Net Love Net Love
Seções

Auto da Barca do Purgatório, de Gil Vicente: o resumo da barca da noite de Natal

novo
Tamanho
1.687 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 9 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Gil Vicente. A peça é dele e está em domínio público. Esta leitura usa o tomo I das Obras de Gil Vicente, impresso em Hamburgo em 1834, e cada citação em bloco traz a página e quem fala.

A segunda das três barcas

A edição de 1834 junta as três barcas de Gil Vicente como três cenas de uma mesma obra.

A primeira é a barca do Inferno, a segunda é esta, a do Purgatório, e a terceira é a da Glória.

A nota que abre esta segunda cena diz que ela trata de lavradores.

Diz também que foi representada à rainha Dona Leonor no hospital de Todos os Santos, em Lisboa, nas matinas do Natal, na era do Senhor de 1518.

As personagens são o Anjo, que é o barqueiro do céu, o Diabo, que é o barqueiro do inferno, um companheiro do Diabo, um Lavrador, Marta Gil, que é uma vendedora de feira, um Pastor, uma Moça pastora, um Menino, um Taful, que é um jogador, e três anjos.

A peça é em versos e não tem divisão em cenas.

Uma barca encalhada

Três anjos entram remando e cantando um romance sobre uma barca de grande alegria, guiada pelo Filho de Deus.

O Diabo chega ao seu porto e estranha não haver ninguém.

Diz que, quanto mais o mundo se aproxima do fim, pior fica a gente, e que vai precisar de um navio maior.

O Anjo chama quem quer ir ao Paraíso.

Diz que a vida é um sonho e a morte é o despertar, e que o rio que todos têm de passar é escuro.

E explica por que aquela noite é diferente.

E o batel dos damnados,
Porque nasceo hoje Christo,
Está, c'os remos quebrados,
Em sêcco.

Auto da Barca do Purgatório, nas Obras de Gil Vicente, tomo I (Hamburgo, 1834), página 248, fala do Anjo

O Diabo quer pôr a barca a navegar e a encontra em seco.

Espantado, diz que o rio gelou.

Pragueja contra tudo.

O companheiro dele chega e explica que aquela noite é uma desgraça para os dois, porque nela se cumpre a promessa feita a Abraão.

O Lavrador

O primeiro a chegar é um Lavrador, com o arado nas costas.

O Diabo o chama para a sua barca e o acusa de ter mudado os marcos das terras.

O Lavrador responde que outros mudaram os dele, e diz que trouxe o arado para ser reconhecido como lavrador honrado.

Depois ele fala ao Anjo da vida de quem trabalha a terra.

Nós somos vida das gentes,
E morte de nossas vidas;

Auto da Barca do Purgatório, nas Obras de Gil Vicente, tomo I (Hamburgo, 1834), página 252, fala do Lavrador

Conta que todos abusam do lavrador, que mal tem tempo de enxugar o suor, e que na igreja ele é castigado por qualquer coisa.

Quando o Anjo pergunta que bem ele fez, o Lavrador diz que ia à festa da ermida, dava esmola e rezava o credo.

O Diabo lembra que ele dava ao dízimo a pior lã e o cabrito mais fraco.

O Anjo decide que ele vai andar pela margem, purgando, até que Deus queira que o levem naquela barca.

O Lavrador aceita, reclama do peso do arado e lamenta o mundo, que o enganou numa vida tão curta.

Marta Gil

Chega Marta Gil, vendedora de feira.

O Diabo a chama pelo nome e diz que o que ela traz é dele.

Ela se defende dizendo que todo mundo busca o próprio lucro e que viveu num tempo de cobiça.

Conta os preços que cobrava, e o Diabo a acusa de pôr água no leite.

Diante do Anjo, ela confessa que traz pecados.

Reza à Virgem e lembra que aquela é a noite em que o Menino nasceu.

O Anjo responde que ali não é tempo de rezar, só de merecer.

Ela insiste que aquela noite é de misericórdia, e não de justiça, e que a barca do Diabo não leva ninguém naquele dia.

O Anjo reconhece que a oração vale muito.

Manda que ela purgue ao longo da ribeira, livre da condenação, mas com dor, como quem arde numa fogueira, até que Deus queira.

Marta Gil lamenta não ter sabido isso em vida.

Oh quem tornasse a nascer,
Por não peccar!

Auto da Barca do Purgatório, nas Obras de Gil Vicente, tomo I (Hamburgo, 1834), página 260, fala de Marta Gil

O Pastor

Chega um Pastor, que olha a barca do Diabo e pergunta se aquilo é um pelourinho ou uma forca.

Recusa o convite e responde ao Diabo com insultos.

O Diabo pergunta se ele aprendeu o Pai-Nosso inteiro.

O Pastor diz que aquela noite é dos pastores, que o Diabo está encalhado e que não pode levar ninguém numa festa assim.

Ao Anjo, ele confessa que sabia só um pedaço do Pai-Nosso e da Ave-Maria.

Diz que para um pastor basta crer em Deus, não roubar, trabalhar bem e agradecer ao Senhor, e que nunca matou nem roubou, a não ser umas uvas de vez em quando.

O Diabo o acusa de ter esperado uma moça no caminho e diz que ela fugiu gritando que ele queria forçá-la.

O Pastor responde que ele quis e ela não, porque fugiu, e alega que não houve pecado, já que nada se consumou.

Depois renuncia a Satanás.

O Anjo promete levá-lo depois que ele purgar ao longo do rio, num grande fogo.

O Pastor pergunta, com graça, por que precisa arder se não está com frio.

A Moça e o Menino

Vem uma Moça pastora, muito assustada, procurando o seu cão e chamando pela mãe.

Morreu moça e esperava chegar à velhice.

O Diabo a chama de rainha e tenta convencê-la a entrar, e ela o manda embora.

O Anjo pergunta se ela conhecia Deus.

Ela responde: "Muito bem, era redondo".

A resposta fala da hóstia, que ela via na missa, e ela diz que corria para a igreja assim que o sino tocava.

O Diabo a acusa de fofoca, de gulodice e de mentira, e ela responde que ainda era uma menina.

O Anjo diz que ela ainda não pode passar e a manda andar pela praia do purgatório, até que Deus ordene que a levem da pena para a glória.

Chega então um Menino de pouca idade, com medo do Diabo, que o provoca com balidos e insultos.

O Menino diz que a mãe ficou chorando porque ele veio embora.

O Anjo o recebe: diz que ele é do bando dos anjos para sempre, porque Deus lhe fez a mercê de morrer na idade da inocência.

Os anjos, cantando, põem o Menino na barca.

O Taful

Por último entra o Taful, o jogador.

O Diabo o recebe como sócio e amigo, e os dois jogam cartas.

O Diabo lembra que ele blasfemava contra Deus, a Virgem e os santos, inclusive naqueles dias de festa.

O Taful vai à barca do Anjo e pede piedade.

O Anjo o responsabiliza pelas blasfêmias.

Então o Taful lembra que Deus nasceu para salvar os pecadores e depois põe a culpa no planeta que o governava.

O Diabo diz que é mentira, que estrela nenhuma blasfema.

O Anjo dá a sentença: os jogadores que renegam a Deus não têm salvação.

A peça termina com os diabos levando o Taful, com uma cantiga desafinada, e os anjos levando o Menino, cantando.

Uma nota de leitura

O Auto da Barca do Purgatório é uma peça de fé católica, feita para a noite de Natal.

Ela mostra a ideia do purgatório: a alma que não está perdida passa por uma pena antes de chegar ao céu.

Quase todos os que chegam são gente pobre do campo, e a peça os mostra com humor.

O resumo conta a história como a peça conta, sem tomar partido.

Os insultos da época, que aparecem nas brigas com o Diabo, não foram citados.

A edição que lemos

O Auto da Barca do Purgatório está no tomo I das Obras de Gil Vicente, impresso em Hamburgo, na Oficina Tipográfica de Langhoff, em 1834.

A folha de rosto diz que as obras foram corrigidas e emendadas por J. V. Barreto Feio e J. G. Monteiro.

Não é a primeira edição das obras de Gil Vicente, de 1562, e sim uma edição do século XIX, com a grafia dessa edição.

O auto fica entre as obras de devoção e vai das páginas 245 a 273.

A peça foi lida nas imagens do exemplar da Universidade de Toronto digitalizado no Internet Archive, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina dessas mesmas imagens.

Por que ler hoje

Porque mostra o fim da vida pelos olhos de gente comum, com medo, com teimosia e com graça.

E porque o Lavrador ainda diz, em poucas palavras, o que é viver do trabalho pesado.

Leia a peça, nas imagens do tomo I das Obras de Gil Vicente (Hamburgo, 1834), no exemplar da University of Toronto digitalizado no Internet Archive. O auto vai das páginas 245 a 273. O acervo da Net Love tem este resumo, não a peça inteira. A peça está em domínio público.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Auto da Barca do Inferno, Auto da Alma, Auto da Índia e Farsa de Inês Pereira.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui a peça. A obra é de Gil Vicente. Os trechos citados vêm das Obras de Gil Vicente, tomo I, Hamburgo, 1834: os trechos em bloco saíram das páginas 248, 252 e 260, e as frases curtas entre aspas na prosa vêm também da página 268, todas copiadas da imagem da página e conferidas no texto reconhecido por máquina. A grafia da edição não foi mexida. As citações não trazem fala com travessão. A nota de leitura foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.