Net Love
Seções

Os Sertões, de Euclides da Cunha: o resumo do livro da campanha de Canudos novo

Vídeo produzido em 2026 para o acervo Net Love, a partir do resumo escrito aqui, pouco mais de 3 minutos. A trilha é sintetizada.

Mandar o vídeo

Resumo escrito para o acervo Net Love em 29 de setembro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Euclides da Cunha. A obra é dele, saiu em 1902, e está em domínio público no Brasil desde 1º de janeiro de 1980, setenta anos contados do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, em 1909, como manda o artigo 41 da Lei 9.610 de 1998. O texto que lemos e citamos é a transcrição da Wikisource em português, em uma página por capítulo. Essa transcrição mistura duas grafias, a da primeira edição e uma grafia atualizada, e a nota de procedência no fim desta página explica quais capítulos estão em cada uma. As citações aparecem exatamente como estão na fonte, cada uma com a parte e o capítulo. O vídeo é narrado com a voz de Rodrigo Soares, sintetizada por inteligência artificial com a autorização dele. As figuras deste texto e as imagens do vídeo foram geradas por inteligência artificial em 2026.

Um livro que começa acusando

Antes das três partes, há uma nota curta do autor, assinada em São Paulo, em 1901.

Nela, Euclides diz o que pensa da guerra que vai contar.

Aquella campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime.

Os Sertões, Nota Preliminar

Logo depois vem uma palavra só, "Denunciemol-o."

Essa denúncia atravessa o livro.

Mas a mesma nota anuncia também outro projeto, feito com a ciência racial da época, e é dele que fala a nota de leitura no fim desta página.

Três partes, e as expedições só na última

Os Sertões tem três partes: A Terra, O Homem e A Luta.

As expedições contra Canudos só aparecem na terceira.

Antes, Euclides descreve o chão, o clima e a seca, e depois a gente que vive ali.

As três partes de Os Sertões. As expedições contra Canudos só aparecem na terceira. Parte 1, A Terra: a entrada do sertão, a caminho de Monte Santo; o clima e os extremos de calor e frio; as secas e as caatingas; como se faz um deserto, e como ele se extingue. Parte 2, O Homem: a formação da gente do sertão, nos capítulos I e II; o sertanejo, o vaqueiro, a seca, a religião; Antônio Conselheiro; Canudos antes da guerra. Aviso: esta parte usa a ciência racial do tempo do autor, hoje recusada. Parte 3, A Luta: Preliminares, com a madeira de Juazeiro e Uauá; Travessia do Cambaio; Expedição Moreira César; Quarta Expedição; Nova Fase da Luta; Últimos Dias. No rodapé: antes das três partes vem a Nota Preliminar, assinada em São Paulo, 1901.
As três partes do livro, e as seções da terceira. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

A Terra

A primeira parte é quase um livro de geografia, escrito com frases longas e muitas palavras difíceis.

O que fica é a caatinga na seca, vista por quem tenta atravessá-la.

Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; aggride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama spinescente e não o attrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e desdobra-se-lhe adiante leguas e leguas, immutavel no aspecto desolado: arvores sem folhas, de galhos extorcidos e seccos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar immenso, de tortura, da flora agonisante...

Os Sertões, A Terra, capítulo IV

Mas a mesma parte conta o que acontece quando a chuva chega.

E ao tornar da travessia o viajante, pasmo, não vê mais o deserto. Sobre o solo, que as amaryllis atapetam, resurge triumphalmente a flora tropical. É uma mutação de apotheose.

Os Sertões, A Terra, capítulo IV

Algumas linhas adiante, ele escreve "E o sertão é um paraizo."

No capítulo seguinte, resume o sertão em duas palavras de sentido oposto: "Barbaramente estereis; maravilhosamente exuberantes..."

O Homem

A segunda parte é sobre a gente do sertão.

É nela que está a frase mais conhecida do livro, que abre o capítulo III.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte.

Os Sertões, O Homem, capítulo III

A frase continua com uma comparação que usa a ciência racial da época, e este resumo não a reproduz.

O mesmo capítulo descreve o vaqueiro, que parece mole e cansado sobre o cavalo e que, quando uma rês foge, dispara pela caatinga atrás dela.

Nessa parte também aparece Antônio Conselheiro, um pregador que andou por muitos anos pelos sertões, de hábito azul e bastão na mão, construindo igrejas.

E aparece Canudos, antes da guerra.

Canudos, velha fazenda de gado à beira do Vaza-Barris, era, em 1890, uma tapera de cerca de cinqüenta capuabas de pau-a-pique.

Os Sertões, O Homem, capítulo V

O Conselheiro chega em 1893, e o arraial cresce muito depressa.

Como a guerra começa

O capítulo II da terceira parte abre com uma frase seca: "Determinou-a incidente desvalioso."

O incidente é uma compra de madeira.

Antônio Conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos.

Os Sertões, A Luta, capítulo II

A madeira, que era para terminar a igreja nova, não foi entregue no prazo.

O Conselheiro ameaçou ir buscá-la à força.

O livro diz que isso aconteceu "em dias de outubro de 1896".

As quatro expedições

Contra Canudos foram mandadas quatro expedições, uma depois da outra.

A primeira sai em novembro, com três oficiais e 104 praças, sob o tenente Pires Ferreira.

Eles param em Uauá, e é lá que os sertanejos os surpreendem.

Na madrugada de 21 desenhou-se no extremo da várzea o agrupamento dos jagunços... Um coro longínquo esbatia-se na mudez da terra ainda adormida, reboando longamente nos ermos desolados. A multidão guerreira avançava para Uauá, derivando à toada vagarosa dos kyries, rezando.

Os Sertões, A Luta, capítulo II

A tropa resiste, mas não segue adiante e volta para Juazeiro.

A segunda é a do major Febrônio de Brito.

Foi nestas condições desfavoraveis que partiram a 12 de Janeiro de 1897. Tomaram pela estrada do Cambaio.

Os Sertões, A Luta, Travessia do Cambaio, capítulo II

Depois dos combates no Cambaio, essa tropa também se retira.

A terceira é a do coronel Moreira César, com quase 1.300 combatentes.

Perto do arraial, ele propõe atacar sem descanso, e diz alto: "Vamos almoçar em Canudos!"

No ataque, ele é atingido no ventre, e o livro diz: "Estava mortalmente ferido."

Na madrugada seguinte, a notícia corre: "Falecera o coronel Moreira César."

O que vem depois cabe numa linha.

E foi uma debandada.

Os Sertões, A Luta, Expedição Moreira César, capítulo VI
As quatro expedições contra Canudos, só com as datas e os números que o livro dá. Outubro de 1896: a madeira comprada em Juazeiro não é entregue, e o Conselheiro ameaça buscá-la à força. Primeira expedição, novembro de 1896, Uauá: três oficiais e 104 praças sob o tenente Pires Ferreira; chegam a Uauá no dia 19, na madrugada de 21 os sertanejos avançam rezando, e a tropa se retira dali mesmo. Segunda expedição, janeiro de 1897, o Cambaio: sob o major Febrônio de Brito, 543 praças, 14 oficiais e 3 médicos; parte em 12 de janeiro pela estrada do Cambaio e também se retira. Terceira expedição, fevereiro e março de 1897: quase 1.300 combatentes sob o coronel Moreira César; a partida de Monte Santo estava marcada para 22 de fevereiro e começa na véspera, ao cair da noite; no ataque, em março, o coronel é ferido, morre na madrugada seguinte, e a tropa foge. Quarta expedição, de abril a outubro de 1897: sob o general Artur Oscar; primeiros tiros em 25 de junho; o Conselheiro morre durante o cerco, e o livro dá 22 de agosto num capítulo e 22 de setembro em outro; o canhoneio final começa em 1º de outubro, e Canudos cai no dia 5.
As quatro expedições, com as datas e os números do próprio livro. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

O cerco

A quarta expedição é a do general Artur Oscar.

Ela chega a Canudos no fim de junho de 1897, e não consegue avançar.

O livro inverte a ideia de cerco.

Mas, de fato, como sempre sucedera desde 27 de junho, a expedição é que estava sitiada.

Os Sertões, A Luta, Quarta Expedição, capítulo V

Chegam reforços de vários estados, e a luta vira uma rotina de trincheiras, feridos e fome, dos dois lados.

Em alguns momentos o autor fala em primeira pessoa, como quem viu: "Fui testemunha de um deles."

E, no meio do cerco, morre o homem em volta de quem Canudos cresceu.

Falecera a 22 de agosto Antônio Conselheiro.

Os Sertões, A Luta, Nova Fase da Luta, capítulo III

Mais adiante, em Últimos Dias, o livro dá outra data, pelo depoimento de um prisioneiro: "morrera a 22 de setembro, de uma disenteria".

As duas datas estão no texto, e o resumo não escolhe entre elas.

Os caminhos para Canudos, em esquema sem escala e sem pontos cardeais. Canudos no centro, à beira do rio Vaza-Barris, com montanhas em volta e gargantas por onde passam quatro caminhos, como o livro descreve em O Homem, capítulo V. O caminho do Uauá, entre os pendores do Caipã: a primeira expedição, que para em Uauá e volta. O caminho de Jeremoabo, pelos desfiladeiros de Cocorobó: a coluna Savaget, da quarta expedição, em junho de 1897. O caminho do Cambaio, pelas vertentes do Calumbi: a segunda expedição, que passa o Cambaio, chega perto do arraial e volta pelo mesmo caminho. O caminho do Rosário, contornando a Favela: a coluna do general Artur Oscar, da quarta expedição. O caminho da terceira expedição não entra no esquema.
Os caminhos para Canudos, em esquema sem escala, só com os nomes que o livro dá. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

O fim

A partir daqui o resumo conta o fim do livro. Se você prefere chegar lá sem saber, pare neste parágrafo.

O canhoneio final começa no dia 1º de outubro, depois de meses de bombardeio.

Sobre os dias 3 e 4, o livro diz que não há como relatar o que houve.

E fecha a guerra assim.

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

Os Sertões, A Luta, Últimos Dias, capítulo VI

Depois, os vencedores contam as casas.

Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas.

Os Sertões, A Luta, Últimos Dias, capítulo VI

O livro conta ainda que o corpo do Conselheiro foi achado e fotografado, e que a cabeça foi levada para o litoral, para ser examinada.

A última página tem o título "Duas linhas", e é só uma frase.

É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades...

Os Sertões, A Luta, Últimos Dias, capítulo VII

Maudsley era um médico inglês que estudava a loucura.

Nesta leitura, a frase devolve a acusação da primeira página: quem precisaria de exame é o país que fez aquela guerra.

Uma nota de leitura

Os Sertões usa a ciência racial do seu tempo, que classificava as pessoas por raça e tirava disso conclusões sobre quem era mais capaz.

Essas ideias estão sobretudo na parte O Homem, mas já aparecem na Nota Preliminar, a mesma que chama a campanha de crime, e são hoje recusadas.

Este resumo não as repete como fato e não cita esses trechos.

O livro mistura relato, geografia e opinião, e o autor não esconde de que lado está a sua pena.

Por isso, quem quiser saber o que aconteceu em Canudos faz bem em ler também livros de história escritos depois.

Aqui ficamos só com o que está na página, e toda data e todo número deste resumo foram conferidos no texto.

Uma nota de procedência sobre a fonte

A transcrição da Wikisource que usamos tem uma página por capítulo, e não é toda igual.

A Nota Preliminar, os cinco capítulos de A Terra, os capítulos I e II de O Homem, os capítulos I e IV de A Luta, os seis da Travessia do Cambaio e os capítulos I a III de Últimos Dias estão na grafia da primeira edição, com formas como "Brazil", "seccas" e "aquelle".

Essas páginas declaram a primeira edição, de 1902, com o número das páginas.

Os outros capítulos estão em grafia atualizada, e na ficha só dizem "Edição de referência 1902".

Como a grafia mudou, alguém atualizou esses capítulos, e a fonte não diz a partir de qual edição.

Num ponto a transcrição acrescenta uma palavra entre colchetes, "Não há [como] relatar o que houve a 3 e a 4.", e por isso essa frase não entra em citação aqui.

As citações desta página seguem cada capítulo como ele está, sem uniformizar.

Por que ler hoje

Porque é o livro em que uma guerra do próprio país foi chamada de crime, com todas as letras, por quem a acompanhou.

E porque a caatinga de A Terra, seca e depois florida no mesmo capítulo, continua a mesma que muita gente conhece.

Leia o livro inteiro, na transcrição publicada pela Wikisource em português, com uma página por capítulo. É dessa mesma transcrição que saem os trechos citados aqui. Os Sertões não está no acervo da Net Love. A obra está em domínio público no Brasil desde 1980.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Vidas Secas, Triste Fim de Policarpo Quaresma, O Cortiço, Iracema e O Ateneu. Frases do livro, cada uma com a parte e o capítulo, estão em Frases de Os Sertões.

Transcrição do vídeo

Eu sou o Rodrigo Soares, e em três minutos eu te conto Os Sertões, que Euclides da Cunha publicou em mil novecentos e dois.

É o livro da campanha de Canudos, no sertão da Bahia, e no fim eu conto como ela termina.

O livro tem três partes, A Terra, O Homem e A Luta.

As expedições contra Canudos só aparecem na terceira.

Antes, Euclides descreve o chão, o clima e a seca, e depois a gente que vive ali.

Na seca, a caatinga é um mar de árvores sem folhas, de galhos secos e retorcidos.

Quando a chuva chega, tudo floresce de uma vez, e o livro diz, e o sertão é um paraíso.

Depois a seca volta.

Na segunda parte vem a frase mais conhecida do livro, o sertanejo é, antes de tudo, um forte.

Euclides mostra o vaqueiro que dispara pela caatinga atrás do boi.

Essa parte também usa a ciência racial do tempo dele, que hoje é recusada.

No meio dessa gente anda Antônio Conselheiro, um pregador que passa anos pelos sertões, de hábito azul e bastão na mão.

Em mil oitocentos e noventa e três ele chega a Canudos, uma velha fazenda de gado à beira do Vaza-Barris, e o lugar cresce depressa.

A guerra começa por pouco.

O Conselheiro compra madeira em Juazeiro para a igreja nova, e a madeira não é entregue.

Ele ameaça buscá-la à força.

Isso foi em outubro de mil oitocentos e noventa e seis, e em novembro sai a primeira tropa.

Cem soldados chegam a Uauá e, de madrugada, veem avançar uma multidão que vem rezando.

A tropa resiste, mas se retira.

A segunda, do major Febrônio de Brito, parte em janeiro de mil oitocentos e noventa e sete, pelo Cambaio, e também volta.

A terceira é a do coronel Moreira César, com quase mil e trezentos combatentes.

Em março, perto do arraial, ele grita, vamos almoçar em Canudos.

No ataque, é ferido no ventre, e morre na madrugada seguinte.

A tropa entra em pânico e foge, largando armas pelo caminho.

A quarta expedição, do general Artur Oscar, chega em junho, e fica presa diante de Canudos.

O livro diz que era a expedição que estava sitiada.

E, durante o cerco, morre Antônio Conselheiro.

No primeiro de outubro começa o bombardeio final.

E o livro diz, Canudos não se rendeu.

Caiu no dia cinco, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores.

Eram quatro, um velho, dois homens feitos e uma criança, diante de cinco mil soldados.

No dia seguinte desmancham as casas, cinco mil e duzentas.

Logo na abertura, Euclides já tinha avisado, aquela campanha foi, na significação integral da palavra, um crime.

Os Sertões está em domínio público, e você pode ler o livro inteiro de graça.

O resumo escrito, com os trechos citados e o endereço da obra, está no Net Love.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Euclides da Cunha. Os trechos citados vêm da transcrição da Wikisource em português, da Nota Preliminar e das partes A Terra, O Homem e A Luta, com a seção e o capítulo de cada um. A transcrição mistura a grafia de 1902 e uma grafia atualizada. As citações não trazem travessão. A nota de leitura foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.