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A criação no Popol Vuh novo

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O Popol Vuh é o livro sagrado dos quichés, obra, diz a folha de rosto, dos indígenas da Guatemala. Este verbete segue a tradução francesa do abade Brasseur de Bourbourg, publicada em Paris em 1861 com o texto quiché impresso ao lado. A escolha tem motivo: a outra obra antiga à mão é a inglesa de Lewis Spence, de 1908. No prefácio, Spence afirma que ainda não havia tradução do livro em inglês, nem tradução adequada em língua europeia nenhuma; antes do resumo do primeiro livro, explica que vai resumi-lo a partir do francês de Brasseur e do espanhol de Ximénez. Brasseur traduz; Spence resume. As notas de Brasseur, quando interpretam, aparecem aqui como leitura dele. O preâmbulo anuncia a origem da antiga história do Quiché e nomeia, entre outros títulos, os que criam e formam: o Criador, o Formador, o Dominador, a Serpente Coberta de Plumas, o Coração dos Lagos, o Coração do Mar, e a avó e o avô, Xpiyacoc e Xmucané, nomes que o próprio Brasseur, em nota, diz serem de interpretação muito difícil. E explica por que o livro está sendo escrito de novo, já no tempo do cristianismo: porque não se vê mais aquele livro nacional.

No primeiro capítulo, tudo está em suspenso, calmo e em silêncio. Não há ainda um só homem, nem animal, nem ave, nem peixe, nem pedra, nem mata: só o céu. A face da terra não aparece; há só o mar tranquilo e o espaço do céu, e nada faz som. No escuro, na noite, estão sobre a água, como uma luz que cresce, o Criador, o Formador, o Dominador e a Serpente Coberta de Plumas, envoltos em verde e azul, e por isso, diz o texto, o nome é Gucumatz. A palavra do Coração do Céu, cujo nome é Hurakan, vem até o Dominador e Gucumatz; Brasseur anota que o nome parece vir das Antilhas, onde designava a tempestade, e que dele os espanhóis tiraram huracán. Na tradução de Brasseur, o Relâmpago é o primeiro sinal de Hurakan, o Sulco do Relâmpago é o segundo, o Raio que fere é o terceiro, e os três são do Coração do Céu. Eles conversam, pensam juntos e decidem: que a água se retire e a terra apareça, porque não terão glória nem honra do que fizeram enquanto não existir a criatura humana, dotada de razão. Terra, dizem, e ela se forma num instante, como névoa ou nuvem; as montanhas surgem da água, com os vales e os bosques de cipreste e pinheiro. Gucumatz se alegra e dá as boas-vindas ao Coração do Céu, e os rios passam a correr serpenteando entre as montanhas.

No segundo capítulo vêm os animais da montanha, guardiães das matas: veados, aves, leões, tigres e serpentes, nos nomes que a tradução de Brasseur dá a eles. A cada um os criadores dão morada, ao veado a beira dos riachos, às aves o alto das árvores, e depois mandam que falem, que digam o nome de quem os fez e o invoquem. Eles não conseguem falar como o homem: só cacarejam e crocitam, cada espécie murmurando de um jeito. Os criadores mudam então a palavra que tinham dado: os animais vão ficar nas ravinas e nas matas, e a carne deles será comida. Tentam de novo e fazem de barro a carne de um homem. Não sai bom: o homem de barro não tem firmeza nem força, não vira a cabeça, tem o rosto voltado para um lado só e a vista velada; fala, mas não tem entendimento, e logo se desmancha na água. Os criadores o desfazem.

Para a terceira tentativa, consultam os adivinhos, a avó Xmucané e o avô Xpiyacoc, que tiram a sorte com milho e com tzité, uma árvore cujas bagas, anota Brasseur, trazem grãos vermelhos que os adivinhos da região ainda misturavam ao milho para tirar a sorte. A resposta é que façam bonecos de madeira, que falem e raciocinem sobre a face da terra. Assim se faz, e os homens de madeira existem, se multiplicam e têm filhos e filhas, mas não têm coração, nem entendimento, nem lembrança de quem os fez. Andam sem rumo, a face resseca, não têm sangue nem umidade, e não erguem a cabeça para o Criador e o Formador. Foram, diz o texto, apenas um ensaio de homens.

O terceiro capítulo conta a destruição deles e acrescenta que a carne do homem era de tzité, e a da mulher, de zibak, a medula de um junco, segundo um vocabulário que Brasseur consulta; outro diz que é sassafrás. Por vontade do Coração do Céu, as águas sobem num grande dilúvio, uma resina espessa desce do céu e quatro seres de nomes que Brasseur não sabe traduzir, e que toma por aves de rapina, os atacam. A terra escurece sob uma chuva de dia e de noite. Os animais e as coisas da casa se voltam contra eles. Os cães e as galinhas dizem que foram maltratados; as pedras de moer, que gemiam todo dia sob o milho, holi, holi, huqui, huqui, prometem moê-los também; os cães perguntam por que nunca lhes davam de comer; as panelas e as chapas, que viviam no fogo, prometem queimá-los. Os homens fogem desesperados: as casas desabam quando tentam subir nelas, as árvores os sacodem para longe, as cavernas se fecham. Diz-se que a descendência deles são os macaquinhos que vivem nas matas, parecidos com o homem porque vêm de gente feita só de madeira. Nas notas, Brasseur lê essas criações como a história de castas e de povos antigos; o texto não diz isso, e a leitura é dele. Só na terceira parte do livro o milho amarelo e o milho branco entram na carne do homem.

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