Net Love Net Love
Seções

Izanagi e Izanami novo

Tamanho
1.059 palavras

No Kojiki, o registro de coisas antigas do Japão que Basil Hall Chamberlain traduziu para o inglês em 1882, Izanagi e Izanami são o último par das sete gerações divinas, designados como irmão e irmã mais nova; Chamberlain ressalva que, no japonês arcaico, irmã mais nova e esposa são designações intercambiáveis. Chamberlain traduz os nomes por o Macho que Convida e a Fêmea que Convida, e anota que izana é a raiz do verbo convidar, enquanto gi e mi, de origem incerta, marcam o macho e a fêmea de um par; Motowori preferia ler o que te convida. Todos os deuses do céu ordenam aos dois que façam, consolidem e deem à luz a terra que ainda flutua à deriva, e lhes entregam uma lança que Chamberlain traduz como adornada de joias, admitindo que joia pode ser só um modo de dizer beleza. De pé na Ponte Flutuante do Céu, eles mergulham a lança e mexem a água salgada até ela engrossar, na leitura adotada por Chamberlain, que registra também a possibilidade de a expressão indicar um som; a salmoura que pinga da ponta se amontoa e vira uma ilha, Onogoro, que quer dizer a que se condensou sozinha. Sobre a natureza da ponte, anota Chamberlain, os comentadores divergem.

Os dois descem à ilha, erguem um pilar celeste e um salão de oito braças; no trecho paralelo das Crônicas, é a própria Onogoro que vira o pilar central da terra. A conversa em que comparam os corpos e combinam a união, Chamberlain a deixa em latim. Eles combinam dar a volta no pilar, ela pela direita, ele pela esquerda, e quando se encontram ela fala primeiro: que jovem belo e amável. Ele responde: que moça bela e amável. Depois diz que não convém à mulher falar primeiro. O primeiro filho é Hiru-go, a criança sanguessuga, que eles põem num barco de juncos e deixam ir na corrente; depois nasce a ilha de Aha, e nenhum dos dois conta entre os filhos. Sobem ao céu para perguntar, e os deuses do céu, por adivinhação, respondem que não deu certo porque a mulher falou primeiro. Os dois descem, refazem a volta, desta vez ele fala primeiro, e nascem as ilhas: Ahaji, a ilha de Iyo, as de Mitsu-go perto de Oki, Tsukushi, Iki, Tsu, Sado e a Grande Yamato. Por terem nascido primeiro, essas oito dão ao país o nome de Terra das Oito Grandes Ilhas; depois vêm outras seis.

Terminadas as terras, os dois dão à luz deuses: do mar, das bocas dos rios, do vento, das árvores, das montanhas, dos campos, e por fim o deus do fogo. O parto do fogo queima Izanami, que adoece e se deita; mesmo doente, ainda nascem dela deuses, entre eles os que Chamberlain lê como da montanha de metal, os da argila e uma deusa da água, e então ela morre. O Kojiki diz morrer com uma expressão que Chamberlain traduz por retirar-se divinamente. O texto soma catorze ilhas e trinta e cinco deuses, e Chamberlain anota que a conta não fecha: os nomes listados são nada menos que quarenta. Izanagi lamenta ter trocado a irmã querida por um único filho, rasteja chorando em volta do travesseiro e dos pés dela, e das suas lágrimas nasce uma deusa do choro, que mora no monte Kagu. Ele enterra Izanami no monte Hiba, na fronteira das terras de Idzumo e Hahaki. Depois desembainha o sabre e corta a cabeça do filho, o deus do fogo. Do sangue na espada nascem oito deuses, e outros oito, das montanhas, nascem do corpo do filho morto.

Izanagi vai atrás da irmã até o Yomi, a terra dos mortos, que Chamberlain traduz por Hades; em nota explica que os caracteres querem dizer corrente amarela, um nome chinês, que a derivação japonesa tradicional liga Yomi à palavra noite, e que merece consideração a hipótese de uma relação com Yâma, nome sânscrito do deus budista do inferno. Izanami sai do palácio para recebê-lo, e ele pede que volte, porque as terras que os dois faziam ainda não estão prontas. Ela lamenta que ele não tenha vindo antes: já comeu da comida do Yomi. Mesmo assim, diz que deseja voltar e que vai tratar disso com os deuses de lá (o plural é escolha de Chamberlain, que admite também o singular), e pede que ele não olhe para ela. Como ela demora muito, ele quebra o dente da ponta do pente que leva no cabelo, acende com ele uma luz e entra. Encontra o corpo dela já em decomposição, com oito deuses do trovão nascidos e morando nele. Aterrado, foge. Izanami diz que ele a envergonhou e manda atrás dele a Mulher Feia do Yomi. Ele joga o enfeite da cabeça, que vira uvas, e o pente do lado direito, que vira brotos de bambu, e foge enquanto ela come. Depois vêm os oito deuses do trovão com mil e quinhentos guerreiros do Yomi. Ao pé da Ladeira Plana do Yomi, ele colhe três pêssegos que crescem ali, espera, golpeia com eles os perseguidores, e todos recuam. Agradecido, pede aos pêssegos que socorram o povo vivo da Terra Central das Planícies de Juncos quando estiver em aflição, e lhes dá um nome divino.

Por último, a própria Izanami sai em perseguição. Izanagi fecha a ladeira com uma rocha que, segundo Chamberlain, mil homens seriam precisos para erguer, e os dois ficam frente a frente, um de cada lado. Trocam palavras de despedida; o sentido exato dos caracteres, anota o tradutor, não se pode determinar, e Moribe os lê como os dois se divorciando. Izanami diz que, se ele fizer assim, ela vai estrangular mil pessoas da terra dele por dia. Izanagi responde que, então, vai erguer mil e quinhentas cabanas de parto por dia, e o Kojiki conclui que assim, todo dia, mil pessoas hão de morrer e mil e quinhentas hão de nascer. Izanami passa a ser chamada a Grande Deusa do Yomi; a rocha recebe nome de deus, o que fez voltar no caminho, e a ladeira, diz o texto, se chama agora ladeira de Ifuya, na terra de Idzumo. Izanagi diz que esteve numa terra horrenda e impura e vai se purificar num rio em Tsukushi. Dos objetos e roupas que tira nascem deuses; outros nascem enquanto ele se lava, e, quando lava o olho esquerdo, nasce Amaterasu.

Para conferir