Odin e o hidromel da poesia novo
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Na Edda em Prosa, a história do hidromel da poesia está na Skáldskaparmál, a parte dedicada à linguagem dos poetas. Quem conta é Bragi, sentado ao lado de Ægir num banquete em Ásgard. Ægir, que tinha ido visitar os deuses, pergunta de onde vem a arte que eles chamam de poesia. A resposta é uma história de paz, de crime, de resgate e de roubo, e de quase cada passo dela sai um nome que os poetas usavam para falar da própria poesia.
Tudo começa com uma briga. Os deuses se desentendem com o povo chamado Vanir e, para fazer as pazes, os dois lados cospem num mesmo vaso. Os deuses não deixam esse sinal de paz se perder: fazem dele um homem, Kvasir, tão sábio que ninguém consegue lhe perguntar nada que ele não saiba responder. Kvasir anda pelo mundo ensinando os homens, até que dois anões, Fjalar e Galarr, o chamam para uma conversa a sós e o matam. O sangue corre para dois vasos, Són e Bodn, e para um caldeirão, Ódrerir. Misturado com mel, vira o hidromel que faz de quem o bebe um poeta ou um sábio. Aos deuses, os anões dizem que Kvasir se engasgou com a própria sabedoria. A Edda não apresenta Kvasir de um jeito só: na Gylfaginning, ele ainda está vivo quando, como o mais sábio de todos, entende para que serve a rede de Loki e ajuda os deuses a capturá-lo.
Os mesmos anões matam depois o gigante Gillingr, virando no mar o barco em que remavam com ele, e a mulher dele, com uma mó jogada do alto da porta, porque o choro dela cansava Fjalar. Suttungr, filho de Gillingr, leva os anões para um recife que a maré cobre. Para salvar a vida, eles lhe entregam o hidromel como pagamento pela morte do pai. Suttungr o guarda num lugar chamado Hnitbjörg e põe a filha, Gunnlöd, para vigiá-lo. Daí vêm nomes da poesia que Bragi enumera: sangue de Kvasir, bebida dos anões, hidromel de Suttungr.
Odin vai atrás do hidromel. Encontra nove escravos ceifando feno, afia as foices deles com uma pedra de amolar e, quando todos querem comprá-la, joga a pedra para o alto; na disputa, cada um acerta o pescoço do outro com a foice. Odin pede pouso a Baugi, irmão de Suttungr, que se queixa de ter perdido os trabalhadores. Chamando-se Bölverkr, faz durante o verão o trabalho dos nove em troca de um gole do hidromel, mas Suttungr se recusa a dar uma gota. Odin entrega a Baugi a broca chamada Rati para furar a rocha. Baugi tenta enganá-lo dizendo que já furou, e só no segundo sopro as lascas vão para dentro. Odin vira serpente e entra pelo furo, e Baugi tenta acertá-lo por trás com a broca, mas erra. Odin passa três noites com Gunnlöd, que lhe permite três goles, e com eles esvazia Ódrerir, Bodn e Són. Foge como águia, perseguido por Suttungr também em forma de águia, e em Ásgard cospe o hidromel nos vasos que os deuses põem no pátio. Com Suttungr tão perto, um pouco sai para trás e fica para quem quiser: é a parte que, na tradução de Brodeur, cabe aos maus poetas. O resto Odin dá aos deuses e aos homens que sabem compor.
Na Edda Poética quem fala é o próprio Odin, no Hávamál, e o tom é outro. Nas estrofes 104 a 110 da tradução de Bellows, ele lembra que falou muito no salão de Suttung para conseguir o que queria, que a boca de Rati lhe abriu caminho na pedra e que ali arriscou a cabeça. Gunnlöd lhe deu a bebida num banco de ouro, e ele pagou mal aquele coração generoso; sem a ajuda dela, diz, dificilmente teria voltado. No dia seguinte os gigantes vêm perguntar por Bölverk, e o poema pergunta quem ainda vai confiar em Odin, que jurou sobre o anel, tirou a bebida de Suttung por traição e deixou Gunnlöd no sofrimento. Até o nome Ódrerir muda de sentido: na estrofe 107 é o próprio hidromel, que subiu até o meio dos homens, e na 141 é o recipiente de onde ele foi servido, como Bellows observa em nota. Na mesma nota, Bellows resume outra versão da chegada da poesia aos homens: Odin não pretendia dar o hidromel a eles, mas, perseguido por Suttung, derramou um pouco da boca enquanto voava, e assim a humanidade também ganhou a poesia.
Para conferir
- Snorri Sturluson, Edda em Prosa, Skáldskaparmál, seção I, tradução de Arthur Gilchrist Brodeur, 1916, no Wikisource: Ægir e Bragi no banquete, a paz com os Vanir, Kvasir, os anões Fjalar e Galarr, Gillingr e a mulher, Suttungr, Gunnlöd, Baugi, Bölverkr, a broca Rati, a fuga em forma de águia e os nomes da poesia.
- Snorri Sturluson, Edda em Prosa, Gylfaginning, seção L, mesma tradução: Kvasir, o mais sábio de todos, ainda vivo na captura de Loki.
- Edda Poética, Hávamál, estrofes 104 a 110 e 141, com as notas, tradução de Henry Adams Bellows, 1923, no Wikisource: Odin conta a ida ao salão de Suttung, Rati, Gunnlöd no banco de ouro, os gigantes que perguntam por Bölverk, o juramento sobre o anel e os dois sentidos de Ódrerir.



