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Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente: o resumo da farsa do asno e do cavalo novo

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1.778 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 8 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Gil Vicente. A peça é dele e está em domínio público. Lemos a peça no tomo III das Obras de Gil Vicente, impresso em Hamburgo em 1834, e cada citação em bloco traz a página e quem fala.

Uma farsa feita sobre um ditado

A edição de 1834 abre a peça com uma nota curta.

Ela diz que a farsa foi representada ao rei Dom João III, no Convento de Tomar, na "era do Senhor 1523".

Diz também por que a peça foi escrita.

Havia quem duvidasse que Gil Vicente fizesse sozinho as suas obras, e por isso lhe deram um tema para provar: um ditado popular.

O ditado diz, em resumo, que é melhor um asno que nos leve do que um cavalo que nos derrube.

A peça inteira conta esse ditado na vida de uma moça.

A farsa é curta, toda em versos, e não tem divisão em cenas.

As personagens são Inês Pereira, a mãe dela, Leonor Vaz, Pêro Marques, dois casamenteiros, Latão e Vidal, um escudeiro e o moço dele, Luzia e Fernando, que vêm à festa, e um ermitão.

Inês cansada de costurar

A peça começa com Inês sozinha em casa, lavrando, isto é, costurando e bordando, enquanto a mãe está na missa.

Ela reclama do trabalho, diz que vive presa naquela casa e que todas as outras moças saem.

Todas folgão, e eu não,
Todas vem e todas vão
Onde querem, senão eu.

Farsa de Inês Pereira, nas Obras de Gil Vicente, tomo III (Hamburgo, 1834), página 123, fala de Inês

A mãe volta, vê o serviço parado e a chama de preguiçosa.

Diz que com essa fama ela não vai casar.

Inês responde que quer, sim, casar, e quanto antes.

O primeiro pretendente: Pêro Marques

Chega Leonor Vaz, uma conhecida da família, muito agitada.

Ela conta que um clérigo a agarrou no caminho, perto da vinha dela, e que só se livrou quando apareceu um homem.

Depois muda de assunto: veio trazer um casamento.

O noivo é Pêro Marques, um lavrador rico.

Inês avisa logo o que procura: um marido discreto, palavra que na peça quer dizer inteligente e bom de conversa.

Porém não hei de casar
Senão com home' avisado:
Ainda que pobre pellado,
Seja discreto em fallar.

Farsa de Inês Pereira, nas Obras de Gil Vicente, tomo III (Hamburgo, 1834), página 128, fala de Inês

Pêro Marques mandou uma carta, e Inês a lê em voz alta, rindo do jeito simples dele.

Leonor e a mãe acham que ela não deve escolher tanto.

Pêro Marques chega, senta virado de costas para as mulheres e conta que é o herdeiro principal do pai.

Diz que trouxe peras para Inês dentro do capuz, mas quando vai procurar as peras sumiram.

Quando a mãe sai, os dois ficam sozinhos.

Pêro Marques não tenta nada e diz que, se já fosse casado, seria outra coisa.

Inês acha que ele é tolo demais e o manda embora: "Ide casar a Cascaes".

Ele promete não casar com outra até que ela queira.

Inês diz à mãe que só vai casar com homem discreto, que saiba tocar viola, mesmo que seja pobre e feio.

O segundo pretendente: o escudeiro

Chegam os casamenteiros Latão e Vidal, falando os dois ao mesmo tempo.

Contam que procuraram um marido do jeito que Inês pediu e acharam um escudeiro.

Antes de entrar, o escudeiro combina com o moço que ele finja e não ria se o patrão contar mentiras.

O moço reclama do calçado ruim e da falta de dinheiro.

O escudeiro entra e fala bonito.

Elogia Inês, diz que sabe ler e escrever e que serve a um marechal.

Pede a viola e canta.

O moço, enquanto isso, resmunga que vai embora e que passa fome naquele serviço.

Inês fica encantada.

A mãe tenta avisar que um oficial, um trabalhador de ofício, seria melhor para ela, mas Inês responde que a mãe casou do jeito que quis e que ela também vai casar do jeito dela.

Os dois se casam ali mesmo, com as palavras do casamento: o escudeiro se chama Brás da Mata.

A mãe sai para chamar os amigos para a festa.

O casamento vira prisão

Enquanto ela está fora, o escudeiro já se arrepende em voz alta.

Ele mesmo diz "Que casar he captiveiro".

A mãe volta com moças e rapazes, e há uma pequena festa com canto e dança.

Depois a mãe abençoa a filha, deixa a casa para o casal e vai embora.

Mal ela sai, o escudeiro proíbe Inês de cantar, de responder e de falar com quem quer que seja.

Vós não haveis de fallar
Com homem, nem mulher que seja;
Somente ir á Igreja
Não vos quero eu leixar.

Farsa de Inês Pereira, nas Obras de Gil Vicente, tomo III (Hamburgo, 1834), página 148, fala do Escudeiro

Ele diz que pregou as janelas e que ela vai ficar fechada em casa.

Quando Inês pergunta por que merece essa prisão, ele responde que foi ela quem procurou um homem discreto.

Depois parte para a guerra, para se fazer cavaleiro, e deixa o moço encarregado de trancar a porta por fora.

Sozinha, costurando de novo, Inês se arrepende.

Diz que pensava que a discrição era o que fazia um bom marido.

E jura que, se ficar livre, vai escolher um marido manso, que faça o que ela mandar.

A carta de Arzila

O moço traz uma carta do irmão de Inês, que está em Arzila, no norte da África.

A carta conta que o escudeiro, fugindo da batalha para a vila, foi morto a meia légua de Arzila por um pastor mouro.

Inês não chora.

Diz "Desatado he o nó", e que agora quer para si um marido muito manso.

O asno que leva

Leonor Vaz vem visitar a viúva, e a rubrica diz que Inês finge estar muito triste.

Leonor lembra Pêro Marques, que herdou uma fazenda de mil cruzados.

Desta vez Inês aceita, e explica a escolha com o ditado que deu origem à peça: "Asno que me leve quero".

Antes lebre que leão,
Antes lavrador que Nero.

Farsa de Inês Pereira, nas Obras de Gil Vicente, tomo III (Hamburgo, 1834), página 154, fala de Inês

Nero foi um imperador romano lembrado pela crueldade.

O casamento com Pêro Marques é feito às pressas, por Leonor.

Ele esquece as palavras e pergunta se não vão jogar trigo nos noivos.

Logo depois, Inês pergunta se pode sair, e ele diz que sim, que ela vai aonde quiser.

Ide onde quizerdes ir,
Vinde quando quizerdes vir,

Farsa de Inês Pereira, nas Obras de Gil Vicente, tomo III (Hamburgo, 1834), página 155, fala de Pêro Marques

O ermitão e a cantiga do fim

Aparece um ermitão, alguém que vive retirado numa ermida por devoção, pedindo esmola e falando em castelhano.

Ele se diz ermitão do deus Cupido, por um amor sem sorte.

Inês o reconhece como alguém que, quando ela era menina e aprendia a costurar na casa da tia, lhe mandava presentes.

Ele diz que virou ermitão por causa dela, e ela promete visitar a ermida dele.

Depois Inês pede a Pêro Marques que vão em romaria até lá.

Para atravessar o rio, ela sobe nas costas do marido, e ainda o faz carregar duas pedras, as lousas.

No caminho ela canta uma cantiga que zomba dele, e ele responde a cada estrofe com o mesmo verso: "Pois assi se fazem as cousas".

A peça termina com os dois indo embora assim, ela montada nas costas dele.

O texto não mostra o que acontece na ermida, mas a cantiga deixa claro de quem é a vez de mandar.

Uma nota de leitura

A peça ri de todos: da moça que só pensa em casar, da mãe, da vizinha, dos casamenteiros, do escudeiro que finge ser o que não é e do lavrador ingênuo.

Ela é do século XVI e pensa o casamento como um negócio de família, em que a mulher passa da casa da mãe para o mando do marido.

O escudeiro mostra o lado violento desse mando.

Quem reclama dele é a própria Inês, que lamenta a escolha e diz que homem que maltrata a mulher não é valente na guerra.

Os casamenteiros Latão e Vidal são chamados de judeus pela lista de personagens da edição, e a página não reproduz as falas deles.

A edição que lemos

A Farsa de Inês Pereira está no tomo III das Obras de Gil Vicente, impresso em Hamburgo, na Oficina Tipográfica de Langhoff, em 1834.

A folha de rosto diz que as obras foram corrigidas e emendadas por J. V. Barreto Feio e J. G. Monteiro.

Não é, portanto, a primeira edição das obras de Gil Vicente, de 1562, e sim uma edição do século XIX, com a grafia dessa edição.

A farsa vai das páginas 121 a 159.

Lemos a peça nas imagens do exemplar da Universidade de Toronto digitalizado no Internet Archive, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina dessas mesmas imagens.

Por que ler hoje

Porque a pergunta de Inês continua: o que vale mais num companheiro, a conversa bonita ou o jeito de tratar a gente em casa?

E porque a resposta da peça não é simples: no fim, Pêro carrega Inês nas costas, mas é ela quem decide o caminho.

Leia a peça, nas imagens do tomo III das Obras de Gil Vicente (Hamburgo, 1834), no exemplar da University of Toronto digitalizado no Internet Archive. A farsa vai das páginas 121 a 159. O acervo da Net Love tem este resumo, não a peça inteira. A peça está em domínio público.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Auto da Barca do Inferno, Os Lusíadas, Carta de Pero Vaz de Caminha e Memórias de um Sargento de Milícias.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui a peça. A obra é de Gil Vicente. Os trechos citados vêm das Obras de Gil Vicente, tomo III, Hamburgo, 1834: os trechos em bloco saíram das páginas 123, 128, 148, 154 e 155, e as frases curtas entre aspas na prosa vêm também das páginas 121, 133, 146, 152 e 159, todas copiadas da imagem da página e conferidas no texto reconhecido por máquina. A grafia da edição não foi mexida. As citações não trazem fala com travessão. A nota de leitura foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.