Väinämöinen e a cantoria com Joukahainen novo
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O episódio é a runa III do Kalevala, a epopeia que Elias Lönnrot montou com cantos populares finlandeses. Este verbete segue a tradução inglesa de W. F. Kirby, de 1907, e confere alguns trechos com a de John Martin Crawford, de 1888, que escreve Wainamoinen e Youkahainen. O verbete Väinämöinen e o Sampo conta um episódio posterior; este é o da cantoria. O resumo que Kirby põe no alto da runa diz o essencial: Joukahainen sai para disputar sabedoria com Väinämöinen, não consegue vencê-lo, desafia-o para um duelo, e Väinämöinen, irritado, o afunda num pântano com os seus cantos. O poema começa com Väinämöinen nos prados de Väinölä e nas charnecas de Kalevala, cantando dia após dia, sem cansar, os cantos de eras passadas e as palavras escondidas da sabedoria antiga, que nem todas as crianças cantam. A notícia chega até Pohjola, onde mora o jovem Joukahainen, que Kirby chama de o magro rapaz da Lapônia. Ele ouve na aldeia que há longe outro cantor, de cantos melhores que os dele e melhores que os que o pai lhe ensinou, e o coração se enche de inveja. O pai e a mãe o proíbem de ir: Väinämöinen vai cantar contra ele e enterrá-lo na neve até as mãos e os pés ficarem duros. Joukahainen responde que o conselho do pai é bom, o da mãe é melhor e o dele mesmo é o melhor de todos, e promete calçar o rival com sapatos de pedra e cobrir-lhe a cabeça com um elmo de pedra.
Atrela um cavalo que solta fogo pela boca a um trenó de ouro e viaja três dias. No terceiro chega aos prados de Väinölä e bate de frente com o trenó de Väinämöinen: os varais se encaixam, as rédeas se embaraçam, as coleiras se prendem uma na outra. Väinämöinen pergunta quem é aquele que corre sem pensar e lhe quebrou o trenó, e, ao ouvir o nome, pede que o mais moço saia do caminho. Joukahainen responde que idade não importa: quem tiver mais saber fica com a estrada, e o outro cede. Propõe que os dois cantem, para ver quem ensina e quem supera. Väinämöinen responde com modéstia que passou a vida quieto, naquelas mesmas charnecas, ouvindo o cuco na beira do campo, e pede que o outro diga o que sabe.
Joukahainen começa pelo que está à vista: no telhado fica o buraco da fumaça, e o fogo fica perto da lareira; a foca vive feliz nas ondas, o lúcio desova no tempo de geada. No Norte se lavra com renas, no Sul com a égua, e no fundo da Lapônia com o alce; em Crawford, a Lapônia do interior lavra com bois. Conhece as árvores do monte Pisa, os abetos das pedras de Horna e três grandes cachoeiras, Hälläpyörä, Kaatrakoski e a Imatra, no Vuoksi, à qual as duas primeiras não se comparam. Väinämöinen chama aquilo de histórias de criança e sabedoria de mulher, impróprias para homens de barba, e pede as coisas eternas. Joukahainen tenta de novo: o chapim é um passarinho, a víbora é uma cobra, o ferro é duro, a água é o remédio mais antigo, o Criador é um feiticeiro e Jumala é o Grande Mago; a terra de pântano é a mais velha, e a primeira árvore foi o salgueiro. Väinämöinen pergunta se acabou a bobagem. Então Joukahainen diz que foi ele quem lavrou o oceano, cavou as tocas dos peixes e amontoou os montes, e que, quando a terra foi criada, estava lá com seis grandes heróis, ele o sétimo, firmou as colunas do céu, deu à lua o seu caminho, ajudou o sol, pôs a Ursa no lugar e espalhou as estrelas. Väinämöinen o chama de mentiroso sem vergonha (em Crawford, príncipe dos mentirosos): ninguém o viu nem o ouviu quando o mundo foi feito.
Joukahainen diz que, se lhe falta entendimento, vai buscá-lo na ponta da espada, e chama o velho de cantor de boca larga. Väinämöinen responde que não vai puxar a espada contra um sujeito tão desprezível. Joukahainen sacode a cabeça, de boca torta, joga para trás os cabelos, pretos em Kirby e dourados em Crawford, e ameaça cantar o rival até virar um porco de focinho e jogá-lo no esterco do curral. Väinämöinen se enfurece e canta, mas não cantigas de criança: canta um canto de heróis barbados. Os lagos se erguem, a terra treme, as montanhas de cobre estremecem e as pedras da praia se partem. Os patins do trenó de Joukahainen viram mudas de árvore, a coleira vira salgueiro, as rédeas viram amieiro; o trenó vai parar num lago entre os juncos, o chicote vira caniço, e o cavalo, uma pedra junto à corredeira. A espada vira relâmpago no céu, a besta vira arco-íris sobre a água, as flechas viram gaviões, o cão vira pedra; o gorro vira nuvem, as luvas viram nenúfares, o casaco azul vira nuvem de lã e o cinto vira estrelas. Em Crawford, o gorro vira vapor, as luvas viram juncos e é a veste púrpura que vira nuvem branca. Enquanto o velho canta, Joukahainen afunda no pântano até a cintura, até o quadril, até as axilas, e entende que perdeu.
Pede que Väinämöinen diga as palavras ao contrário e oferece, uma oferta de cada vez, um resgate: uma de suas duas bestas, um de seus dois barcos, um de seus dois garanhões, à escolha de Väinämöinen, um elmo de ouro e um chapéu cheio da prata que o pai ganhou na guerra, os seus campos e as suas medas. A cada oferta Väinämöinen responde que já tem de sobra, e a cada recusa o canto o afunda mais, até o queixo, com a barba na lama, a boca no musgo e os dentes entre as raízes. Então Joukahainen oferece a irmã, Aino, a filha da sua mãe, para varrer a casa de Väinämöinen, lavar as roupas, tecer panos de ouro e assar bolos de mel. Väinämöinen se alegra, porque lhe prometem quem cuide da sua velhice, senta-se na pedra da alegria, canta uma hora, outra e uma terceira, e desfaz o encanto. Joukahainen tira o queixo da lama, recupera o cavalo, o trenó e o chicote e volta para casa tão perturbado que quebra o trenó na porta. Chorando, conta à mãe que prometeu Aino ao cantor, para amparar os passos fracos dele. A mãe bate palmas: sempre quis aquele herói de alta linhagem como genro. Aino chora na soleira, dois dias, pelos cabelos que agora terão de ficar escondidos, pela luz do sol e da lua e pela oficina do irmão, junto à janela do pai. A mãe responde que o sol de Deus brilha também em outras portas e que há frutinhas em todos os montes. A runa termina aí; o que acontece com Aino é a runa IV, que Crawford intitula O destino de Aino e que este verbete não conta.
Para conferir
- Kalevala, compilado por Elias Lönnrot, tradução de William Forsell Kirby, 1907, runa 3, Väinämöinen and Joukahainen, no Wikisource: o resumo no alto da runa, a inveja de Joukahainen e a proibição dos pais, o choque dos trenós, o saber de Joukahainen e o alce da Lapônia, a mentira da criação, o desafio de espada, os cabelos pretos, o canto de Väinämöinen e o que vira cada coisa, o resgate recusado, Aino oferecida, o canto desfeito, a mãe que se alegra e o choro de Aino.
- Kalevala, tradução de John Martin Crawford, 1888, sumário e runa III, Wainamoinen and Youkahainen, no Projeto Gutenberg (ebook 5186): as grafias Wainamoinen e Youkahainen, os bois da Lapônia do interior, o príncipe dos mentirosos, os cabelos dourados, o gorro que vira vapor, as luvas que viram juncos, a veste púrpura que vira nuvem e o título da runa IV, The Fate of Aino.



