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Negrinho do Pastoreio, o afilhado da Virgem novo

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914 palavras

O Negrinho do Pastoreio é uma lenda do Rio Grande do Sul, e este verbete segue a versão que João Simões Lopes Neto publicou nas Lendas do Sul, em 1913. Na nota de abertura do livro, depois de falar das lendas vindas da Península Ibérica, da tradição guarani e do centro e norte do Brasil, ele diz que, por último, uma única se formou já entre gente lusitana radicada e a incipiente, nativa: a do Negrinho do pastoreio. Conta também que procurou dar a todas uma feição expositiva e literária. Antes do texto, o livro imprime uma carta de Coelho Neto, com data de 1º de janeiro de 1907, agradecendo a dedicatória da lenda publicada no Correio Mercantil de 26 de dezembro; ele elogia a simplicidade do conto e diz que, ao lê-lo, teve a impressão de ouvi-lo contado, em tom lento, por uma dessas velhinhas que guardam a poesia popular. É, portanto, uma versão literária assinada, e é ela que se resume aqui.

A lenda é sobre a violência da escravidão contra uma criança, e este verbete conta o que acontece sem descrever os castigos que o texto descreve. A escravidão foi crime e violência contra pessoas. A história se passa no tempo em que os campos ainda eram abertos, sem divisas nem cercas. Um estancieiro rico, avarento e muito mau, que não dava pouso a ninguém, só olhava nos olhos de três viventes: o filho, um cavalo baio que era o seu parelheiro de confiança e um menino escravizado, pequeno ainda, a quem todos chamavam somente de Negrinho. Não lhe deram padrinhos nem nome, e por isso o menino se dizia afilhado da Virgem, Nossa Senhora, que é a madrinha de quem não a tem. Todas as madrugadas galopava o baio, e à tarde, diz o texto, sofria os maus tratos do filho do estancieiro.

Um dia o estancieiro apostou uma carreira com um vizinho: trinta quadras de cancha e mil onças de ouro. O vizinho queria que o prêmio fosse para os pobres; o estancieiro, que fosse do dono do cavalo que ganhasse. O Negrinho correu montado no baio, gemendo, no meio da corrida, que o seu senhor o mataria se o cavalo perdesse. Os dois cavalos vinham emparelhados até que, a duas braças da raia, o baio parou de repente, empinou e deu uma volta, e o mouro do vizinho passou e ganhou. O juiz, um velho que já tinha visto muito mundo, sentenciou que a carreira fora na lei. O estancieiro pagou as mil onças, e o vencedor distribuiu o ganho entre os pobres. De volta à estância, o estancieiro mandou castigar o menino e depois ordenou que ele ficasse trinta dias no alto de uma coxilha, pastoreando a sua tropilha de trinta cavalos tordilhos negros. Na primeira noite, com fome e sem forças, o Negrinho adormeceu; os guaraxains cortaram a corda do baio, e a tropilha fugiu. E assim, repete o texto, o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

Castigado outra vez, foi mandado de noite procurar os cavalos. Pensou na madrinha, tomou no oratório da casa o coto de vela aceso diante da imagem e saiu para o campo. Por onde passava, a vela benta pingava cera no chão, e de cada pingo nascia uma luz nova, até que eram tantas que clareavam tudo; os cavalos relincharam, e ele levou a tropilha de volta à coxilha. Mas, enquanto ele dormia, o filho do estancieiro espantou os cavalos, e o Negrinho perdeu o pastoreio de novo. Depois de novas violências, o menino pareceu morto, e o estancieiro o mandou abandonar num formigueiro, sem cova. Naquela noite, e por mais duas, sonhou que era ele mesmo mil vezes, com mil filhos, mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro, e que tudo cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno.

Ninguém achou a tropilha. Quando o estancieiro voltou ao formigueiro, encontrou o Negrinho de pé, com a pele lisa e perfeita, sacudindo as formigas, com o baio e os trinta tordilhos ao lado; e, de guarda ao menino, viu a Virgem, Nossa Senhora, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu. O senhor caiu de joelhos diante do escravo. O Negrinho, sarado e risonho, montou o baio sem rédeas e tocou a tropilha a galope, e dessa vez, diz o texto, não chorou nem se riu. A notícia correu: posteiros, tropeiros, mascates e carreteiros diziam ter visto passar, à mesma hora, uma tropilha de tordilhos tocada por um Negrinho montado em pelo num cavalo baio, e muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do menino.

Daí por diante, conta Simões Lopes Neto, quando alguém perdia uma coisa, o Negrinho a procurava pela noite e a achava, mas só a entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para o altar da madrinha. Todos os anos, durante três dias, ele desaparece dentro de algum formigueiro grande, em visita às formigas, que o texto chama de suas amigas. A lenda fecha com um conselho do narrador: quem perder suas prendas no campo guarde esperança, acenda uma vela para o Negrinho junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores e vá lhe dizendo: foi por aí que eu perdi. E termina: se ele não achar, ninguém mais. O menino da lenda não tem outro nome além de como todos o chamavam, porque ninguém lhe deu um; quem o salva, na versão de 1913, é a Virgem, de quem ele se dizia afilhado.

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