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Boitatá, a cobra de fogo novo

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Na carta em latim que o jesuíta José de Anchieta escreveu em São Vicente, em maio de 1560, logo depois dos corupiras e dos seres que moram nos rios, vem uma terceira espécie. Na tradução deste verbete: há outros, sobretudo nas praias, que vivem junto ao mar e aos rios e se chamam baetatá, isto é, coisa de fogo, o que é o mesmo que dizer algo que é todo fogo. À noite não se vê outra coisa senão um fogo cintilante correndo de um lado para outro; ataca os índios muito depressa e os mata, como os corupiras. E acrescenta: o que seja isso, ainda não se sabe com certeza. É o relato de um missionário, que conta essas aparições entre os meios com que, diz ele, o demônio quer se fazer temido pelos índios, que não conhecem a Deus.

O anotador da edição da Academia Real das Ciências de Lisboa, de 1812, explica em nota que se trata de meteoros de fogo, cuja natureza os físicos explicam, e que no seu tempo só assustavam os iletrados e os supersticiosos; se o baetatá às vezes matava, era pelo terror e pelo medo dos índios, não por força própria. Pelas palavras de Anchieta, acrescenta, conclui-se que o jesuíta não estava de todo convencido de que aquilo fosse demônio. É outro olhar de fora, o de um editor que lê a carta mais de dois séculos depois.

Couto de Magalhães, em O Selvagem, de 1876, põe o Mboitatá entre os seres que, na sua leitura das crenças tupis, guardam a natureza: é o gênio que protege os campos contra quem os incendeia. A palavra, explica, quer dizer cobra de fogo, e as tradições o figuram como uma pequena serpente de fogo que de ordinário mora na água. Às vezes ela se transforma num grosso madeiro em brasa, chamado méuan, que faz morrer queimado quem incendeia os campos à toa.

A versão mais longa destas fontes é a de João Simões Lopes Neto, que abre as Lendas do Sul, de 1913, com A M'boi-tátá. Na nota do livro, ele diz ter dado a essas lendas uma feição expositiva e literária, e põe a M'boi-tátá na tradição guarani que, no Rio Grande do Sul, se encontrou com a mistura cristã e árabe de crendices vinda da Península Ibérica. Antes do texto, o livro imprime uma carta de Coelho Neto, de 1909, lembrando que a lenda era conhecida também dos sertanejos, com variantes muito diferentes da que Simões Lopes Neto escreveu. A história começa num tempo muito antigo, numa noite tão comprida que parecia que nunca mais haveria luz do dia; só o téu-téu, que não dormia, cantava de vez em quando no escuro. Na última tarde de sol tinha caído uma chuva tremenda: os campos se inundaram, os bichos se juntaram nas coxilhas, e a água entrou na toca da cobra grande, a boi-guaçu, que dormia havia muitas luas. Ela acordou e saiu, e, quando os bichos começaram a morrer, passou a comer as carniças, mas só os olhos.

Cada olho guardava um pingo da luz do último sol que tinha visto. Como a boi-guaçu não tinha pelos, nem escamas, nem penas, nem casca, o corpo dela foi ficando transparente, clareado por milhares de luzinhas, até virar um clarão sem chamas, de luz amarela, triste e fria. Os homens não a reconheceram e passaram a chamá-la boi-tatá, cobra de fogo; ela rondava os ranchos, cobiçando agora os olhos vivos dos homens. Morreu de fraqueza, porque os olhos lhe encheram o corpo mas não lhe deram sustância; o corpo se desfez, a luz presa se soltou, e o sol voltou aos poucos, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre. A luz da boi-tatá ficou sozinha: no inverno não aparece; no verão corre pelos campos como uma bola de fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca nem esquenta a água das nascentes. Quem a encontra, diz o texto, pode até ficar cego; para se livrar, deve ficar parado, de olhos fechados e sem respirar, ou, a cavalo, jogar-lhe o laço em cima e sair a galope arrastando-o, até que ela bata numa macega e se desmanche. O narrador fecha com um tenho visto.

As fontes mudam o lugar e o papel do fogo. Em Anchieta, um fogo que corre pelas praias e à beira dos rios e mata; em Couto de Magalhães, uma serpente que mora na água e protege os campos dos incendiários; em Simões Lopes Neto, a cobra que comeu os olhos dos bichos mortos e virou luz, perigosa para os olhos de quem a vê, mas que não queima a macega. Em todas, o nome diz fogo.

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