O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco: o resumo do ensaio de 1883 contra a escravidão
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Resumo escrito para o acervo Net Love em 9 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Joaquim Nabuco. A obra é dele e está em domínio público no Brasil. Os trechos citados saem da edição de 1883, impressa em Londres pela Typographia de Abraham Kingdon, nas imagens digitalizadas pela Fundación Ignacio Larramendi e publicadas no Internet Archive.
Como o livro se apresenta
A folha de rosto diz O Abolicionismo, por Joaquim Nabuco, Londres, Typographia de Abraham Kingdon, 1883.
O livro é dedicado ao Ceará e abre com um prefácio assinado pelo autor e datado de Londres, 8 de abril.
No prefácio, Nabuco diz que este é o primeiro volume de uma série sobre as reformas de que o Brasil precisa, e que o abolicionismo vem antes das outras porque todas dependem dele.
Os volumes seguintes, anuncia, tratariam da economia e das finanças, da instrução pública, da descentralização, da igualdade religiosa, das relações exteriores, da representação política e da imigração.
Ele escreve de longe, como um companheiro de causa ausente, e espera que o livro ajude a unir os abolicionistas brasileiros e a apressar o dia em que a Independência seja completada pela Abolição.
Neste resumo, a escravidão é dita com palavras de hoje, e quem vivia sob ela é chamado de pessoas escravizadas.
O livro usa as palavras do seu tempo, e as citações abaixo foram escolhidas entre trechos que não as trazem.
O resumo expõe o que Nabuco defende como argumento dele, na ordem em que o livro o apresenta.
A tese em poucas linhas
Para Nabuco, abolicionismo não é apenas libertar quem ainda está escravizado.
O primeiro capítulo separa duas tarefas.
A imediata é libertar as pessoas escravizadas e os filhos delas.
A maior, a do futuro, é apagar os efeitos de três séculos de escravidão sobre o país inteiro.
Quando mesmo a emancipação total fosse decretada amanhã, a liquidação d'esse regimen daria logar a uma serie infinita de questões, que só poderiam ser resolvidas de accordo com os interesses vitaes do paiz pelo mesmo espirito de justiça e humanidade que dá vida ao Abolicionismo.
O Abolicionismo, na edição de Londres (Typographia de Abraham Kingdon, 1883), página 5, capítulo I
Por isso o livro avisa que usa a palavra escravidão num sentido largo:
Assim como a palavra "Abolicionismo," a palavra "Escravidão" é tomada n'este livro em sentido lato.
O Abolicionismo, na edição de Londres (Typographia de Abraham Kingdon, 1883), página 7, capítulo I
Escravidão, nesse sentido, é a relação entre quem escraviza e quem é escravizado, mas também o poder, o capital e a clientela dos proprietários, a dependência do comércio, da religião, do Parlamento e do Estado diante desse poder, e o espírito que sustenta a instituição.
A luta contra ela, diz o autor, mal começou e vai durar muito.
O caminho dos dezessete capítulos
São dezessete capítulos numerados, cada um com título e epígrafe, e o último traz também a conclusão.
O livro não se divide em partes; o agrupamento abaixo é nosso.
Capítulos I a V: o que é o movimento. O que o abolicionismo quer, por que ainda não é um partido, em nome de quem fala, como deve agir e por que a causa não está ganha.
Capítulos VI a X: as promessas e a lei. As promessas feitas desde antes da Independência, a lei de 1871, o tráfico e a ilegalidade de boa parte da escravidão no Brasil.
Capítulos XI e XII: o direito e o presente. Os fundamentos do abolicionismo e a escravidão como ela existia em 1883.
Capítulos XIII a XV: o que a escravidão fez ao país. A população, o território, a sociedade e a política.
Capítulos XVI e XVII: por que não esperar. Os perigos da demora, os receios dos adversários e a conclusão.
O que é o movimento (capítulos I a V)
O primeiro capítulo conta a história das oposições à escravidão.
Antes de 1840, diz o livro, o Brasil era presa do tráfico de pessoas trazidas da África.
A primeira oposição nacional foi só contra o tráfico, na esperança de que a escravidão fosse acabando aos poucos.
O tráfico acabou, diz o livro, pela energia de Eusébio de Queirós e pela vontade do Imperador, e em 1850 se pensava acabar com a escravidão acabando com o tráfico.
Em 1871 veio a lei que libertava os filhos de mulheres escravizadas nascidos dali em diante.
O abolicionismo de que o livro fala é o passo seguinte: libertar todos, e já, e não deixar que a escravidão acabe sozinha com a morte das pessoas escravizadas.
O autor registra que foi na legislatura de 1879 e 1880 que um grupo de homens fez pela primeira vez da emancipação a sua bandeira política.
O capítulo II explica que ainda não existe um partido abolicionista no sentido próprio.
O que existe, diz o autor, é uma agitação que reúne liberais, conservadores e republicanos, cada um pondo a consciência acima do partido.
Para ele, os dois grandes partidos do Império eram sustentados pela própria escravidão, que funcionava como um Estado dentro do Estado.
O capítulo III trata do mandato que, segundo o autor, os abolicionistas receberam sem que ninguém o tivesse dado em voz alta.
O abolicionista seria o advogado gratuito de dois grupos que não tinham meios de defender os próprios direitos: as pessoas escravizadas e os filhos delas nascidos depois da lei de 1871, que, segundo o autor, a lei deixava na prática sob o poder dos proprietários até os vinte e um anos.
O livro critica a Igreja da época, que, segundo ele, nunca levantou a voz pela emancipação e cujo clero também possuía pessoas escravizadas.
E afirma que no Brasil, diferentemente das colônias europeias, o abolicionismo é antes de tudo um movimento político: a ideia de reconstruir o país sobre o trabalho livre e sobre a convivência, na liberdade, de brasileiros de todas as origens.
O capítulo IV define o caráter do movimento.
A propaganda abolicionista, diz o autor, fala às pessoas livres, não às escravizadas, e recusa qualquer incitação à revolta, que seria covardia, erro e crime, porque exporia ao castigo quem não tinha defesa.
O caminho que ele propõe é outro:
A emancipação ha de ser feita entre nós por uma lei que tenha os requisitos externos e internos de todas as outras. E' assim no Parlamento e não em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e praças das cidades, que se ha de ganhar ou perder a causa da liberdade.
O Abolicionismo, na edição de Londres (Typographia de Abraham Kingdon, 1883), página 26, capítulo IV
O capítulo V responde a quem dizia que a causa já estava vencida na consciência pública.
Para o autor, quem diz isso quer desarmar os abolicionistas e deixar a escravidão desaparecer devagar, sem lei.
A vitória só existiria, argumenta, quando a liberdade estivesse escrita em lei e fosse sentida pela própria pessoa libertada.
As promessas e a lei (capítulos VI a X)
O capítulo VI trata das promessas feitas às pessoas escravizadas pelos poderes públicos, que, segundo o livro, eram formuladas de modo a nunca poderem ser cobradas.
Ele abre com uma frase de José Bonifácio, para quem sem o fim do tráfico e a emancipação gradual o Brasil nunca firmaria a sua independência.
No exemplar digitalizado que lemos faltam as páginas 53 a 55, que são deste capítulo; o resumo não trata delas.
O capítulo VII vai até a lei de 1871 e insiste num ponto que volta no capítulo X: pelo menos metade das pessoas escravizadas no Brasil, diz o autor, estava em cativeiro contra a própria lei.
O capítulo VIII examina a lei de 28 de setembro de 1871, que o livro chama de lei Rio Branco.
Numa nota, o autor escreve que ninguém fez mais para preparar essa lei do que o pai dele, o senador Nabuco, que de 1866 a 1871 fez dela a sua principal questão política.
Mesmo assim, ele é severo com a lei: ela deixou os filhos nascidos livres sob o poder dos proprietários das mães e, quando a criança fizesse oito anos, deu ao proprietário a escolha entre uma indenização em títulos e o uso do trabalho dela até os vinte e um anos.
A epígrafe do capítulo, de J. A. Saraiva, resume outra crítica: a lei não cuidou das gerações que já estavam escravizadas.
O juízo final do capítulo junta as duas coisas:
Imperfeita, incompleta, impolitica, injusta, e até absurda, como nos parece hoje, essa lei foi nada menos do que o bloqueio moral da escravidão.
O Abolicionismo, na edição de Londres (Typographia de Abraham Kingdon, 1883), página 73, capítulo VIII
O capítulo IX trata do tráfico de pessoas trazidas da África, que o autor considera o maior crime coletivo da história, e cita o explorador Livingstone sobre o que viu na África Oriental.
O resumo não reproduz as descrições do capítulo.
O capítulo X é um argumento jurídico.
A lei de 7 de novembro de 1831 declarou livres as pessoas escravizadas que entrassem no Brasil vindas de fora a partir dela, e, diz o autor, nunca foi posta em execução, porque o governo não conseguia enfrentar os traficantes.
Como a maior parte das pessoas escravizadas do Sul, diz o autor, tinha chegado depois de 1831 ou descendia de quem chegou, elas eram, perante a própria lei brasileira, pessoas livres mantidas em cativeiro de forma criminosa.
O direito e o presente (capítulos XI e XII)
O capítulo XI sai da lei brasileira e vai para o direito das nações.
O autor cita o jurista suíço Bluntschli: não há propriedade do homem sobre o homem.
E conclui:
Nenhum Estado deve ter a liberdade de pôr-se assim fóra da communhão civilizada do mundo, e não tarda, com effeito o dia em que a escravidão seja considerada legalmente, como já o é moralmente, um attentado contra a humanidade toda.
O Abolicionismo, na edição de Londres (Typographia de Abraham Kingdon, 1883), página 110, capítulo XI
O capítulo XII mostra a escravidão de 1883.
Segundo o autor, depois de 1871 o governo espalhou no exterior a ideia de que a escravidão estava acabando, enquanto escondia a mortalidade, os crimes, as vendas e a situação dos filhos libertados que cresciam no mesmo regime.
O capítulo descreve esses fatos com detalhe; o resumo não os reproduz.
O que a escravidão fez ao país (capítulos XIII a XV)
O capítulo XIII trata da influência da escravidão sobre a formação do povo brasileiro, que o autor diz descender em grande parte de pessoas escravizadas.
Nas páginas que lemos, o autor trata a origem e a mistura da população com ideias raciais da sua época; o resumo não as cita e registra aqui esse limite.
O capítulo XIV fala do território.
Com uma representação da Assembleia Provincial do Rio de Janeiro e com o testemunho de André Rebouças sobre o Recôncavo da Bahia, o autor diz que, onde a escravidão chega, queima as florestas, esgota o solo e deixa para trás uma população pobre e errante.
O capítulo XV trata das consequências sociais e políticas.
Um governo livre construído sobre a escravidão, diz o autor, seria coisa nunca vista na história.
Ele compara o Brasil com os Estados Unidos: lá, a escravidão estava concentrada no Sul; aqui, segundo ele, ela alcançou o país inteiro, sem nenhuma linha divisória.
Por que não esperar (capítulos XVI e XVII)
O capítulo XVI responde à objeção mais forte dos adversários: se a escravidão vai acabar sozinha em vinte anos, por que não esperar, sem sacrifício para ninguém?
Para o autor, como diz o título do capítulo, a demora traz perigos; já no primeiro capítulo ele tinha escrito que cada ano a mais de escravidão degrada o país inteiro.
O capítulo XVII pergunta se existem no país forças capazes de vencer a escravidão, que o autor descreve como dona da terra, do capital e de uma clientela enorme de todas as profissões.
Depois examina os receios dos adversários sobre o que viria depois da abolição, e chega à conclusão.
Nela, o que ele deseja para o dia seguinte à vitória é a paz:
A amnistia, o esquecimento da escravidão; a reconciliação de todas as classes; a moralização de todos os interesses; a garantia da liberdade dos contractos; a ordem nascendo da cooperação voluntaria de todos os membros da sociedade Brazileira: essa é a base necessaria para reformas que alteiem o terreno politico em que esta existiu até hoje.
O Abolicionismo, na edição de Londres (Typographia de Abraham Kingdon, 1883), página 254, capítulo XVII
As últimas páginas fazem um apelo.
Aos moços, o autor pede o compromisso de, desde a entrada na vida civil, não negociar com seres humanos.
A quem tiver força, inteligência e honradez, pede que deixe de lado a ambição política e se dedique a espalhar, pelo jornal, pelo livro, pela associação, pela palavra e pela escola, os princípios que fazem as nações modernas fortes e respeitadas.
Os limites do livro
O Abolicionismo é um livro escrito para convencer os brasileiros livres: o próprio autor diz que a propaganda se dirige aos livres, e não às pessoas escravizadas.
Boa parte dos argumentos que este resumo mostra fala do mal que a escravidão faz ao país inteiro, à terra, à economia e à política.
E, como dissemos acima, o capítulo XIII usa ideias raciais da época para falar da origem do povo.
Esses limites não apagam a tese central, mas ajudam a ler o livro no seu tempo.
Depois do livro
O livro saiu em 1883.
Cinco anos depois, em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea aboliu a escravidão no Brasil.
A segunda tarefa que o primeiro capítulo propunha, a de apagar os efeitos de três séculos de escravidão, é a que o autor previa que levaria muito mais tempo.
A edição que lemos
Lemos a edição impressa em Londres pela Typographia de Abraham Kingdon, com a data de 1883 na folha de rosto.
Dela lemos o prefácio, o índice, a abertura de todos os capítulos e as páginas de que este resumo fala; não lemos o livro inteiro página a página.
O exemplar foi digitalizado pela Fundación Ignacio Larramendi e publicado em imagens no Internet Archive.
Neste exemplar faltam as páginas 53 a 55, do capítulo VI.
Cada trecho citado foi copiado da imagem da página impressa, na grafia da edição ("Brazil", "paiz", "accordo", "effeito").
O espaço que a edição põe antes de ponto e vírgula e dois-pontos não foi reproduzido.
Leia o livro, nas imagens da edição de Londres, Typographia de Abraham Kingdon, 1883, digitalizada pela Fundación Ignacio Larramendi e publicada no Internet Archive. O acervo da Net Love tem este resumo, não o livro inteiro. O livro está em domínio público.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Os Sertões, Opúsculo Humanitário, O Navio Negreiro e Conselhos à minha filha.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Joaquim Nabuco. Os trechos citados vêm da edição de Londres de 1883: os trechos em bloco saíram das páginas 5, 7, 26, 73, 110 e 254, todos conferidos na imagem da página impressa. As citações em bloco não trazem travessão.
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