O Ragnarök novo
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Ragnarök é o fim do mundo dos deuses nórdicos. Henry Adams Bellows, na nota de abertura da sua tradução da Völuspá, de 1923, explica que a expressão ragna rök quer dizer o destino dos deuses e que ficou conhecida, por confusão com a palavra rökkr, crepúsculo, no alemão Götterdämmerung, o Crepúsculo dos Deuses. Arthur G. Brodeur, ao traduzir a Edda em Prosa em 1916, escreve the Weird of the Gods. A história tem duas fontes principais. Uma é a Völuspá, a profecia da vidente, o poema que abre o Codex Regius da Edda Poética: Odin chama a vidente, que lhe conta o passado do mundo e depois o fim dos deuses. A outra é a Gylfaginning, de Snorri Sturluson, em que Hárr responde às perguntas de Gangleri e cita estrofes do poema. As duas não contam tudo do mesmo jeito.
Primeiro vêm três invernos de grandes batalhas pelo mundo, em que irmãos se matam por cobiça e ninguém poupa pai nem filho. Depois vem o que Brodeur traduz como o Inverno Terrível: neve de todos os lados, geada forte, vento cortante, sol sem força, três invernos seguidos sem verão no meio. A Völuspá descreve esse tempo em versos: tempo de machado, tempo de espada, escudos partidos, tempo de vento, tempo de lobo, antes que o mundo caia. Um lobo engole o sol, outro agarra a lua, as estrelas somem do céu. A terra treme tanto que árvores saem pela raiz e montanhas desabam, e todas as correntes se rompem: o lobo Fenrir se solta, e o mar invade a terra porque a Serpente de Midgard sai dele em fúria. Solta-se também Naglfar, o navio feito de unhas de mortos, e Snorri acrescenta um aviso: quem morre com as unhas sem cortar dá material ao navio, que deuses e homens gostariam de ver pronto o mais tarde possível.
No meio desse estrondo o céu se parte, e os filhos de Múspell descem a cavalo, com Surtr na frente, cercado de fogo, empunhando uma espada que brilha mais que o sol; quando passam pela ponte Bifröst, ela se quebra. Vão para o campo de Vígrídr, que mede cem léguas para cada lado, e para lá vão também Fenrir, a Serpente, Loki e o gigante Hrymr com todos os gigantes de gelo. Heimdallr sopra a trombeta Gjallarhorn e acorda os deuses, que se reúnem em conselho. Odin cavalga até o poço de Mímir para se aconselhar; na Völuspá, ele ouve a cabeça de Mím. O freixo Yggdrasil treme. Aqui as fontes já divergem. Na prosa de Snorri, quem pilota Naglfar é Hrymr, mas a estrofe que ele mesmo cita põe Loki no leme de um navio que vem do leste com o povo de Múspell. Bellows, na sua tradução, faz o navio vir do norte com o povo de Hel e explica em nota que os manuscritos dizem leste e Múspell, mas que o povo de Múspell chega pela ponte.
Odin vai à frente, com elmo de ouro e a lança Gungnir, contra Fenrir, e o lobo o engole. Thor não pode ajudá-lo porque luta com a Serpente: mata-a, anda nove passos e cai morto pelo veneno que ela soprou nele. Freyr enfrenta Surtr e cai, porque tinha dado a sua boa espada a Skírnir. O cão Garmr e o deus Týr matam um ao outro, e o mesmo acontece entre Loki e Heimdallr. Vídarr, filho de Odin, vinga o pai, mas também aqui a tradição varia: em Snorri, ele pisa a mandíbula de baixo do lobo com um sapato feito dos retalhos de couro que os homens cortam dos seus sapatos, segura a de cima com a mão e rasga a goela; na Völuspá, crava a espada no coração do lobo. Por fim Surtr lança fogo sobre a terra e queima o mundo inteiro. Nos versos da vidente, o sol escurece, a terra afunda no mar, as estrelas caem do céu e o fogo sobe até o próprio céu.
Não termina aí. A terra volta a sair do mar, verde e bonita, e os campos dão fruto sem semeadura. Vídarr e Váli sobrevivem, os filhos de Thor, Módi e Magni, ficam com o martelo Mjöllnir, e Baldr e Hödr voltam do reino de Hel. Sentados juntos, lembram o que passou e acham na grama as peças de ouro do jogo que os deuses tinham tido. Durante o fogo de Surtr, dois humanos, Líf e Lífthrasir, ficam escondidos no bosque de Hoddmímir, comendo o orvalho da manhã, e deles vem a gente que volta a povoar o mundo. Bellows registra que alguns críticos se apoiaram nessa descrição do mundo novo para dizer que o poema é posterior à chegada do cristianismo, argumento que não o convence, e que a estrofe de um senhor poderoso que vem governar tudo falta no Codex Regius e provavelmente é espúria. A Völuspá termina com o dragão Nídhögg voando com corpos nas asas e com a vidente dizendo que agora precisa afundar. Na Gylfaginning, Gangleri ouve um grande barulho em volta, e o salão onde ouviu tudo isso desaparece.
Para conferir
- Snorri Sturluson, Edda em Prosa, Gylfaginning, seções LI a LIV, tradução de Arthur Gilchrist Brodeur, 1916, no Wikisource: os invernos, os lobos, Fenrir, a Serpente, Naglfar e as unhas, Surtr, Bifröst, Vígrídr, Heimdallr, a batalha, o fogo, o mundo novo, Líf e Lífthrasir e o salão que some.
- Edda Poética, Völuspá, nota de abertura, estrofes 40 a 66 e notas, tradução de Henry Adams Bellows, 1923, no Wikisource: o sentido de ragna rök, o Codex Regius, a cabeça de Mím, o navio do norte e a nota sobre os manuscritos, Vídarr e a espada, o fim e a volta da terra, as notas sobre o cristianismo e a estrofe espúria, e a vidente que afunda.



