Nüwa, a que consertou o céu novo
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Nüwa (Nü Kua Shih, na grafia de Werner, também chamada Nü Wa e Nü Hsi) é, segundo a versão que Werner registrou em Myths and Legends of China, de 1922, uma das poucas figuras que, nas explicações da origem das coisas que ele reúne, aparecem como um ser que cria. A lenda, que Werner diz ter sido mencionada primeiro por Lieh Tzu, faz dela irmã e sucessora de Fu Hsi, o soberano mítico cujo reinado é situado entre 2953 e 2838 a.C., e criadora dos seres humanos quando a terra acabava de sair do Caos. Tinha corpo de serpente e cabeça de boi, ou, segundo outros autores, cabeça humana e chifres de boi, e modelou terra amarela e fez o homem. Werner observa que o sexo da figura parece incerto.
Werner apresenta o relato de Ssu-ma Chêng, autor do século VIII, sobre o conserto do céu. Nüwa, de corpo de serpente e cabeça humana, sucedeu a Fu Hsi. No fim do reinado dela, Kung Kung, um dos príncipes feudais, encarregado dos castigos, violento e ambicioso, rebelou-se e quis vencer pela força da água a força da madeira, sob a qual ela reinava. Lutou com Chu Jung e não venceu; então bateu com a cabeça no monte Pu Chou e o derrubou. As colunas do céu se partiram e os cantos da terra cederam. Nüwa derreteu pedras das cinco cores para remendar o céu, cortou os pés da tartaruga para pôr de pé os quatro extremos da terra e, juntando cinzas de juncos, deteve as águas da inundação e salvou a terra de Chi, onde ficava a antiga sede do poder.
Outra versão, conta Werner, separa o nome em dois e faz de Nü e Kua irmão e irmã, os dois únicos seres humanos que existiam, postos ao pé dos montes K'un-lun no tempo da criação. Os dois rezaram: se tinham sido mandados para ser marido e mulher, que a fumaça do sacrifício ficasse num lugar só; se não, que se espalhasse. A fumaça ficou parada. No capítulo dos mitos das águas, Werner registra ainda um episódio a que também se atribui o conserto do céu: uma rainha guerreira venceu o chefe das tribos em volta do monte O-mei; ele, furioso por ter sido vencido por uma mulher, subiu ao cume e, batendo com a cabeça no tronco do Bambu Celeste, derrubou a árvore, cuja ponta rasgou o céu. Pelas fendas desceu água que inundou a terra e afogou todos, menos a rainha e os soldados dela. Chamada Mãe dos Deuses, ela juntou pedras de cinco cores, moeu-as, fez uma argamassa, tapou os rasgos, e a inundação parou.
Werner faz duas ressalvas. Embora se diga que Nüwa modelou com barro o primeiro homem, ou os primeiros seres humanos, ela é sucessora de Fu Hsi, e antes dela houve longas linhas de governantes de quem não se dá notícia; e, quanto ao céu e à terra, ela é a que consertou, não a que criou. Para ele, essas cosmogonias pessoais, breves e pouco desenvolvidas, não se firmaram como a explicação de como o universo veio a ser: nesse campo, escreve, predomina a lenda de Pangu, que tem verbete próprio.
Veja também: Pangu, o que talhou o universo; Yu e o dilúvio.
Para conferir
- E. T. C. Werner, Myths and Legends of China, Londres, George G. Harrap, 1922, capítulo III, p. 81 e 82, exemplar do Internet Archive: Nü Kua Shih, Nü Wa e Nü Hsi, a menção primeira em Lieh Tzu, irmã e sucessora de Fu Hsi, os anos de 2953 a 2838 a.C., o corpo de serpente, a terra amarela, o relato de Ssu-ma Chêng com Kung Kung, Chu Jung, o monte Pu Chou, as pedras das cinco cores, os pés da tartaruga e as cinzas de juncos, a versão de Nü e Kua irmãos ao pé do K'un-lun e a fumaça, e as duas ressalvas. Páginas pelo índice do próprio livro (Nü Kua, 81 e 82).
- E. T. C. Werner, Myths and Legends of China, 1922, capítulo VII, The Great Flood, p. 224 e 225, mesmo exemplar: a rainha que vence o chefe do monte O-mei, o Bambu Celeste, a inundação, a Mãe dos Deuses e a argamassa de pedras de cinco cores. Páginas pelo índice do próprio livro (repairer of the heavens, 224 e 225).
- E. T. C. Werner, Myths and Legends of China, 1922, edição do Projeto Gutenberg (e-book 15250): transcrição do mesmo texto, usada para a leitura corrida; as páginas citadas são as do exemplar de 1922.



