Pangu, o que talhou o universo novo
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Pangu (P'an Ku, na grafia de Werner) é, segundo a versão que Werner registrou em Myths and Legends of China, de 1922, a figura de maior destaque da cosmogonia chinesa: foi ele quem talhou o universo a partir do Caos. Werner escreve que, segundo as ideias que ele resume, Pangu nasceu das duas forças originais da natureza, o yin e o yang, que lhe deram a tarefa de dar forma ao Caos e fazer o céu e a terra; outros relatos o descrevem como o próprio criador do universo. O nome, diz ele, pode ser lido como casca de ovo e firmar, alusão a Pangu ter saído do Caos como de um ovo, mas os caracteres talvez não queiram dizer mais que pesquisas sobre a antiguidade.
Nas imagens que Werner descreve, Pangu é um homem de estatura de anão, vestido com pele de urso ou só com folhas, com dois chifres na cabeça, um martelo numa mão e um cinzel na outra, as únicas ferramentas do trabalho. Às vezes aparece acompanhado do unicórnio, da fênix, da tartaruga e do dragão; outras, com o sol numa mão e a lua na outra. O trabalho durou dezoito mil anos: ele formou o sol, a lua e as estrelas, o céu e a terra, e crescia seis pés de altura por dia, até que, terminada a obra, morreu para que ela vivesse.
Do corpo dele saiu o mundo. A cabeça virou as montanhas; o hálito, o vento e as nuvens; a voz, o trovão; os membros, os quatro cantos da terra; o sangue, os rios; a carne, o solo; a barba, as constelações; a pele e os pelos, as ervas e as árvores; os dentes, os ossos e o tutano, os metais, as rochas e as pedras preciosas; o suor, a chuva. E os insetos que andavam sobre o corpo viraram os seres humanos.
Werner anota que esse relato é de origem taoista e que os budistas contam outro, adaptação tardia do mito taoista. Ele conta ainda uma lenda em que o sol e a lua, mal postos nos seus caminhos, se recolhem ao mar de Han e se recusam a sair, até que Pangu, por orientação do Buda, escreve o caractere de sol numa mão e o de lua na outra, chama os dois, repete sete vezes uma fórmula, e eles sobem ao céu e separam o dia da noite. Outras lendas lhe dão cabeça de dragão e corpo de serpente.
Werner compara Pangu a Ymir, o gigante da mitologia escandinava de cujo corpo também se fez o mundo, com a ressalva de que Pangu não teve o mesmo nascimento nem a morte violenta do gigante. E avisa que o mito, embora trate das coisas primeiras, não é antigo: segundo autores que ele considera dignos de respeito, foi inventado no século IV d.C. pelo taoista Ko Hung, autor das Biografias dos Deuses (Shên hsien chuan). Werner não acha prova de que Pangu existisse como tradição antes desse registro escrito e lembra que as cosmogonias dos sábios mais antigos, a do I ching, a de Lao Tzu, a de Confúcio, a de Mêncio e a de Chuang Tzu, eram impessoais. Outra figura ligada à origem das coisas é Nüwa, que tem verbete próprio.
Veja também: Nüwa, a que consertou o céu; A criação no Popol Vuh; Enuma Elish; Izanagi e Izanami.
Para conferir
- E. T. C. Werner, Myths and Legends of China, Londres, George G. Harrap, 1922, capítulo III, p. 76 a 80, exemplar do Internet Archive: Pangu como quem talhou o universo a partir do Caos, o yin e o yang, o significado do nome, o retrato com chifres, martelo e cinzel, os quatro seres, os dezoito mil anos, o crescimento de seis pés por dia, o corpo que vira o mundo, a origem taoista, a lenda do sol e da lua no mar de Han, a cabeça de dragão, a comparação com Ymer e a invenção atribuída a Ko Hung no século IV. Páginas pelo índice do próprio livro (P'an Ku, 76 a 80) e pela busca no exemplar.
- E. T. C. Werner, Myths and Legends of China, 1922, edição do Projeto Gutenberg (e-book 15250), capítulo III: transcrição do mesmo texto, usada para a leitura corrida; as páginas citadas são as do exemplar de 1922.



