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Auto da Alma, de Gil Vicente: o resumo do auto da estalagem das almas novo

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1.644 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 8 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Gil Vicente. A peça é dele e está em domínio público. Lemos a peça no tomo I das Obras de Gil Vicente, impresso em Hamburgo em 1834, e cada citação em bloco traz a página e quem fala.

Um auto para a Semana Santa

A edição de 1834 abre a peça com uma nota curta.

Ela diz que o auto foi feito para a rainha Dona Leonor e representado ao rei Dom Manuel, irmão dela, em Lisboa, nos paços da Ribeira, numa noite de Endoenças, a Quinta-feira Santa, na "era do Senhor 1508".

A edição põe a peça entre as obras de devoção, ao lado dos autos religiosos.

As personagens são a Alma, o Anjo Custódio, que é o anjo da guarda dela, a Igreja, quatro santos doutores, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Jerônimo e São Tomás, e dois diabos.

A peça é em versos e não tem divisão em cenas.

A ideia da estalagem

Antes das falas vem um argumento, que explica a imagem do auto.

Assim como nos caminhos há estalagens para os viajantes cansados, nesta vida também há uma estalagem para as almas que vão a caminho de Deus.

O argumento diz: "Esta estalajadeira das almas he a Madre Sancta Igreja".

A mesa é o altar, e a comida são as insígnias da Paixão, os sinais do sofrimento de Cristo.

A peça começa com a Igreja e os quatro doutores à mesa, e Santo Agostinho explica essa mesma ideia em versos.

A Alma e o Anjo

Entra o Anjo com a Alma.

Ele lembra a ela que foi criada preciosa e que a pátria dela é o céu.

Planta sois e caminheira,
Que ainda que estais, vos is
Donde viestes.

Auto da Alma, nas Obras de Gil Vicente, tomo I (Hamburgo, 1834), página 187, fala do Anjo

Vos is quer dizer vós ides, isto é, ides embora: a Alma está de passagem e volta para o lugar de onde veio.

A Alma pede que o Anjo a guarde, porque tem medo de cair.

Ele responde que vai ajudar, mas que ela também precisa resistir, e lembra que Deus lhe deu livre-arbítrio.

Pede que ela não olhe para trás e não acredite em Satanás.

A primeira tentação

O Anjo se adianta, e chega o Diabo.

Ele chama a Alma de "Alva pomba" e pergunta por que ela vai com tanta pressa.

Diz que ela ainda está em idade de crescer e que há tempo para tudo.

Vivei á vossa vontade,
E havei prazer.

Auto da Alma, nas Obras de Gil Vicente, tomo I (Hamburgo, 1834), página 190, fala do Diabo

A Alma pede que ele a deixe ir.

O Diabo insiste que todos descansam neste mundo e que ela não deve nada a ninguém.

As roupas e as joias

O Anjo volta e a chama para seguir, mas a Alma já está cansada.

Quando ele se adianta outra vez, o Diabo volta com presentes.

Veste a Alma com um brial, um vestido rico, e lhe dá chapins de Valença, sapatos de sola alta.

Diz que agora ela parece mulher, e que está bonita como a rosa.

O Anjo encontra a Alma passeando enfeitada e pergunta o que ela faz ali.

Faço o que vejo fazer
Pelo mundo.

Auto da Alma, nas Obras de Gil Vicente, tomo I (Hamburgo, 1834), página 193, fala da Alma

O Anjo diz que ela está se perdendo, que quanto mais anda para a frente mais volta para trás, e pede que deixe os chapins.

A Alma pede a mão dele e promete ir como puder.

Mas o Diabo volta mais uma vez.

Diz que ainda é cedo para pensar na morte, que haverá tempo para se arrepender, e lhe dá um colar de ouro, dez anéis, um espelho e brincos.

A Alma se admira de como está preciosa.

O Anjo lamenta que ela ponha "terra sobre terra", ouro que vai ficar na sepultura, e ela confessa que já não consegue andar de cansada.

Ele a anima: a estalagem está perto, e quem recebe ali, a hospedeira, é a Madre Igreja, com os seus doutores.

A última conversa com o Diabo

O Diabo tenta uma última vez.

Diz que não precisa ter pressa, que na hora da morte tudo se perdoa, e lembra uns papéis de terras herdadas que ela deveria disputar na justiça.

Desta vez a Alma o manda calar e pede que a deixe chegar aonde possa se curar.

A chegada à estalagem

O Anjo mostra a pousada.

A Igreja vê a Alma chegar cansada e carregada e pergunta quem ela é.

A Alma responde com uma longa confissão: diz que foi criada bela e que se perdeu pelas vaidades, que se reconhece culpada e que pede abrigo.

A Igreja manda que ela se sente e pede aos quatro doutores que vão à cozinha preparar a ceia.

Enquanto isso, a rubrica diz que Satanás anda de um lado para o outro, aflito, e chega um segundo diabo.

O primeiro conta que perdeu a alma que já tinha quase ganho, levada pelo que ele chama de o "da espada", isto é, o Anjo.

O segundo conta que perdeu outra do mesmo jeito e se conforma em ganhar outro dia.

O primeiro não aceita e diz que vai voltar àquela Alma quando ela sair da Igreja.

A Alma, sentada à mesa, manda os tentadores embora.

A ceia

Os doutores voltam com quatro bacias de cozinha cobertas, cantando um hino em latim.

Santo Agostinho diz que a convidada precisa se afastar das coisas do mundo, e a Igreja pede que ele benza a mesa.

Vem então uma oração longa sobre as dores da Virgem Maria diante do filho crucificado, que a edição dá a Santo Agostinho.

Santo Ambrósio e São Jerônimo dizem uma estrofe cada um.

Para lavar as mãos, Agostinho diz que a Alma vai se lavar nas lágrimas da própria culpa.

A toalha é a Verônica, o pano com o rosto de Cristo, e a Igreja e os doutores se ajoelham diante dela.

Depois vêm os pratos, e a rubrica diz o que é cada um.

O primeiro são os açoites, o segundo é a coroa de espinhos, o terceiro são os cravos da cruz.

Cada um é mostrado à Alma e adorado pelos doutores de joelhos, com cantos em latim.

Então o Anjo pede que a Alma deixe aqueles enfeites, e a rubrica diz que ela tira o vestido e as joias que o inimigo lhe deu.

Agostinho aprova.

O da terra á terra:
Agora ireis despejada
Pola estrada,

Auto da Alma, nas Obras de Gil Vicente, tomo I (Hamburgo, 1834), página 212, fala de Agostinho

Despejada, ali, quer dizer livre da carga.

O quarto prato é um crucifixo, que São Jerônimo apresenta à Alma.

A Alma pergunta, diante dele, com que forças pode louvar um Deus que sofre por ela.

Agostinho diz que a fruta daquela ceia vai ser buscada no pomar onde o Redentor está sepultado.

A peça termina com todos, a Alma junto, indo adorar o sepulcro, cantando o Te Deum.

Uma nota de leitura

O Auto da Alma é uma alegoria: cada personagem é uma ideia.

A Alma é qualquer pessoa, o Anjo é a guarda que Deus lhe deu, o Diabo é a tentação, e a estalagem é a Igreja.

A peça é um texto de fé católica, escrito para a Semana Santa, e o resumo conta a história como a peça a conta, sem tomar partido.

Numa estrofe da ceia, Santo Ambrósio chama Jerusalém de homicida pela morte de Cristo, uma leitura religiosa daquele tempo, e a página não traz bloco dela.

A edição que lemos

O Auto da Alma está no tomo I das Obras de Gil Vicente, impresso em Hamburgo, na Oficina Tipográfica de Langhoff, em 1834.

A folha de rosto diz que as obras foram corrigidas e emendadas por J. V. Barreto Feio e J. G. Monteiro.

Não é a primeira edição das obras de Gil Vicente, de 1562, e sim uma edição do século XIX, com a grafia dessa edição.

O auto vai das páginas 184 a 213.

Lemos a peça nas imagens do exemplar da Universidade de Toronto digitalizado no Internet Archive, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina dessas mesmas imagens.

Por que ler hoje

Porque mostra, com imagens simples, uma pessoa que se cansa no caminho e aceita tudo o que a distrai.

E porque a cena das roupas e das joias continua fácil de entender: o que pesa na estrada é o que a gente carrega.

Leia a peça, nas imagens do tomo I das Obras de Gil Vicente (Hamburgo, 1834), no exemplar da University of Toronto digitalizado no Internet Archive. O auto vai das páginas 184 a 213. O acervo da Net Love tem este resumo, não a peça inteira. A peça está em domínio público.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Auto da Barca do Inferno, Farsa de Inês Pereira, Os Lusíadas e Carta de Pero Vaz de Caminha.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui a peça. A obra é de Gil Vicente. Os trechos citados vêm das Obras de Gil Vicente, tomo I, Hamburgo, 1834: os trechos em bloco saíram das páginas 187, 190, 193 e 212, e as frases curtas entre aspas na prosa vêm também das páginas 184, 185, 196 e 203, todas copiadas da imagem da página e conferidas no texto reconhecido por máquina. A grafia da edição não foi mexida. As citações não trazem fala com travessão. A nota de leitura foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.