Net Love Net Love
Seções

Boto, o golfinho do rio novo

Tamanho
952 palavras

O registro mais antigo que este verbete usa é de um naturalista inglês, Henry Walter Bates, que publicou em 1863 The Naturalist on the River Amazons, o relato dos onze anos que passou viajando pela região. Numa noite de acampamento perto de Ega, conta ele, ouviu muitas histórias misteriosas sobre o bouto, como se chama o grande golfinho do Amazonas. Na tradução deste verbete: uma delas dizia que um boto tinha o costume de tomar a forma de uma bela mulher, de cabelos soltos até os calcanhares, e andar à noite pelas ruas de Ega para atrair os rapazes até a água; quem se apaixonava a ponto de segui-la até a margem era agarrado pela cintura e levado para baixo das ondas, com um grito de triunfo. Nenhum animal da região, escreve Bates, é assunto de tantas fábulas, mas ele acha provável que elas não tenham nascido entre os índios, e sim entre os colonos portugueses. É o olhar de um viajante estrangeiro.

Bates conta também que levou anos para convencer um pescador a arpoar botos para a sua coleção, porque ninguém matava esses animais por vontade própria, embora se soubesse que a gordura deles dava um ótimo óleo para lamparinas: os supersticiosos, diz ele, acreditavam que esse óleo, aceso, causava cegueira. O pescador que acabou aceitando, Carepira, se arrependeu e passou a dizer que a sorte o tinha abandonado desde aquele dia.

Em O Selvagem, de 1876, Couto de Magalhães põe o boto entre os seres sobrenaturais que, na sua leitura das crenças tupis, pareciam ficar abaixo do sol e eram ligados a certas ordens de animais: a sorte dos peixes fica com o Uauyará, e o animal em que ele se transforma é o boto. Nenhum dos seres sobrenaturais dos indígenas, escreve, forneceu tantas lendas à poesia americana, e no Pará não haveria povoação do interior sem uma série de histórias dele, ora grotescas, ora melancólicas e ternas. Muitas mulheres indígenas, segundo ele, atribuíam o primeiro filho a alguma esperteza desse deus, que ora as surpreendia no banho, ora tomava a figura de um mortal para seduzi-las, ora as levava para debaixo da água, onde, escreve ele, eram forçadas a se entregar a ele. Nas noites de luar, conta o povo do Pará, os lagos se iluminam e se ouvem as cantigas e o bate-pé das danças com que o Uauyará se diverte. É a leitura de um estudioso do século 19, que organiza as crenças numa teogonia tupi.

Em 1889, no Folk-lore brésilien, publicado em Paris, Frederico José de Santa-Anna Nery conta em francês o conto do pirayauara, nome que, numa nota, ele explica como peixe senhor das águas, o boto, ou, segundo outros autores, peixe-cachorro. Diz traduzi-lo da versão de Barbosa Rodrigues. No rio Jamundá, uma moça indígena que remava de volta com a mandioca da roça cruzou com um rapaz que não conhecia, sozinho na canoa, de olhar tão ardente que ela corou; em casa, a avó perguntou se ela tinha encontrado o pirayauara e disse que estava perdida. Numa noite de lua, os cães latiram e correram para a beira do rio, onde um bando de botos saltava fazendo grande barulho; a moça desceu à margem, os botos sumiram e uma canoa atravessou levando um vulto de homem: era o pirayauara. Ela foi ficando cada vez mais triste e sonhadora, e os conselhos da avó não adiantaram. Um dia ela não voltou da roça e, perto da meia-noite, a avó viu um vulto branco levado pela correnteza, cercado de botos. Na praia, chorando sobre o corpo, a avó diz que a neta se matou por amor do boto.

Logo depois do conto, Santa-Anna Nery escreve que a crença no boto virou um instrumento poderoso de corrupção: sedutores de aldeia e regatões, os mascates dos rios, se aproveitavam dela, e, na maioria das vezes, diz ele, eram eles os botos que levavam as moças indígenas para as praias; um desaparecimento ou uma gravidez logo era posto na conta do boto. Em outra parte do livro, numa lista de crendices, registra que quem traz consigo um olho de boto se faz amar por todo mundo. João Barbosa Rodrigues, por sua vez, põe o boto, na introdução da Poranduba amazonense, de 1890, entre o que os portugueses trouxeram para o Brasil, ao lado da uyara, das bruxas e dos lobisomens. Na Advertência do mesmo livro, conta que em 1881 publicou, com o título Lendas, crenças e superstições, algumas lendas do Amazonas que escreveu e que então tinha por todas transplantadas de país estranho, e diz que estudo posterior o levou a modificar essa opinião e a apresentar outras lendas, como as do Korupira e do Yurupary, que lhe parecem nascidas na própria população amazônica; numa nota, lembra que as lendas da Uyara e da Pirá Yauara foram postas em verso por Campos Porto. Santa-Anna Nery, que traduz o conto da versão dele, diz não acreditar, ao contrário de Barbosa Rodrigues, que o conto seja de importação alemã. Como Couto de Magalhães, os dois escrevem como estudiosos do século 19, que apresentam e comentam narrativas e crenças populares.

A forma humana que o boto toma varia de um relato para outro: em Bates, aparece como uma mulher que leva os rapazes para a água; em Couto de Magalhães e no conto de Santa-Anna Nery, como figura masculina que procura as mulheres. Couto de Magalhães inclui o Uauyará entre os seres sobrenaturais dos indígenas; Bates considera provável que as fábulas tenham surgido entre os colonos portugueses, e Barbosa Rodrigues põe o boto entre o que os portugueses trouxeram. E só Santa-Anna Nery diz que a crença servia para pôr na conta do boto o que sedutores e regatões faziam às moças.

Para conferir