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Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente: o resumo da peça das duas barcas

Resumo escrito para o acervo Net Love em 30 de setembro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Gil Vicente. A peça é de Gil Vicente, que morreu há quase quinhentos anos, e está em domínio público: a proteção da Lei 9.610 de 1998, no artigo 41, é de setenta anos contados do primeiro dia do ano seguinte à morte. O texto que lemos e citamos é a transcrição da Wikisource em português, em onze páginas: uma com o argumento e a lista de personagens, e dez com as cenas, uma por passageiro ou grupo. Essa transcrição não declara de que edição impressa saiu, e a peça não tem ficha de edição na Wikisource. A data de 1517 é a da categoria em que a Wikisource classifica a peça; o texto da peça não traz data. A transcrição traz notas de vocabulário, que são da Wikisource e não de Gil Vicente, e as citações saem sem elas. A grafia é antiga e nós não a mexemos. As citações desta página aparecem exatamente como estão na fonte, e cada citação em bloco traz a cena, quem fala e as linhas. As figuras deste texto foram geradas por inteligência artificial em 2026.

Uma peça em versos, na beira de um rio

O Auto da Barca do Inferno é uma peça de teatro curta, com as falas todas em versos.

Não tem atos: é uma fila de almas chegando, uma depois da outra, ao mesmo cais.

A página de abertura da transcrição traz o argumento, e ele explica tudo em poucas linhas.

Quem acaba de morrer chega a um rio e tem de passar por ele em um de "dous batéis".

Um vai para o paraíso, com um anjo como arrais, o barqueiro, na proa.

O outro vai para o inferno, com "um arrais infernal e um companheiro".

Nas falas, o arrais do inferno é chamado de Diabo.

O mesmo argumento diz que a peça foi composta em atenção à "rainha Lianor" e representada, por ordem dela, diante do "rei Manuel".

Quase todos fazem o mesmo caminho: perguntam ao Diabo para onde vai a barca dele, não gostam da resposta e vão até a barca do Anjo.

O Judeu e o Enforcado não vão à barca do Anjo, e os Cavaleiros passam pela barca do Diabo sem entrar.

A primeira fala da peça já é o Diabo chamando os passageiros.

À barca, à barca, houlá!
Que temos gentil maré!

Auto da Barca do Inferno, cena “O Fidalgo”, fala do Diabo, linhas 1 a 2

Como citamos

A transcrição divide a peça em dez páginas, e aqui cada uma é uma cena, com o nome que a Wikisource dá: "O Fidalgo", "O Onzeneiro", e assim por diante.

Dentro de cada cena, contamos as linhas de verso a partir de 1, sem contar as rubricas, que são as indicações de cena, nem os nomes de quem fala.

Quando um verso é dividido entre duas personagens, a transcrição imprime cada parte numa linha, e cada parte conta como uma linha.

Em alguns lugares a transcrição imprime dois versos numa linha só, e contamos como ela imprime.

Por isso falamos em linhas, e não em versos: o número é o da transcrição, e não o de uma edição impressa.

Cada citação em bloco traz a cena, quem fala e as linhas, como em "O Fidalgo, fala do Diabo, linhas 1 a 2".

Quem vai em cada barca, como o texto mostra. À esquerda, a barca do Anjo, que vai para o paraíso: os Quatro Cavaleiros, que a rubrica final mostra embarcando. No cais, entre as duas, esperando: Joane, o Parvo, que ouve do Anjo que passará se quiser e é mandado esperar, e o texto não mostra ele embarcando. À direita, a barca do Diabo, que vai para o inferno, com quem embarca ou é mandado embarcar: o Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, que volta e pede a prancha, o Frade, Brísida Vaz, o Corregedor e o Procurador, e o Enforcado, mandado entrar, sem rubrica que o mostre a bordo. Atrás dela, a reboque: o Judeu, que o Diabo não aceita a bordo. No rodapé: Florença, a moça do Frade, não fala; o Frade pede ao Diabo que a receba.
Quem embarca, quem é mandado para o inferno e quem o texto deixa esperando. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

O Fidalgo

O primeiro a chegar é um fidalgo.

A rubrica diz que ele vem com um pajem, que carrega "um rabo mui comprido", a cauda da capa, e uma cadeira de espaldas.

O Diabo diz que a barca vai "Pera o inferno".

O Fidalgo conta que deixou na outra vida "quem reze sempre por mi", e o Diabo ri dele.

Diante da barca do Anjo, ele pede para entrar porque é "fidalgo de solar", de família antiga.

O Anjo responde que "Não se embarca tirania" naquele batel, e que ele não vem de maneira de entrar ali.

E manda o Fidalgo para a outra barca, com cadeira e tudo.

Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.

Auto da Barca do Inferno, cena “O Fidalgo”, fala do Anjo, linhas 95 a 98

O Fidalgo ainda pede para voltar e ver a dama que, diz ele, se mataria por ele, e depois a mulher.

O Diabo responde que a dama, enquanto ele morria, namorava outro, e que a mulher deu graças por ficar livre dele.

No fim, o Fidalgo entra: "Entremos, pois que assi é."

A cadeira fica de fora: a rubrica diz que o Diabo fala ao moço da cadeira, e a fala explica que "cousa que esteve na igreja" não embarca ali.

O Onzeneiro

Depois vem o onzeneiro, o que vivia da onzena, o empréstimo a juros.

Ele diz que morreu na safra, na hora de recolher, e que não lhe deixaram nem o dinheiro do barqueiro.

Diante da barca do Anjo, ouve que o bolsão dele "tomará todo o navio".

Ó onzena, como és fea
e filha de maldição!

Auto da Barca do Inferno, cena “O Onzeneiro”, fala do Anjo, linhas 42 a 43

Ele volta ao Diabo e pede para ir ao mundo buscar o dinheiro.

O Diabo manda que ele entre e diz que ele vai remar, e a rubrica mostra o Onzeneiro entrando no batel, onde encontra o Fidalgo.

Joane, o Parvo

A rubrica chama o terceiro de "Joane, o Parvo".

Perguntado de que morreu, ele responde com uma grosseria, e diante da barca do Diabo solta uma enxurrada de xingamentos.

Diante da barca do Anjo, a conversa é outra.

Tu passarás, se quiseres;
porque em todos teus fazeres
per malícia nom erraste.
Tua simpreza t'abaste
pera gozar dos prazeres.

Auto da Barca do Inferno, cena “O Parvo”, fala do Anjo, linhas 62 a 66

Logo em seguida, o Anjo pede que ele espere: "Espera entanto per i".

O texto não mostra o Parvo embarcando.

Ele continua por ali e volta a falar nas cenas do Frade, do Judeu e do Corregedor, sempre zombando.

O Sapateiro

O sapateiro chega "com seu avental e carregado de formas", as formas de fazer sapato, diz a rubrica.

Ele estranha o destino e diz que morreu "confessado e comungado".

O Diabo responde que ele morreu excomungado, que roubou o povo por trinta anos com o ofício, e que missa não livra quem rouba.

Ouvir missa, então roubar,
é caminho per'aqui.

Auto da Barca do Inferno, cena “O Sapateiro”, fala do Diabo, linhas 28 a 29

Diante da barca do Anjo, ouve que "A cárrega t'embaraça", e que o nome dele já está escrito "no caderno" do inferno.

O Sapateiro volta à barca dos danados e pede a prancha.

O Frade e Florença

O frade chega dançando, com uma moça pela mão, e com espada e broquel, um escudo pequeno, na outra.

O nome dela, Florença, aparece na fala dele.

O Diabo pergunta se a moça é dele, e ele diz que sim, e que no convento os outros fazem o mesmo.

Quando ouve para onde vai a barca, ele não entende.

Eu hei-de ser condenado?!...
Um padre tão namorado
e tanto dado à virtude?

Auto da Barca do Inferno, cena “O Frade”, fala do Frade, linhas 29 a 31

Tira o capelo, o capuz, mostra o capacete que usava por baixo, e ainda dá uma lição de esgrima.

Depois vai dançando até a barca do Anjo e pergunta se ali "Há lugar".

Quem responde é o Parvo, zombando dele.

Nesta transcrição, o Anjo não fala com o Frade.

O Frade volta, pede ao Diabo que receba Florença, "Agasalhai-me lá Florença", e a rubrica da cena seguinte começa com ele já embarcado.

Florença não diz nenhuma palavra na peça.

Brísida Vaz

A alcoviteira se chama Brísida Vaz.

A transcrição alterna "Brízida" e "Brísida"; neste resumo usamos "Brísida".

Ela conta o que traz: "três arcas de feitiços", "Três almários de mentir", furtos e as moças que vendia.

Diz que é uma mártir, pelos açoites que levou.

Diante da barca do Anjo, se gaba de ter criado meninas "pera os cónegos da Sé".

O Anjo não se deixa convencer.

Não cures de importunar,
que não podes vir aqui.

Auto da Barca do Inferno, cena “A Alcoviteira”, fala do Anjo, linhas 70 a 71

Ela volta à barca do inferno, e o Diabo a recebe.

A fila de chegada, na ordem da peça, com o tamanho de cada cena em linhas da transcrição. 1, O Fidalgo, 181 linhas. 2, O Onzeneiro, 68. 3, O Parvo, 70. 4, O Sapateiro, 61. 5, O Frade, 108. 6, A Alcoviteira, Brísida Vaz, 81. 7, O Judeu, 48. 8, O Corregedor e o Procurador, 150. 9, O Enforcado, 72. 10, Os Cavaleiros, 37. Em vermelho, as cenas em que o passageiro embarca ou é mandado para a barca do Diabo; em azul, o Parvo, mandado esperar; em dourado, os Cavaleiros, que embarcam com o Anjo; o Judeu, a reboque, em vermelho tracejado. No rodapé: 876 linhas, contadas na transcrição, sem rubricas e sem os nomes de quem fala.
As dez cenas, na ordem da peça, e o tamanho de cada uma. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

O Judeu

Um judeu chega à barca dos danados com um bode às costas.

Ele oferece tostões para passar com o bode, e o Diabo não o aceita a bordo.

O Parvo o acusa de várias coisas, e o Diabo decide: "Vós, Judeu, irês à toa", isto é, a reboque, levando o bode.

O Corregedor e o Procurador

O corregedor, um juiz, chega "carregado de feitos", que são processos, e com a vara da justiça na mão.

O procurador chega depois, carregado de livros.

Os dois se defendem em latim, e o Diabo responde em latim também.

O Diabo lembra as peitas, os subornos, que a mulher do corregedor recebia, e ele responde que isso era coisa dela.

O Corregedor conta que se confessou, mas escondeu do confessor tudo o que roubou.

Os dois vão à barca da glória, o Parvo zomba deles num latim inventado, e o Anjo dá a sentença.

A justiça divinal
vos manda vir carregados
porque vades embarcados
nesse batel infernal.

Auto da Barca do Inferno, cena “O Corregedor e o Procurador”, fala do Anjo, linhas 122 a 125

Dentro da barca dos condenados, o Corregedor encontra Brísida Vaz, que a rubrica diz que ele conhecia, e ela lembra que vivia sentenciada.

O Enforcado

O enforcado chega contando o que ouviu de um certo Garcia Moniz.

Segundo ele, Moniz disse que morrer na forca era sorte, e que os que morrem assim "são livres de Satanás".

Disse até que ele iria "logo ò Paraíso", sem falar em ribeira nem em barqueiro.

O próprio Enforcado diz que, na hora, a pregação pouco o consolava.

Com o baraço no pescoço,
mui mal presta a pregação...

Auto da Barca do Inferno, cena “O Enforcado”, fala do Enforcado, linhas 35 a 36

O Diabo manda que ele entre, "que ao Inferno hás-de ir!", e a cena termina com o Diabo dando ordens para tirar o batel, que está em seco.

Antes disso, o Diabo ainda quer desenganá-lo: diz que ele se salvaria se tivesse tomado o que lhe disseram, e que não quis tomar.

A transcrição não traz rubrica mostrando o Enforcado a bordo, nem ele indo à barca do Anjo.

Os Quatro Cavaleiros

No fim chegam quatro cavaleiros, cantando.

A rubrica diz que cada um traz a Cruz de Cristo, e que morreram "em poder dos mouros", pela fé.

A cantiga deles começa com "À barca, à barca segura".

Eles passam diante da barca do Diabo sem entrar, e um deles responde que quem morre por Cristo não vai naquela barca.

Na barca do Anjo, são esperados.

Ó cavaleiros de Deus,
a vós estou esperando,
que morrestes pelejando
por Cristo, Senhor dos Céus!

Auto da Barca do Inferno, cena “Os Cavaleiros”, fala do Anjo, linhas 30 a 33

A última rubrica da peça é curta: "E assi embarcam."

O que cada passageiro traz ao cais, segundo as rubricas e as falas. O Fidalgo: o rabo comprido da capa e uma cadeira de espaldas, que o pajem carrega. O Onzeneiro: o bolsão, que o Anjo diz que tomaria o navio. O Sapateiro: o avental e as formas. O Frade: a moça pela mão, espada, broquel e um capacete debaixo do capelo. Brísida Vaz: arcas de feitiços, almários de mentir e as moças que vendia. O Judeu: um bode às costas. O Corregedor: os feitos, que são processos, e a vara. O Procurador: livros. Os Cavaleiros: a Cruz de Cristo, espadas e escudos. O Parvo e o Enforcado: as rubricas não falam de carga.
O que cada um traz ao cais, segundo as rubricas e as falas. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

Uma nota de leitura

A peça julga cada alma com a régua da fé católica do seu tempo, e é uma sátira: o fidalgo, o agiota, o frade, o juiz e o procurador são condenados pelo que fizeram em vida e no ofício.

A cena do Judeu repete o antissemitismo de época, e por isso a página não reproduz os insultos dela.

Os mouros aparecem só como os inimigos em cujo poder os cavaleiros morreram, e a peça trata essa morte como passagem para a barca do Anjo.

Por que ler hoje

Porque vários passageiros chegam com objetos ligados à vida que tiveram, a cadeira, o bolsão, as formas, os processos, e a peça faz dessa carga parte da cena.

E porque o único que ouve do Anjo, antes dos cavaleiros, que pode passar é o Parvo, porque não errou por malícia.

Leia a peça inteira, na transcrição publicada pela Wikisource em português, com as dez cenas em páginas separadas. É dessa mesma transcrição que saem os trechos citados aqui. O texto integral da peça não está no acervo da Net Love, só este resumo. A peça está em domínio público.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Os Lusíadas, O Alienista, Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Primo Basílio.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui a peça. A obra é de Gil Vicente. Os trechos citados vêm da transcrição da Wikisource em português, que não declara a edição impressa de origem, e saem sem as notas de vocabulário da Wikisource. Os trechos em bloco saíram das cenas O Fidalgo, O Onzeneiro, O Parvo, O Sapateiro, O Frade, A Alcoviteira, O Corregedor e o Procurador, O Enforcado e Os Cavaleiros, e as frases curtas entre aspas na prosa também foram conferidas, uma a uma, na peça. A contagem de linhas é nossa, feita na transcrição. A grafia da fonte não foi mexida. As citações não trazem fala com travessão. A nota de leitura foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.