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Gilgámesh, o rei que procurou a vida sem fim novo

A tabuinha cuneiforme e o leão de Gilgámesh

Gilgámesh era rei de Uruk, na Mesopotâmia. Tinha força, poder e gente submetida à sua vontade. O que lhe faltava era limite. Sua história chegou em tabuinhas de argila com escrita cuneiforme e está entre as mais antigas que temos. Ele pertence a outro mundo, com relatos escritos anteriores aos poemas homéricos. A versão padrão babilônica reelabora histórias anteriores; sua organização é tradicionalmente atribuída a Sîn-lēqi-unninni, situado aproximadamente entre 1200 e 1000 a.C. Até o rei que queria tudo já tinha um passado quando ganhou a forma em que o lemos.

Os deuses criam Enkidu para fazer frente ao rei. Ele vive no campo entre os animais, longe da cidade. Depois de conhecer Shamhat, entra no mundo dos homens e chega a Uruk. Ali enfrenta Gilgámesh numa luta. O adversário vira amigo, e o rei encontra alguém de quem não pode simplesmente exigir obediência. Enkidu é seu freio, mas também seu companheiro de risco: a amizade não acaba com a vontade dos dois de fazer coisas grandes.

Juntos atravessam o caminho até a Floresta dos Cedros e matam Humbaba, seu guardião. Depois matam o Touro do Céu. Os deuses decidem que Enkidu deve morrer. Ele adoece, e Gilgámesh descobre que toda a sua força não consegue conservar o amigo ao lado. Chora por ele e passa a temer o próprio fim. A viagem seguinte nasce desse luto. Quem antes saía para ganhar um nome agora sai porque não suporta a ideia de desaparecer.

Vai atrás de Utnapishtim, sobrevivente do dilúvio a quem os deuses deram vida sem fim. Encontra o homem, mas não consegue o mesmo destino. Ainda retira do fundo do mar uma planta capaz de devolver a juventude. Durante uma parada para banho, uma serpente a leva. Gilgámesh volta a Uruk sem ela e mostra as muralhas da cidade ao barqueiro que o acompanha. A resposta que traz é a que não queria: ele também vai morrer. As muralhas continuam ali, feitas para uma vida que passa de mão em mão.

Ficou o relato do dilúvio, anterior à versão da Bíblia, com barco, animais e aves soltas para procurar terra. Ficaram também as tabuinhas, reencontradas no século XIX. Uma delas, a K.3375 do Museu Britânico, guarda esse episódio. O texto chegou com falhas: onde a argila está quebrada e faltam outros exemplares, faltam palavras. Mesmo assim, reconhecemos o homem que perdeu o amigo. Para quem perde alguém, essa história ainda serve de companhia. Há milhares de anos, outro já andava sem rumo porque uma pessoa tinha deixado de estar no mundo.

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