Carta de Pero Vaz de Caminha: o resumo da carta de 1500, na versão impressa em 1817 novo
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Resumo escrito para o acervo Net Love em 7 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Pero Vaz de Caminha. A carta é dele, de 1500, e está em domínio público. Não resumimos aqui o manuscrito: resumimos a versão impressa em 1817 na Corografia Brazilica, a primeira publicação da carta, que deixa passagens de fora.
O que é a carta
Pero Vaz de Caminha viajava na armada de Pedro Álvares Cabral, que saiu de Lisboa para a Índia em março de 1500.
Segundo a Corografia Brazilica, o livro de 1817 que imprimiu a carta, ia como um dos escrivães da feitoria que os portugueses queriam abrir em Calicute.
No caminho, a armada chegou a uma costa que ele não conhecia, e ele escreveu ao rei Dom Manuel uma carta longa, datada de Porto Seguro, 1º de maio de 1500.
Logo no começo ele avisa que os outros capitães também escrevem, que vai contar como souber, e que não vai pôr na carta nada além do que viu e do que lhe pareceu.
Deixa a navegação para os pilotos.
O resto é um diário: o que aconteceu em cada dia, quem foi à terra, o que se trocou, o que ele achou.
É, por isso, um documento do olhar de um escrivão português.
Tudo chega ao leitor pelos olhos, pelas palavras e pelos interesses de quem escreve ao rei.
Não conhecemos diretamente a versão das pessoas que viviam naquela terra: as falas e as ações delas chegam pelo relato dele, que não as entendia.
A viagem e a terra avistada
A armada saiu de Belém, perto de Lisboa, numa segunda-feira, 9 de março.
Passou pelas Canárias e pelas ilhas de Cabo Verde, onde uma das naus, a de Vasco de Ataíde, se perdeu da frota sem tempo forte que explicasse.
Em 21 de abril os marinheiros viram ervas no mar, sinal de terra perto.
No dia seguinte apareceram aves, e à tarde avistaram um monte alto e redondo, com serras mais baixas e muito arvoredo.
O capitão deu ao monte o nome de Monte Pascoal, e à terra o nome de Terra de Vera Cruz.
O primeiro encontro
No outro dia as naus ancoraram diante da boca de um rio.
Na praia andavam homens, primeiro sete ou oito, depois dezoito ou vinte, com arcos e setas.
Nicolau Coelho foi no batel até lá, fez sinal para que pousassem os arcos, e eles pousaram.
O mar quebrava forte na costa e não houve fala que se entendesse.
Trocaram presentes: um barrete vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro de um lado, um cocar de penas e um fio de continhas brancas do outro.
Com vento forte, a frota correu a costa procurando abrigo e achou, cerca de dez léguas adiante, um recife com um porto seguro por dentro.
Ali o piloto Afonso Lopes tomou numa canoa dois rapazes da terra e os levou, já de noite, à nau do capitão.
O escrivão descreve os dois com atenção: a cor, os cabelos rapados, o lábio de baixo furado com um osso branco atravessado, o cocar de penas amarelas preso ao cabelo de um deles.
O capitão os recebeu sentado, com um colar de ouro ao pescoço.
Um dos rapazes olhou para o colar e acenou para a terra, e depois fez o mesmo com um castiçal de prata.
Os portugueses entenderam que havia ouro e prata na terra. Pouco depois, contando um gesto parecido com umas contas de rosário, o próprio escrivão admite que tomavam os gestos assim porque era o que desejavam.
Os dois provaram pouco da comida que lhes deram e não gostaram do vinho.
Dormiram ali mesmo, sobre o tapete, e o capitão mandou pôr almofadas sob a cabeça deles e um manto por cima.
Os dias no porto
No sábado as naus entraram no porto.
Os dois rapazes foram levados de volta à praia com camisas novas, carapuças vermelhas e outros presentes.
Com eles foi Afonso Ribeiro, um degradado (condenado a cumprir pena longe do reino), para ficar entre os da terra e aprender o modo de viver deles.
Na praia havia uns duzentos homens; os que voltavam correram para longe, e o degradado foi mandado de volta às naus mais de uma vez, porque não o deixavam ficar.
No domingo de Pascoela, o capitão mandou armar um altar num ilhéu da baía, e frei Henrique disse a missa e pregou.
Na praia, a mesma gente da véspera olhava, sentada; depois da missa, muitos se levantaram, tocaram uma buzina, saltaram e dançaram.
Naquele dia os capitães se reuniram.
Decidiram mandar a notícia ao rei pelo navio dos mantimentos.
E decidiram não levar ninguém da terra à força: quem é levado assim, disseram, costuma responder que há de tudo o que lhe perguntam, e mais valia deixar ali dois degradados para aprender a língua.
À tarde o capitão desceu à praia com todos.
Diogo Dias, que o escrivão chama de homem gracioso e alegre, atravessou o rio com um gaiteiro e dançou com os da terra, de mãos dadas, e eles riam e folgavam.
Mas logo se esquivavam e se afastavam, e o escrivão, que não entende por quê, conclui com uma palavra dura que eram gente "bestial" e de pouco saber.
Na mesma página ele supõe que não tinham casas, e diz o que ainda não sabia:
nem nós aimda ataa gora nom vimos nhuumas casas, nem maneyra delas.
Carta de Pero Vaz de Caminha, na Corografia Brazilica (1817), página 25
A carta corrige essa suposição ainda naquele dia.
O degradado Afonso Ribeiro, mandado outra vez com eles, volta à tarde e conta que viu entre eles choupanas de rama verde.
Na segunda-feira, uns vinte ou trinta portugueses foram com eles até onde estavam os outros. Depois o capitão mandou os degradados e Diogo Dias andarem entre eles, e mandou que os degradados passassem a noite lá. Voltaram ainda à tarde, porque os da terra não quiseram que nenhum ficasse, e contaram que, a légua e meia dali, havia uma aldeia com nove ou dez casas de madeira cobertas de palha, cada uma tão comprida quanto a nau capitânia, onde dormiam em redes, com fogo por baixo para se aquecerem, e onde moravam trinta ou quarenta pessoas em cada casa.
Na terça-feira os portugueses foram buscar lenha e lavar roupa.
Uns duzentos homens vieram sem arcos, ajudaram a carregar a lenha para os batéis e lutaram brincando com os marinheiros.
Os carpinteiros faziam uma grande cruz de madeira, e muitos vinham olhar, mais pelas ferramentas de ferro, segundo o escrivão, do que pela cruz: cortavam a madeira com cunhas de pedra presas num pau.
Era ja ha conversaçam deles comnosco tanta, que casy nos torvavam aho que aviamos de fazer.
Carta de Pero Vaz de Caminha, na Corografia Brazilica (1817), página 28
O escrivão conta dos papagaios, das pombas e das árvores grandes, e descreve os arcos e as setas.
Na quarta e na quinta-feira o trabalho foi esvaziar o navio dos mantimentos, buscar mais lenha e água.
Dois rapazes da terra dormiram numa das naus, e outros comeram com os portugueses; alguns provaram o vinho.
Num desses dias, o capitão e os seus beijaram de joelhos a cruz encostada a uma árvore, para que os da terra vissem, e os que estavam ali fizeram o mesmo.
A missa da cruz e o que o escrivão conclui
Na sexta-feira, 1º de maio, a cruz foi levada em procissão e fincada perto do rio, com as armas do rei pregadas nela.
Houve outra missa.
Cinquenta ou sessenta dos da terra assistiram, ajoelhando e levantando as mãos quando os portugueses ajoelhavam e levantavam as mãos.
No fim, frei Henrique pôs no pescoço de cada um uma cruzinha de estanho, umas quarenta ou cinquenta.
É aqui que a carta diz com mais clareza o que o escrivão queria ver.
Como os da terra repetiam os gestos, ele interpreta isso como sinal de que não tinham, segundo lhe parecia, idolatria nem adoração, e de que só lhes faltava entender a língua para serem cristãos.
Diz ao rei que eles não lavravam a terra nem criavam animais, que comiam inhame, sementes e frutos, e que eram fortes e bem dispostos.
E escreve que o melhor fruto que se poderia tirar da terra seria salvar aquela gente, e que, mesmo que não houvesse mais nada, ela serviria de pouso para a viagem a Calicute.
Ficavam na terra os dois degradados e, segundo ele supõe, também dois grumetes que fugiram de noite da nau e não voltaram.
A terra e o pedido do fim
A costa que viram, calcula ele, teria vinte ou vinte e cinco léguas, com barreiras vermelhas e brancas, terra chã e arvoredo de ponta a ponta.
Diz que não puderam saber se havia ouro, prata ou outro metal.
Acha os ares bons, frios e temperados como os de entre Douro e Minho, e as águas muitas.
A carta termina com um pedido pessoal.
Pero Vaz de Caminha pede ao rei, como favor, que mande voltar da ilha de São Tomé seu genro, que a edição de 1817 chama Jorje do Soyro.
E assina, em Porto Seguro, na sexta-feira, 1º de maio de 1500.
Como ler a carta hoje
A carta não conta a chegada da armada como a contariam as pessoas que estavam na praia.
Não diz o nome de ninguém da terra, nem a língua que falavam, nem o que pensaram daqueles navios.
O escrivão diz mais de uma vez que não havia fala nem entendimento, e o que ele afirma sobre eles vem de gestos que interpretou, às vezes, como admite, do jeito que os portugueses queriam.
O que a carta permite examinar é o olhar de quem chegava: a atenção ao ouro e à prata, a cruz e as armas do rei fincadas na praia, a ideia de converter aquela gente, a terra vista como pouso para a viagem à Índia.
Por isso ela é lida ao mesmo tempo como relato de quem estava lá e como testemunho de um lado só.
A versão de 1817
A carta ficou mais de trezentos anos sem ser impressa.
A primeira edição saiu no tomo I da Corografia Brazilica, impresso no Rio de Janeiro, na Impressão Régia, em 1817.
A folha de rosto não traz o nome do autor; diz só que a obra foi composta por um presbítero secular do Grão-Priorado do Crato. O catálogo da biblioteca que guarda o exemplar lido aqui a atribui ao padre Manuel Aires de Casal.
A carta vai nas notas de rodapé da Introdução, das páginas 12 a 34.
Na nota que a abre, o autor conta que recebeu uma cópia da carta no Arquivo da Real Marinha do Rio de Janeiro; no fim, diz que o original está no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa.
Ele acrescentou pequenas notas para explicar palavras antigas, e a grafia é a da edição ("huum", "Capitam", "seetas").
Essa versão não é a carta inteira.
Posta ao lado da transcrição do manuscrito que a Wikisource publica junto com as imagens das folhas, ainda não revista, a versão de 1817 deixa de fora, sem marcar o corte, ao menos três passagens em que o escrivão descreve o corpo das mulheres que viu na praia.
Este resumo segue a versão de 1817 e não conta essas passagens.
Lemos a carta nas imagens do exemplar da John Carter Brown Library digitalizado no Internet Archive, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina dessas mesmas imagens.
Leia a carta, na versão de 1817, nas imagens do exemplar da Corografia Brazilica digitalizado pela John Carter Brown Library no Internet Archive. A carta começa na nota da página 12 e vai até a página 34. O acervo da Net Love tem este resumo, não a carta inteira. A carta está em domínio público.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Os Lusíadas, Auto da Barca do Inferno, Os Sertões e Memórias de um Sargento de Milícias.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui a carta. A carta é de Pero Vaz de Caminha, de 1500. Os trechos citados vêm da versão impressa na Corografia Brazilica, Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1817: os trechos em bloco saíram das páginas 25 e 28, copiados da imagem da página e conferidos no texto reconhecido por máquina.
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