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Brás, Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado: o resumo dos contos dos ítalo-paulistas novo

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2.544 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 7 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Antônio de Alcântara Machado. A obra é dele e está em domínio público no Brasil; o autor morreu em 1935. Os trechos citados vêm da edição da Biblioteca Básica Brasileira, da Fundação Darcy Ribeiro, de 2014 (veja A edição, no fim). Dois contos contam a morte de uma criança e um conta o assassinato de uma moça; o resumo conta essas mortes sem detalhe.

Um livro que se apresenta como jornal

Brás, Bexiga e Barra Funda são bairros de São Paulo, e o livro se apresenta como o jornal dos ítalo-brasileiros da cidade.

O livro já circulava em 1927: em outubro desse ano, a revista Verde publicou um artigo sobre ele.

Tem onze contos curtos, precedidos de um prefácio que o autor chama de artigo de fundo, o nome do texto de opinião que abre um jornal.

O artigo começa assim:

Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias.

Brás, Bexiga e Barra Funda, edição de 2014, página 7

O artigo lembra que o Brasil se formou da mistura de povos: os indígenas que os portugueses encontraram, os portugueses que chegaram nas caravelas e os africanos trazidos à força nos porões dos navios negreiros.

A escravidão foi crime e violência contra pessoas, amparada pelas leis da época.

Depois vieram os imigrantes, e dos filhos deles, nascidos em São Paulo, saíram os novos mamelucos, como o artigo os chama: o Gaetaninho, a Carmela, brasileiros e paulistas.

O próprio livro diz o que pretende ser:

É um jornal. Mais nada. Notícia. Só. Não tem partido nem ideal. Não comenta. Não discute. Não aprofunda.

Brás, Bexiga e Barra Funda, edição de 2014, página 9

O artigo termina dizendo que o livro não é uma sátira, e o livro é dedicado a ítalo-brasileiros conhecidos da época, entre eles Anita Malfatti, Victor Brecheret e Francisco Mignone.

Gaetaninho

Gaetaninho é um menino da Rua do Oriente, no Brás, e tem um sonho difícil de realizar: andar de carro.

Ali, explica o narrador, a gente pobre andava de bonde, e carro só aparecia em ocasiões especiais:

De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento.

Brás, Bexiga e Barra Funda, edição de 2014, página 11

Uma noite ele sonha que vai na boleia, ao lado do cocheiro, no enterro da Tia Filomena, de roupa marinheira e palhetinha nova.

A tia, quando sabe do sonho, tem um ataque de nervos, e o menino troca o morto da nova versão do sonho pelo acendedor da Companhia de Gás, Seu Rubino, que um dia lhe deu um cascudo.

Os irmãos aproveitam o sonho para apostar no jogo do bicho, e perdem.

Outro dia, Gaetaninho joga futebol na calçada com os amigos, de goleiro.

A bola vai parar no meio da rua, ele corre para buscá-la e é atropelado por um bonde, e morre.

No bonde vinha o pai dele.

No enterro, Gaetaninho vai no primeiro carro, mas não na boleia, como sonhou: vai no caixão.

Quem vai na boleia de um dos carros, com um terno vermelho, é o amigo Beppino.

Carmela

Carmela é costureira numa casa de modas do centro e sai do trabalho às dezoito e meia com a amiga Bianca.

O namorado dela é o Ângelo, entregador da Casa Clark, que espera na rua para acompanhá-la.

Um homem de óculos, num automóvel Buick, passa e repassa, e usa Bianca como mensageira para marcar um encontro com Carmela atrás da igreja de Santa Cecília.

Carmela diz que não é dessas, mas vai, e só aceita entrar no carro com a amiga junto.

O automóvel sobe a cidade e só para no Jardim América.

No domingo seguinte, Carmela avisa que Bianca não vai mais: foi o homem quem pediu.

Bianca fica sozinha, roendo as unhas, e conta tudo a outra amiga, a Ernestina.

Quando Ernestina pergunta pelo Ângelo, Bianca responde que o Ângelo é outra coisa: é para casar.

Tiro de Guerra nº 35

Aristodemo Guggiani aprendeu na escola pública da Barra Funda a cantar o hino nacional mais alto que todos.

Cresceu, trabalhou numa oficina, jogou futebol, namorou, e virou cobrador de ônibus da Companhia Autoviação Gabrielle D'Annunzio, na linha da Praça do Patriarca à Lapa.

Para escapar do sorteio militar, entra para o Tiro de Guerra nº 35, onde o sargento Aristóteles Camarão de Medeiros, cearense, fala da pátria com tanto fogo que Aristodemo vira patriota exaltado.

Num ensaio do hino para o Sete de Setembro, um colega de origem alemã, Guilherme Schwertz, ri em vez de cantar e diz que não canta porque não é brasileiro.

Aristodemo ofende a mãe dele, ouve a resposta e lhe dá uma bofetada.

A ordem do dia do sargento, que o conto reproduz, expulsa o alemão por ofender a mulher brasileira e o hino, suspende Aristodemo por um dia e, no mesmo papel, o aponta como exemplo de patriotismo.

A conselho do sargento, Aristodemo deixa a companhia de nome italiano e vai trabalhar na Sociedade de Transportes Rui Barbosa, na mesma linha.

Amor e sangue

Nicolino Fior d'Amore trabalha numa barbearia e anda transtornado porque Grazia não quer mais saber dele.

Na barbearia, um freguês comenta um crime da véspera, em que um rapaz matou uma moça, e chama o assassino de bandido; o barbeiro acha que o rapaz tinha razão.

Na rua, Nicolino implora a Grazia que volte, e ela o rejeita.

À saída das fábricas, ele a procura de novo, ela recusa outra vez, e ele a mata com um punhal.

Preso, diz ao delegado que matou porque estava louco.

Os jornais repetem a frase, e uma canção feita com ela vira sucesso no bairro.

O conto mostra, sem comentar, como o assassinato de uma moça vira drama de amor na boca das pessoas e até música.

O freguês da barbearia, no começo, já tinha dito: "Drama de amor coisa nenhuma."

A sociedade

Teresa Rita é filha do conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda.

A mãe não quer a filha casada com filho de italiano e diz isso com um apelido de desprezo, que o resumo não repete.

Adriano Melli, filho de um industrial italiano, passa de automóvel diante da casa, buzinando, e os dois se encontram num baile.

O pai de Adriano, o Cav. Uff. Salvatore Melli, vai à casa do conselheiro com uma proposta de negócio: o conselheiro entra com uns terrenos herdados em São Caetano, ao lado da fábrica dele, e os Melli entram com o capital, para lotear e vender aos operários.

Na saída, o industrial avisa que o gerente da sociedade será o filho, Adriano.

O conselheiro aceita, e a mulher dele já não se opõe.

Seis meses depois, as duas famílias anunciam o noivado, cada uma em sua participação.

No chá do noivado, na frente de todos, a mãe da noiva ouve lembrar o tempo em que comprava dos Melli cebolas, batatas e bacalhau, quase sempre fiado.

Lisetta

Lisetta é uma menina pobre que anda de bonde com a mãe, Dona Mariana.

No bonde, uma menina rica leva no colo um urso de pelúcia que mexe a cabeça e as patas.

Lisetta pede para segurar um pouquinho, a menina rica aperta o urso contra o peito, e a mãe de Lisetta, envergonhada, pede desculpas e belisca a filha.

Lisetta chora alto, diante do bonde inteiro, e em casa apanha.

Então chega da oficina o irmão Ugo, que pede à mãe que pare e dá a Lisetta um presente:

Pequerrucho. Pequerrucho e de lata. Do tamanho de um passarinho. Mas urso.

Brás, Bexiga e Barra Funda, edição de 2014, página 42

Quando outro irmão tenta tomar o brinquedo, Lisetta grita que o urso é dela, que o Ugo lhe deu, e se tranca no quarto.

Corinthians (2) vs. Palestra (1)

Miquelina está na arquibancada do Parque Antártica, torcendo pelo Palestra.

Ela namorava Biagio, jogador do Corinthians, largou-o por causa de Rocco, jogador do Palestra, e passou a torcer contra o antigo namorado.

O Corinthians faz o primeiro gol, o Palestra empata, e Miquelina manda recado a Rocco pelo irmão: que tire do jogo Biagio, o perigo do time adversário.

Perto do fim, Biagio avança com a bola, Rocco o derruba, e o juiz marca pênalti.

Biagio bate e faz o gol da vitória do Corinthians.

O estádio festeja, e o campo vai se esvaziando.

Miquelina murchou dentro de sua tristeza.

Brás, Bexiga e Barra Funda, edição de 2014, página 48

Na volta, no bonde cheio de torcedores contentes, um homem culpa Rocco pela derrota.

Ainda no bonde, ela pergunta à amiga Iolanda se vai ao baile da Sociedade, o baile que ela tinha deixado de frequentar porque Biagio ia lá.

Quando Iolanda pergunta pelo Biagio, Miquelina responde que não é da conta dela.

Notas biográficas do novo deputado

O coronel Juca, fazendeiro rico, e a mulher, Dona Nequinha, não têm filhos.

Uma carta da fazenda conta que morreu o compadre João Intaliano, que trabalhava lá, e que o afilhado do coronel, Gennarinho, de nove anos, ficou órfão.

O menino chega a São Paulo, malcriado e esperto, e o casal se encanta com ele.

O coronel decide que Gennarinho não é nome de gente e passa a chamá-lo de Januário.

Dona Nequinha decide que ele vai para um colégio de padres, e o coronel o leva ao Ginásio de São Bento.

Quando o reitor pergunta o nome completo, o menino olha para o coronel e responde Januário Peixoto de Faria, o sobrenome do padrinho.

O conto termina assim:

O coronel seguiu para o São Paulo Clube pensando em fazer testamento.

Brás, Bexiga e Barra Funda, edição de 2014, página 56

O título sugere o resto: o órfão vai virar herdeiro e, um dia, deputado.

O monstro de rodas

O conto se passa no velório e no enterro de uma menina, filha de Dona Nunzia.

A mãe está desesperada, e vizinhos e amigos passam a noite na casa.

Pelas conversas e pelo título, o leitor entende que a menina foi atropelada pelo automóvel de um rapaz rico: um dos homens espera que o jornal Fanfulla fale mal do moço, e outro responde que filho de rico pode matar sem medo naquela terra.

No enterro, quatro moças levam o caixão pelas ruas, e na volta a mãe chora olhando o retrato da filha publicado no jornal.

O pai tinha ido conversar com o advogado.

Armazém Progresso de São Paulo

Natale Pienotto tem um armazém no Bexiga, famoso pelo anúncio que promete um conto de réis a quem provar que falta alguma mercadoria.

O armazém começou com uma porta e agora tem quatro, à custa de trabalho de madrugada a madrugada, dele e da mulher, Dona Bianca.

Natale já calcula quanto pagaria pelas cebolas do confeiteiro vizinho, que está para falir.

Então a mulher ouve José Espiridião, funcionário da Comissão do Abastecimento, dizer no quintal que a cebola vai ficar cara, e corre a avisar o marido.

Natale paga cerveja a Espiridião, que lhe diz que a cebola vai valer três vezes mais e o aconselha a bancar o açambarcador.

Natale lhe oferece vantagens se ele ficar quieto e o negócio der certo.

Mais tarde, Natale entra no quarto assobiando, e a mulher percebe que ele conseguiu o que queria.

O conto não mostra a compra nem o lucro; termina com Dona Bianca de olhos fechados, se vendo no palacete mais caro da Avenida Paulista.

Nacionalidade

Tranquillo Zampinetti é barbeiro no Brás e lê para os fregueses, em voz alta, as vitórias italianas no jornal Fanfulla.

O desgosto dele é que os filhos, Lorenzo e Bruno, não querem falar italiano.

Sonha voltar para a Itália.

Um candidato a juiz de paz, também italiano, vem pedir o voto dele; Tranquillo diz que não é eleitor porque é italiano, mas o conto diz que ele "votou com outra caderneta", depois se alistou e passou a pedir votos para os outros.

Quando começa a guerra europeia, ele já é dono de seis prédios e cabo eleitoral do Partido Republicano Paulista.

A guerra o empolga no começo, mas ele desiste de ajudar a Itália quando a mulher protesta contra o empréstimo de guerra, e aos poucos perde o interesse.

Depois fecha a barbearia e vira sócio de uma perfumaria.

Já diz que o que falta ao Brasil é um bom governo, e cuida da construção da capela da família no cemitério do Araçá.

Bruno se forma em direito, e o livro termina com o primeiro trabalho dele:

O primeiro serviço profissional do Bruno foi requerer ao Exmo. Sr. Dr. Ministro da Justiça e Negócios Interiores do Brasil a naturalização de Tranquillo Zampinetti, cidadão italiano residente em São Paulo.

Brás, Bexiga e Barra Funda, edição de 2014, página 73

O que o livro mostra

Os contos são rápidos, com frases curtas, cortes de cena e muita fala de rua, misturando português e italiano.

O livro não faz sermão.

Mostra os filhos de imigrantes subindo na vida, casando com famílias tradicionais, entrando na política, mudando de nome e de nacionalidade.

Mostra também o preço disso: o preconceito contra os italianos, que o livro registra nas falas das personagens, a pobreza do Brás, a impunidade de quem tem dinheiro e as mortes que viram notícia.

A edição

O texto lido aqui é o da edição Brás, Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado, da coleção Biblioteca Básica Brasileira, Rio de Janeiro, Fundação Darcy Ribeiro, primeira edição (ISBN 978-85-63574-16-9; a ficha catalográfica é de 2013 e o colofão diz primeira impressão em 2014), com o livro nas páginas 1 a 73.

É o arquivo em PDF que a própria Fundação Darcy Ribeiro publica no site dela.

A grafia é a atual, pelo Acordo Ortográfico de 1990, e a edição traz em notas de rodapé a tradução das falas em italiano.

O prefácio de Cláudio Murilo Leal, que a edição traz, não é usado neste resumo.

Não achamos digitalizada a primeira edição; a data de 1927 vem do índice da revista Verde, no portal Revistas de Ideias e Cultura, que registra no número de outubro de 1927 um artigo sobre o livro.

Leia o livro inteiro, na edição de 2014 da Biblioteca Básica Brasileira, que a Fundação Darcy Ribeiro oferece em PDF na página do livro. É desse arquivo que saem os trechos citados aqui, com a grafia atual que a edição adota. O acervo da Net Love tem este resumo, não o livro inteiro. A obra está em domínio público no Brasil.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Macunaíma, O Cortiço, Triste Fim de Policarpo Quaresma, Vidas Secas e Missa do Galo.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Antônio de Alcântara Machado. Os trechos citados vêm da edição de 2014 da Fundação Darcy Ribeiro: os trechos em bloco saíram das páginas 7, 9, 11, 42, 48, 56 e 73, e as citações curtas entre aspas vêm também das páginas 31 e 70, todas copiadas do arquivo da edição. As citações não trazem travessão de diálogo nem os apelidos de desprezo que o livro registra.