Auto da Índia, de Gil Vicente: o resumo da farsa da mulher que fica em Lisboa
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Resumo escrito para o acervo Net Love em 9 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Gil Vicente. A peça é dele e está em domínio público. Esta leitura usa o tomo III das Obras de Gil Vicente, impresso em Hamburgo em 1834, e cada citação em bloco traz a página e quem fala.
Uma farsa do tempo das armadas
A edição de 1834 abre a peça com uma nota curta.
Ela diz que a farsa foi feita em Almada e representada à rainha Dona Leonor, na era de 1519.
A mesma nota conta a ideia da peça: o marido de uma mulher já estava embarcado para a Índia quando vieram dizer a ela que ele não ia mais, e ela chora de pesar.
As personagens são cinco: a Ama, que é a dona da casa, a Moça, que é a criada, um Castelhano, um homem chamado Lemos e o Marido.
A peça é em versos, sem divisão em cenas, e o Castelhano fala sempre em castelhano.
O choro da Ama
A peça começa com a Ama chorando.
A Moça pensa que é saudade do patrão, que vai partir com a armada.
A Ama responde que não: ouviu dizer que ele não vai mais, e é isso que a aflige.
Ela conta que passou dias amassando pão e fazendo biscoito para a viagem dele, e agora dizem que ele fica.
A Moça sai para saber se é verdade.
Sozinha, a Ama reza a Santo Antônio para que o marido não volte para ela.
E diz que vai dormir para acordar com boas notícias.
A Moça volta cantando e pede uma recompensa pela boa notícia: a armada já saiu da foz do rio.
A Ama lhe dá uma touca de seda.
O que ficou na casa
A Ama se queixa de que o marido a deixou sem um tostão.
A Moça lembra que ele deixou trigo, azeite, mel e panos para três anos.
A Ama ri da ideia de esperar.
Diz que uma mulher moça e bonita não deve envelhecer à espera do vento, enquanto o marido vai para Calicute, tão longe.
O Castelhano
Logo sobe a escada um Castelhano.
Ele diz que se perdeu de amor desde o dia em que a viu e que anda como um corpo sem alma.
Fala muito e com exagero: diz que Deus fez a Índia só para que ele pudesse ficar com ela e conta valentias de espada.
A Ama ri, mas marca um encontro.
Ele deve voltar às nove horas e jogar uma pedrinha na janela do quintal, para que ela abra a porta.
A Moça avisa que aquele homem é um fanfarrão e não merece confiança.
A Ama responde que já prometeu.
Lemos
A Ama se lembra de outro admirador antigo, um homem chamado Lemos, que passava as noites rondando a rua dela.
Ele aparece pouco depois e sobe.
A Ama diz a Lemos que, desde que o marido partiu, nenhum homem entrou ali, e a Moça comenta à parte que aquilo é mentira.
Então cai uma pedrinha na janela.
É o Castelhano, na hora marcada.
A Ama diz a Lemos que são meninos brincando e o manda esperar na cozinha.
Ao Castelhano, que pede da porta que ela cumpra a promessa, ela diz que espere, porque o irmão dela está em casa.
Quando Lemos pergunta quem falava, ela responde que é o Castelhano vendedor de vinagre, que veio cobrar uma dívida.
Uma noite de confusão
Lemos manda a Moça comprar a ceia na ribeira: cerejas, pão e vinho.
Enquanto isso, ele se põe a cantar, e a Ama se preocupa com o que a vizinhança vai dizer.
Lá fora, o Castelhano perde a paciência.
A Ama finge ouvir o corregedor chegando e esconde Lemos em outro cômodo.
Da janela, diz ao Castelhano que volte outro dia.
Ele se enfurece, jura que vai queimar a casa e a cidade, e ela responde que aquilo são só bravatas.
Quando começa a amanhecer, a Ama despede Lemos com palavras de carinho.
Quantas artes, quantas manhas,
Auto da Índia, nas Obras de Gil Vicente, tomo III (Hamburgo, 1834), página 37, fala da Moça
Que sabe fazer minha ama!
A volta do navio
A Moça faz as contas: a armada partiu num domingo de madrugada e já faz tempo, então a volta não deve demorar.
A Ama acha que não pode ser e diz que vai fiar e cantar, segura de que nunca mais o verá.
Mas a Moça chega correndo com a notícia.
O navio em que o patrão foi, a Garça, está entrando pelo Restelo, e quem o viu diz que ele vem gordo.
A Ama manda quebrar tigelas e panelas, para que ele não ache o que comer, fechar as janelas, dar a carne aos gatos e desfazer a cama.
O Marido sobe, e a Ama o recebe com espanto, dizendo que ele voltou queimado de sol.
Ele conta a tempestade que pegaram no mar, e ela conta as missas e as romarias que prometeu por ele.
Diz que quase não comia de saudade e que vivia trancada.
Sem consentir que vizinha
Auto da Índia, nas Obras de Gil Vicente, tomo III (Hamburgo, 1834), página 41, fala da Ama
Entrasse por huma braza,
Por honestidade minha.
Ela pergunta se ele se lembrava dela, lá onde há mulheres tão bonitas.
O Marido conta a viagem: foram até o que ele chama de rio de Meca, lutaram e roubaram, passaram por mortes, brigas e perigos, e voltaram destroçados.
Diz que traria muito dinheiro, se não fosse o capitão.
A Ama ri dessa conta, diz que não quer outra riqueza além de vê-lo vivo e agradece a Deus por isso.
Ela pergunta se a nau vem carregada, e o Marido responde que vem toda enfeitada de bandeiras.
Ela pede para ir vê-la, e a farsa acaba com os dois saindo para ver a nau.
Uma nota de leitura
O Auto da Índia é uma farsa curta, feita para fazer rir.
Ela nasce de um fato do tempo dela: as armadas que saíam de Lisboa para a Índia e deixavam as casas sem os maridos por anos.
A graça está na distância entre o que a Ama faz e o que ela diz, e quem mostra essa distância ao público é a Moça, com os comentários à parte.
O resumo conta a peça como ela é, sem julgar ninguém.
As falas duras da Ama contra a criada e as palavras da época que hoje ofendem não foram citadas.
A edição que lemos
O Auto da Índia está no tomo III das Obras de Gil Vicente, impresso em Hamburgo, na Oficina Tipográfica de Langhoff, em 1834.
A folha de rosto diz que as obras foram corrigidas e emendadas por J. V. Barreto Feio e J. G. Monteiro.
Não é a primeira edição das obras de Gil Vicente, de 1562, e sim uma edição do século XIX, com a grafia dessa edição.
A farsa fica no livro das farsas e vai das páginas 24 a 42.
A peça foi lida nas imagens do exemplar da Universidade de Toronto digitalizado no Internet Archive, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina dessas mesmas imagens.
Por que ler hoje
Porque é uma comédia rápida, de poucos personagens, que ainda funciona no palco.
E porque mostra, pelo lado de quem ficou em terra, o que as grandes viagens custavam às famílias.
Leia a peça, nas imagens do tomo III das Obras de Gil Vicente (Hamburgo, 1834), no exemplar da University of Toronto digitalizado no Internet Archive. A farsa vai das páginas 24 a 42. O acervo da Net Love tem este resumo, não a peça inteira. A peça está em domínio público.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Auto da Barca do Purgatório, Farsa de Inês Pereira, Auto da Barca do Inferno e Auto da Alma.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui a peça. A obra é de Gil Vicente. Os trechos citados vêm das Obras de Gil Vicente, tomo III, Hamburgo, 1834: os trechos em bloco saíram das páginas 37 e 41, todos copiados da imagem da página e conferidos no texto reconhecido por máquina. A grafia da edição não foi mexida. As citações não trazem fala com travessão. A nota de leitura foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.
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