dessa família viria grande desgraça e mandaram buscar as crianças. Odin, o Pai de Todos, jogou a serpente no mar, onde ela cresceu até rodear a terra e morder a própria cauda, e mandou Hel para Niflheim, com poder sobre nove mundos, para repartir as moradas entre os que lhe são enviados, os que morrem de doença ou de velhice; o lobo, criado em casa pelos deuses, acabou preso com a fita Gleipnir, ao custo da mão de Týr. A mistura de estrago e remédio aparece de novo na história do construtor que pediu Freya, o sol e a lua como paga por uma fortaleza. Foi Loki quem aconselhou deixá-lo usar o garanhão Svadilfari, que fazia o dobro do trabalho do dono. A três dias do fim do prazo, com a obra quase pronta, os deuses o ameaçaram de morte, e ele jurou dar um jeito. Naquela noite uma égua saiu do bosque, o garanhão fugiu atrás dela, e a obra parou. Snorri conta que algum tempo depois Loki deu à luz um potro cinzento de oito patas, Sleipnir, o melhor cavalo entre deuses e homens, que nas outras histórias é o cavalo de Odin; Bellows, em nota, diz com todas as letras que Loki tinha virado égua.

Na Skáldskaparmál, a parte da Edda sobre a linguagem dos poetas, Loki corta, por malícia, todo o cabelo de Sif, mulher de Thor. Para escapar da fúria do marido, jura conseguir dos elfos negros um cabelo de ouro que cresça como cabelo de verdade. Os anões filhos de Ívaldi fazem o cabelo, o navio Skídbladnir e a lança Gungnir. Loki aposta a cabeça com o anão Brokkr que o irmão dele, Sindri, não faria três coisas tão boas; enquanto Brokkr sopra o fole, uma mosca o pica três vezes, e saem da forja o javali de cerdas de ouro, o anel Draupnir e o martelo Mjöllnir, de cabo um pouco curto. Os deuses julgam o martelo a melhor de todas as obras. Loki perde a aposta, foge com os sapatos com que corria pelo ar e pela água, Thor o pega, e o anão, que pode ficar com a cabeça mas não com o pescoço, costura os lábios dele com uma tira. Em outra história do mesmo livro, preso por um juramento que um gigante em forma de águia lhe arrancou, Loki atrai Idunn para fora de Ásgard, e o gigante Thjazi a leva; ameaçado pelos deuses, ele a traz de volta voando com a plumagem de falcão de Freya, com Idunn transformada em noz nas garras. E no Thrymskvitha, da Edda Poética, é ele quem descobre com o gigante Thrym onde está o martelo roubado de Thor e vai junto, vestido de criada, respondendo pela falsa noiva.

O dano maior vem com Baldr. Frigg tinha tomado juramento de todas as coisas para que não ferissem o filho, e os deuses se divertiam atirando nele. Loki, disfarçado de mulher, descobre com ela que um broto de visco, a oeste do Valhalla, ficou sem jurar por ser novo demais; arranca o visco, leva à assembleia e guia a mão de Hödr, o deus cego, que atira e mata Baldr. Quando Hel aceita devolver Baldr se todas as coisas do mundo chorarem por ele, só uma giganta numa caverna, Thökk, se recusa, e Snorri escreve que se julga que era Loki. Os deuses o caçam. Ele se esconde numa casa de quatro portas e, de dia, vira salmão numa cachoeira; é pego com uma rede feita pelo modelo da que ele mesmo tinha tramado e queimado. Fica preso numa caverna sobre três pedras, amarrado com as entranhas de um dos filhos, que viram ferro. Aqui as fontes trocam os filhos: em Snorri, Váli, transformado em lobo, mata o irmão Narfi, e é com as entranhas de Narfi que Loki é amarrado; na prosa que fecha o Lokasenna, as entranhas são de Váli, e é Narfi que vira lobo. Skadi pendura sobre ele uma serpente cujo veneno pinga no seu rosto, e Sigyn, a mulher, fica ao lado segurando uma bacia. Quando ela sai para esvaziá-la, o veneno o atinge, e ele se debate tanto que a terra treme: são os terremotos, diz Snorri. Ali ele fica até o Ragnarök. Bellows anota que o compilador do Lokasenna ligou o castigo ao banquete de insultos, e que Snorri, ao ligá-lo à morte de Baldr, segue a tradição certa.

No fim do mundo, Loki está no campo da última batalha ao lado dos gigantes, e ele e Heimdallr matam um ao outro (o verbete O Ragnarök conta a batalha). Duas confusões são comuns. O Útgarda-Loki do verbete Thor na casa de Útgarda-Loki é outro, o gigante senhor daquele castelo; Loki está na história como companheiro de Thor e perde a prova de comer para Logi, que, explica o próprio gigante no fim, era o fogo. E Bellows, numa nota de 1923, chama Loki de deus do fogo, mas a Gylfaginning, que o descreve com tanto cuidado, não diz isso. Na lista dos nomes que os poetas usavam para ele, na Skáldskaparmál, aparecem juntos o parente e companheiro de banco de Odin e dos deuses, o ladrão das maçãs de Idunn e do colar Brísingamen, o deus astuto, o inimigo dos deuses, o que tramou a morte de Baldr e o deus amarrado. Na Edda, o que tira os deuses de apuros e o que os põe neles são a mesma figura.

Veja também: Freya, a das lágrimas de ouro; Thor na casa de Utgarda-Loki; O Ragnarök; Odin e o hidromel da poesia; Sigurd e o dragão Fáfnir.

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