Anúbis, o que cuida dos mortos novo
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Anúbis é a forma grega do nome do deus egípcio que o egiptólogo E. A. Wallis Budge transcreve como Anpu. Em The Gods of the Egyptians, de 1904, Budge escreve que o animal que era o tipo e o símbolo do deus era o chacal, e supõe que ele se ligou aos mortos porque o chacal era visto rondando os túmulos; os autores gregos que este verbete usa, Plutarco e Diodoro da Sicília, falam em cão. Budge considera o culto muito antigo, espalhado pelo Egito desde cedo e provavelmente mais velho que o de Osíris. Nos textos que ele reúne, Anúbis é o que embalsama, o que guarda o corpo e o que acompanha o morto até o julgamento. Em nenhuma das fontes deste verbete ele é um deus do mal ou um inimigo dos mortos: é o deus que cuida deles. As citações vêm de traduções e livros em inglês, passados ao português aqui.
A família de Anúbis muda conforme a fonte. Budge resume: Néftis deu à luz um filho chamado Anpu, cujo pai era, segundo uns, Osíris e, segundo outros, Set; de outro ponto de vista, ele era filho de Rá. Plutarco, no tratado Sobre Ísis e Osíris, na tradução de F. C. Babbitt (1936), conta a versão com Osíris: ele se uniu a Néftis por engano, pensando que era Ísis, e a prova ficou numa guirlanda de meliloto deixada com ela. Néftis, com medo de Tifão, o nome que Plutarco dá a Set, abandonou o menino logo depois do parto. Ísis o procurou com a ajuda de cães, que a levaram até ele, e o criou; ele se tornou seu guarda e acompanhante, recebeu o nome de Anúbis e, diz-se, protege os deuses como os cães protegem os homens. Num capítulo adiante, Plutarco repete que Ísis tratou o filho de Néftis como se fosse seu. Diodoro, na tradução de C. H. Oldfather (1933), faz de Anúbis um dos dois filhos que acompanharam Osíris nas suas expedições, vestido com uma pele de cão (o outro, Macédon, usava a parte da frente de um lobo), e diz que por isso esses animais eram honrados no Egito. A morte de Osíris está no verbete Osíris e Ísis.
O papel mais conhecido de Anúbis é o de embalsamador. No resumo da história de Osíris que Budge faz em The Book of the Dead, de 1920, Ísis e Néftis resgatam o corpo do irmão e o embalsamam com a ajuda de Anpu, ali chamado filho de Rá; mais tarde, Hórus, os filhos dele e Anúbis fazem as cerimônias que abrem a boca, as narinas, os olhos e os ouvidos de Osíris. Em The Gods of the Egyptians, Budge registra a tradição de que Anúbis embalsamou o corpo de Osíris e o envolveu nas faixas de linho tecidas por Ísis e Néftis, e cita títulos que vêm daí: Am Ut, o que mora na câmara de embalsamamento, e Tep-tu-f, o que está sobre a sua colina, nome dele como deus da montanha funerária. Nas vinhetas do Livro dos Mortos que Budge descreve, Anúbis recebe a múmia junto à porta do túmulo e, em outra, fica ao lado do corpo deitado no leito fúnebre, com as mãos protetoras sobre ele, dizendo que veio proteger Osíris. Num texto da pirâmide do rei Unas, que Budge traduz, lê-se: Unas está com os espíritos; segue adiante, Anúbis, para o Amenti, adiante, adiante, até Osíris. Budge vê ali o deus como guia dos mortos a caminho de Osíris.
No julgamento, Anúbis não é quem condena. Budge descreve a cena mais completa, a do Papiro de Ani: no Salão de Maati, Osíris está sentado no trono, os deuses formam o júri, e diante deles fica a grande balança, com o coração do morto num prato e, no outro, a pena que simboliza a verdade e a justiça. O fiel da balança está a cargo de Anpu, que, explica Budge em 1904, examina a língua da balança e cuida para que o braço dela fique exatamente na horizontal; atrás dele estão Thoth, o escriba dos deuses, que anuncia o resultado, e Amemit, o Comedor dos Mortos, com cabeça de crocodilo, frente de leão e traseiro de hipopótamo, a quem cabe devorar os corações dos condenados. Budge diz ainda que Anúbis apresenta o coração para o julgamento e cuida para que o corpo confiado a ele não seja entregue ao Comedor dos Mortos por engano.
Os gregos tentaram explicar Anúbis com as próprias ideias. Plutarco registra que, para alguns, Anúbis é o círculo do horizonte, comum ao mundo de cima, visível, que chamam de Ísis, e ao de baixo, invisível, que chamam de Néftis, e que tem forma de cão porque o cão enxerga de noite e de dia; compara-o à Hécate dos gregos, divindade do mundo de baixo e também do Olimpo. Em outro capítulo, diz que a relação que liga as coisas do céu às de baixo se chama ora Anúbis, ora Hermanúbis. Diodoro explica a cabeça de cão das imagens como sinal de que Anúbis foi o guarda-costas de Osíris e de Ísis, e conta que outros diziam que os cães guiaram Ísis na busca por Osíris, e que por isso a procissão da festa de Ísis era aberta por cães. Heródoto, no livro II das Histórias, na tradução de G. C. Macaulay (1890), conta que os egípcios enterravam os cães em túmulos sagrados de cada cidade e que, quando morria um cão numa casa, os moradores raspavam o corpo inteiro e a cabeça. São relatos gregos, e por isso este verbete os apresenta separados das traduções e das interpretações que Budge faz dos textos egípcios, que também são leitura dele.
Veja também: Osíris e Ísis; Rá, o sol de muitos nomes; Bastet, a deusa de Bubástis; Ísis e o nome secreto de Rá.
Para conferir
- E. A. Wallis Budge, The Gods of the Egyptians, Londres, 1904, vol. II, capítulo Anpu or Anubis, pp. 261 a 266, no Internet Archive: o chacal, a antiguidade do culto, os pais segundo uns e outros, o texto de Unas, o embalsamamento, as vinhetas, Am Ut e Tep-tu-f, o fiel da balança, o coração apresentado e o Comedor dos Mortos.
- E. A. Wallis Budge, The Book of the Dead, Londres, 1920, capítulos V e VII, no Projeto Gutenberg (ebook 7145): Anpu, filho de Rá, no embalsamamento de Osíris, a abertura da boca, a cena do julgamento no Papiro de Ani, a balança, a pena, Thoth e Amemit.
- Plutarco, Sobre Ísis e Osíris, capítulos 14, 38, 44 e 61, tradução de F. C. Babbitt, Loeb Classical Library, 1936, na página de Bill Thayer: Néftis, a guirlanda de meliloto, os cães que guiam Ísis, Anúbis guarda dos deuses (cap. 14), Néftis que dá à luz Anúbis às escondidas (cap. 38), o horizonte, o cão que vê de noite e de dia e Hécate (cap. 44, na página C) e Anúbis e Hermanúbis (cap. 61, na página D).
- Diodoro da Sicília, Biblioteca Histórica, livro I, capítulos 18 e 87, tradução de C. H. Oldfather, Loeb Classical Library, 1933, na página de Bill Thayer: Anúbis e Macédon nas expedições de Osíris, a pele de cão (cap. 18), a cabeça de cão como sinal do guarda-costas de Osíris e Ísis e os cães na festa de Ísis (cap. 87, na página 1D).
- Heródoto, Histórias, livro II, capítulos 66 e 67, tradução de G. C. Macaulay, 1890, no Projeto Gutenberg (ebook 2707): o luto pelo cão e os cães enterrados em túmulos sagrados de cada cidade.



