Ísis e o nome secreto de Rá novo
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A história está num papiro em escrita hierática guardado em Turim, publicado por Pleyte e Rossi. Segundo o egiptólogo E. A. Wallis Budge, Lefébure o traduziu para o francês e Wiedemann para o alemão, e o próprio Budge publicou em 1895 a transcrição e a tradução; em outro livro, ele atribui a Lefébure o mérito de ter sido o primeiro a entender o sentido do texto. Este verbete segue a tradução de Budge em Legends of the Gods, de 1912, conferida com a que ele tinha publicado em Egyptian Magic, de 1899. As duas são dele e nem sempre dizem a mesma coisa; onde diferem, o texto diz. É a mesma Ísis do verbete Osíris e Ísis, que segue Plutarco; aqui a fonte é egípcia. O papiro se apresenta como o capítulo do deus divino, que se criou a si mesmo e fez o céu, a terra, o sopro da vida, o fogo, os deuses, os homens, os animais, os répteis, as aves e os peixes. Para ele, períodos de cento e vinte anos são como anos, e os seus nomes são tantos que nem os deuses os conhecem.
Ísis vivia na forma de uma mulher que conhecia as palavras de poder. O coração dela se afastou, com desgosto, dos milhões de homens; escolheu os milhões de deuses, mas estimava mais os milhões de espíritos. E pensava: não poderia, pelo conhecimento do nome do deus santo, ser como Rá no céu e na terra e tornar-se senhora da terra? Todo dia Rá entrava no céu à frente dos seus marinheiros. Tinha envelhecido: babava, e a saliva caía no chão. Ísis a amassou com terra e fez dela uma serpente sagrada em forma de dardo, para que ninguém lhe escapasse com vida, diz a tradução de 1912 (a de 1899 diz, no lugar disso, que ela não a pôs de pé diante do rosto), e a deixou no caminho por onde o grande deus passava. Quando Rá saiu, como todo dia, com o seu séquito, a serpente o mordeu. O fogo da vida saiu do corpo do deus, e o grito dele chegou ao céu. Os deuses perguntavam o que era, e ele não encontrava palavras: os maxilares tremiam, os lábios também (em 1899, tremiam todos os membros), e o veneno tomou a carne dele como o Nilo toma a terra por onde corre.
Quando recobra o ânimo, Rá chama os deuses que vieram dos seus membros e conta que foi ferido por uma coisa que não viu nem fez com a mão, sem saber quem fez aquilo, e que nunca sentiu dor igual; em 1912, o coração dele não conhece a coisa, e em 1899 o coração a percebe, embora os olhos não a vejam. Diz que tem muitos nomes e muitas formas. Aqui as duas traduções diferem. Nas duas, o pai e a mãe pronunciaram o nome dele. Em 1912, foram eles que o esconderam no corpo dele, ao nascer, para que ninguém que usasse palavras de poder contra ele tivesse domínio sobre ele; em 1899, quem o escondeu dentro dele foi aquele que o gerou. Em nota, Budge comenta que o nome se tornou assim o talismã mais importante do deus. É fogo? É água?, pergunta Rá, e manda chamar os filhos, os deuses que conhecem as palavras mágicas. Vêm todos com lamentos, e vem Ísis, com a boca cheia do sopro da vida: as palavras dela, diz o texto, destroem as doenças e fazem viver aqueles cuja garganta se fechou, que Budge, entre parênteses, explica como os mortos. Em 1899, são os talismãs dela que vencem as dores da doença, e as palavras fazem reviver as gargantas dos mortos. Ela pergunta se foi uma serpente, se uma coisa que ele mesmo fez levantou a cabeça contra ele, e promete derrubá-la com palavras de poder.
Rá conta que foi mordido por uma serpente que não viu. Está mais frio que a água e mais quente que o fogo; o corpo sua, ele treme, o olho fraqueja, não consegue olhar o céu, e a água lhe vem ao rosto como no tempo da cheia. Em 1899, é o suor que lhe vem ao rosto, como no tempo do verão; em 1912, uma nota admite verão no lugar de cheia. Ísis lhe diz: diz-me o teu nome, pai divino, porque vive quem consegue pronunciar o próprio nome (em 1899: vive quem for libertado pelo teu nome). Rá responde com o que fez: o céu e a terra, as montanhas, as águas, Meht-ur e o Touro de sua Mãe, as alegrias do amor (em 1899, os prazeres do amor procedem do Touro de sua Mãe). Abre os olhos e há luz, fecha e há treva; manda, e o Nilo transborda; os deuses não sabem o seu nome. Fez as horas e os dias, inaugura as festas. E termina: sou Khepera de manhã, Rá ao meio-dia e Temu à tarde. Budge anota que eram as três formas principais do deus Sol na teologia dos sacerdotes de Heliópolis. O veneno não sai, e o deus não melhora; em 1899, o grande deus já não consegue andar.
Ísis responde que, em tudo o que ele disse, o nome não apareceu. O veneno queima mais que a chama. Então Rá diz que deixará Ísis procurar dentro dele e que o seu nome sairá do corpo dele e passará para o dela. O deus se esconde dos outros deuses, e o trono na Barca de Milhões de Anos fica vazio. Quando chega o tempo de o coração sair do deus, Ísis diz ao filho, Hórus, que o grande deus se obrigará por juramento a dar os seus dois olhos (em 1899, que ele já se obrigou). Budge explica, numa nota de 1912, que se trata do fluido de vida do sol e do da lua, e, entre parênteses em 1899, que são o sol e a lua. Na introdução de 1912, ele resume que Ísis combinou com Hórus esse juramento e que Rá deixou que lhe tirassem o coração; a tradução diz menos. Assim o nome é tomado, e Ísis diz as palavras: que o veneno corra e saia de Rá, que o Olho de Hórus saia do deus e brilhe fora da boca dele (o verbo brilhar vem com interrogação em 1912), porque o nome foi tirado do grande deus; viva Rá e morra o veneno. Só a tradução de 1912 acrescenta: e assim viva um certo homem, filho de um certo homem, e morra o veneno. O texto não diz o nome, diz apenas que Ísis conheceu Rá pelo seu próprio nome. E manda que essas palavras sejam ditas sobre imagens de Temu e de Heru-Hekennu, de Ísis e de Hórus; no comentário de 1899, Budge enumera Temu, Hórus, o Velho, Ísis e Hórus, filho de Ísis. Em Egyptian Magic, Budge diz que a lenda, escrita em papiro ou linho, servia de fórmula mágica contra o veneno dos répteis.
Para conferir
- E. A. Wallis Budge, Legends of the Gods: The Egyptian Texts, Londres, 1912, capítulo III, The Legend of Ra and Isis, introdução, tradução e notas 66 a 74, no Projeto Gutenberg (ebook 9411): o papiro hierático de Turim, Pleyte e Rossi, as traduções de Lefébure e Wiedemann e a de Budge de 1895, a tradução de 1912 inteira, as notas sobre o nome como talismã, os mortos, a cheia ou o verão, as três formas do Sol em Heliópolis e o fluido de vida do sol e da lua, e o resumo da introdução com o juramento combinado com Hórus.
- E. A. Wallis Budge, Egyptian Magic, Londres, 1899, capítulo IV, pp. 136 a 142, no Internet Archive: a lenda como fórmula mágica contra o veneno dos répteis, o mérito de Lefébure, e a tradução de 1899 com as diferenças: o nome escondido por quem o gerou, o suor do verão, quem for libertado pelo teu nome, o deus que não consegue andar e o sol e a lua entre parênteses.



