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Memorial de Aires, de Machado de Assis: o resumo do diário de um diplomata aposentado novo

Resumo escrito para o acervo Net Love em 30 de setembro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Machado de Assis. A obra é dele, saiu em 1908, pouco antes da morte do autor, no mesmo ano, e está em domínio público no Brasil desde 1º de janeiro de 1979, setenta anos contados do primeiro dia do ano seguinte à morte, como manda o artigo 41 da Lei 9.610 de 1998. O texto que lemos e citamos é a transcrição da Wikisource em português, uma página para a advertência e uma para cada entrada do diário. A Wikisource dá como edição de referência a de H. Garnier, Rio de Janeiro, 1908, e diz que o texto foi obtido no site da obra de Machado de Assis da Universidade Federal de Santa Catarina. A grafia da transcrição não é a de 1908, e nós não mexemos nela. O livro é um diário, e por isso cada trecho citado aqui leva a data da entrada de onde saiu, e não um número de capítulo. No Brasil desse diário ainda havia pessoas escravizadas até maio de 1888; a escravidão foi crime e violência contra pessoas, amparada pelas leis da época. As figuras deste texto foram geradas por inteligência artificial em 2026.

Um diário que outro publica

O livro abre com uma advertência assinada "M. de A.".

Quem assina diz que o Memorial é do Conselheiro Aires, o mesmo de que fala o prefácio de Esaú e Jacó.

Diz também que publica só a parte de uns dois anos, 1888 e 1889, e sem algumas passagens:

Vai como estava, mas desbastada e estreita, conservando só o que liga o mesmo assunto.

Memorial de Aires, advertência

Daí em diante, quem fala é Aires, em primeira pessoa, entrada por entrada.

O conselheiro e a irmã

Aires foi diplomata por mais de trinta anos e viveu a maior parte desse tempo fora do Brasil.

Na primeira entrada, ele conta que faz um ano que voltou de vez, aposentado, para a casa dele no Catete:

Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.

Memorial de Aires, 9 de janeiro de 1888

Ele é viúvo, e a mulher dele está enterrada em Viena.

A irmã, a quem ele chama de "mana Rita", também é viúva e mora em Andaraí.

Rita pede que ele vá com ela ao cemitério de São João Batista, ao jazigo da família, para agradecer a volta dele.

A viúva no cemitério

No cemitério, Aires vê uma moça de preto rezando junto de outra sepultura.

Rita diz quem é: a viúva Noronha, filha do Barão de Santa-Pia, fazendeiro da Paraíba do Sul, e viúva de um médico.

Na volta, Rita conta um pouco da vida da moça, e Aires comenta que ela pode casar outra vez.

Rita diz que não, e faz com ele uma aposta de brincadeira:

Meti o caso à bulha; ela, depois de aceitar uma ordem de idéias mais alegre, convidou-me a ver se a viúva Noronha casava comigo; apostava que não.

Memorial de Aires, 10 de janeiro de 1888

Aires lembra que tem sessenta e dois anos, e lê para a irmã o prólogo do Fausto, de Goethe, com a aposta entre Deus e o Diabo.

Dias depois, ele fica sabendo o nome da viúva: Fidélia.

O marido dela, Eduardo Noronha, morreu em Lisboa, e ela mandou trazer o corpo para o Rio de Janeiro.

O pai dela e o sogro eram inimigos políticos, chefes de partido na Paraíba do Sul.

Segundo Rita, os dois se casaram contra a vontade dos dois pais, e amaldiçoados por ambos.

O casal Aguiar

Rita fala a Aires de um casal amigo dela e da viúva, que ele já conhecia de uma vinda anterior ao Rio: Aguiar, gerente de banco, e a mulher, D. Carmo.

Eles moram numa casa velha na Praia do Flamengo e fazem bodas de prata no fim de janeiro.

Aires vai à festa e escreve no dia seguinte:

Senti que os anos tinham ali reforçado e apurado a natureza, e que as duas pessoas eram, ao cabo, uma só e única.

Memorial de Aires, 25 de janeiro de 1888

Na festa, Aires percebe que o casal tem uma tristeza só: não tiveram filhos.

Fidélia está lá, e D. Carmo a trata quase como filha.

Olhando para ela, Aires repete para si um verso de Shelley, em inglês, que diz que ele não pode dar o que os homens chamam amor.

O Desembargador Campos, tio de Fidélia e irmão do barão, conta a Aires a história do casal.

Os dois quiseram muito um filho:

Ambos queriam um filho, um só que fosse, ela ainda mais que ele.

Memorial de Aires, 4 de fevereiro de 1888

Tiveram um afilhado, Tristão, filho de uma amiga, Luísa Guimarães, e criado em boa parte na casa deles.

Pouco depois dos treze anos, Tristão foi com os pais à Europa, contra o pedido dos padrinhos, e não voltou.

Estudou medicina em Lisboa, e as cartas foram rareando até acabar.

Quem é quem no Memorial de Aires. O Conselheiro Aires, diplomata aposentado, com sessenta e dois anos no começo do diário, viúvo, que mora no Catete e escreve o diário. Rita, a irmã dele, a mana Rita, viúva, que mora em Andaraí e faz a aposta na volta do cemitério. Fidélia, a viúva Noronha, filha do Barão de Santa-Pia, viúva de Eduardo Noronha, médico, que morreu em Lisboa. Aguiar, gerente de banco, e D. Carmo, a mulher dele, que fazem bodas de prata em janeiro de 1888 e moram no Flamengo, sem filhos. Tristão, o afilhado deles, filho de Luísa Guimarães, médico formado em Lisboa e português naturalizado. O Desembargador Campos, tio de Fidélia e irmão do barão. O Barão de Santa-Pia, fazendeiro da Paraíba do Sul, que morre em junho de 1888.
Quem é quem no Memorial de Aires. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

A abolição, como o diário registra

No fim de março, o barão chega da fazenda ao Rio.

Em abril, Aires fica sabendo por que ele veio:

O motivo da vinda do barão é consultar o desembargador sobre a alforria coletiva e imediata dos escravos de Santa-Pia.

Memorial de Aires, 10 de abril de 1888

Segundo o que Aires ouviu, o barão é contra a abolição por lei e liberta os escravizados da fazenda por conta própria, para deixar provado que considera o ato do governo uma espoliação.

Campos lembra que isso prejudica a filha, herdeira dele, e o barão responde que o que é dele é só dele enquanto está vivo.

Os dois irmãos redigem juntos a carta de alforria.

No dia 7 de maio, Aires anota que o projeto de abolição foi apresentado à Câmara.

No dia 13, escreve:

Enfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação final do Senado e da sanção da Regente.

Memorial de Aires, 13 de maio de 1888

Ele estava na Rua do Ouvidor, recebe o convite de um conhecido para ir no cortejo até o paço e recusa.

Na mesma entrada, ele diz que as leis podem ser queimadas, mas que a instituição não se apaga da História.

Na noite seguinte, na primeira reunião da casa Aguiar, o casal está feliz por outro motivo: uma carta de Tristão, depois de anos de silêncio.

Aires escreve:

Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.

Memorial de Aires, 14 de maio de 1888, meia-noite

A morte do barão e a volta de Tristão

Em junho, o barão adoece, e Fidélia vai com o tio para a fazenda.

Quando D. Carmo se oferece para ir com ela, Fidélia agradece, recusa e a chama de "mãezinha".

No dia 20 de junho chega o telegrama: o Barão de Santa-Pia morreu.

Fidélia fica com a fazenda.

Quase ao mesmo tempo, Tristão escreve anunciando que vem ao Brasil.

Em 18 de julho, Aires registra que Tristão chegou a Pernambuco, e em 25 de julho, que ele já está no Rio.

Aires fica sabendo que ele se naturalizou português e que gosta muito de política.

Tristão toca piano, e Fidélia, que tinha deixado de tocar desde a viuvez, volta a tocar.

Aires acompanha tudo de perto, e diz ao próprio diário o que não diz a mais ninguém.

Mais de uma vez, ele se dirige ao caderno como "papel amigo".

Fidélia e Tristão

No começo de 1889, Aires registra:

Enfim, amam-se. A viúva fugiu-lhe e fugiu a si mesma, enquanto pôde, mas já não pode.

Memorial de Aires, 2 de janeiro de 1889

Em fevereiro, o casamento é anunciado entre as duas famílias.

No dia 25 de fevereiro, Rita reconhece que Aires tinha razão, mas lembra que a aposta era sobre a viúva casar com ele.

Em março, a data é marcada: 15 de maio.

Tristão pede a Aires que seja padrinho do casamento, e ele aceita.

Fidélia pensava em vender a fazenda, e os libertos, como o livro chama os antigos escravizados, tinham pedido a ela que não vendesse.

Em abril, ela desiste da venda.

Por uma sugestão de Tristão, que Fidélia contou a D. Carmo e D. Carmo contou a Aires, ela decide dar Santa-Pia aos libertos.

Lá se foi Santa-Pia para os libertos que a receberão provavelmente com danças e com lágrimas

Memorial de Aires, 28 de abril de 1889

O casamento é na Matriz da Glória, celebrado pelo Padre Bessa, o mesmo que batizou Tristão.

Enfim, casados. Venho agora da Prainha, aonde os fui embarcar para Petrópolis.

Memorial de Aires, 15 de maio de 1889

No almoço chega de Lisboa um telegrama dos pais de Tristão: "Deus abençoe".

Santa-Pia, da alforria à doação, com as datas das entradas. 10 de abril de 1888: Aires registra que o barão veio ao Rio consultar o irmão sobre a alforria coletiva e imediata dos escravizados da fazenda, e que os dois redigiram a carta. 7 de maio: o projeto de abolição chega à Câmara. 13 de maio: a lei, com a votação final do Senado e a sanção da Regente. 20 de junho: o barão morre, e Fidélia fica com a fazenda. 15 de abril de 1889: a fazenda já não se vende. 28 de abril de 1889: Santa-Pia passa para os libertos.
Santa-Pia, da alforria de 1888 à doação de 1889. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

A partida

Fidélia propõe uma viagem à Europa, primeiro a Lisboa, para ver a mãe de Tristão.

Ela e Tristão pedem a D. Carmo que vá junto, e D. Carmo diz que está cansada e que não iria sem o marido.

Na véspera do embarque, Tristão mostra a Aires, em segredo, um telegrama do pai que anuncia uma eleição para dali a oito dias.

Tristão diz que queria os padrinhos no navio, para contar a eles a bordo o que conviesse.

No dia do embarque, D. Carmo vai só até o cais:

D. Carmo foi só até o cais; estava sucumbida, e enxugava os olhos.

Memorial de Aires, 18 de julho de 1889

Em agosto chegam cartas de Lisboa.

Por uma carta a Campos, eles sabem que Tristão estava eleito deputado quando desembarcou.

Aires e Campos contam a notícia aos Aguiares, e Aires inventa uma parte para amaciar o golpe.

No caminho de volta, Aires e Campos falam da "orfandade às avessas" em que os dois velhos ficavam.

A última entrada

A última entrada não tem data.

Aires passa pela casa do Flamengo, entra no jardim e vê Aguiar e D. Carmo sentados ao fundo, à entrada do saguão, olhando um para o outro.

Ele não se aproxima e recua pé ante pé até a rua.

O livro termina assim:

Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.

Memorial de Aires, entrada sem data, depois de 30 de agosto de 1889

O livro não diz se Tristão e Fidélia voltaram, nem o que Aires fez depois.

O diário, de 1888 a 1889. 9 de janeiro de 1888: um ano da volta de Aires. 10 de janeiro: o cemitério e, na volta, a aposta de Rita. 24 de janeiro: as bodas de prata dos Aguiares, contadas no dia 25. 13 de maio: a abolição. 20 de junho: morre o barão. 25 de julho: Tristão já está no Rio. 2 de janeiro de 1889: Fidélia e Tristão se amam. 15 de maio de 1889: o casamento, na Matriz da Glória. 18 de julho de 1889: o embarque para a Europa. 29 de agosto: a notícia de que Tristão foi eleito deputado. A última entrada, sem data: os dois velhos sentados à entrada do saguão da casa do Flamengo.
As datas do diário, de janeiro de 1888 à última entrada. Infográfico desenhado para este texto e gerado por inteligência artificial em 2026. Não é imagem de acervo nem de domínio público.

Uma nota sobre 1888

O diário atravessa a abolição, mas é escrito por um homem que diz nunca ter feito campanha por ela.

As pessoas libertas de Santa-Pia quase não aparecem no livro, e o que se sabe delas chega por terceiros.

A fazenda passa para elas por decisão de Fidélia, e Aires pergunta se elas vão conseguir fazer a obra comum, mas diz que não faz questão de ver isso resolvido.

Registramos isso como está no texto.

Como citamos

Cada entrada do diário tem por título uma data, como "9 de janeiro".

Algumas têm só a hora, como "Cinco horas da tarde", e aqui contam como parte do mesmo dia da entrada anterior.

Outras não têm data, e a última delas é a do fim do livro: nesse caso dizemos "sem data" e qual é a entrada datada que vem antes.

A transcrição usa a grafia de antes do acordo de 1990, com "idéia" e "freqüentes", e escreve Aires, onde a folha de rosto de 1908 traz Ayres.

Leia o romance inteiro, na transcrição publicada pela Wikisource em português, com a advertência e cada entrada do diário em páginas separadas. A Wikisource dá como edição de referência a de H. Garnier, de 1908, e diz que o texto veio do site da obra de Machado de Assis da Universidade Federal de Santa Catarina. É dessa mesma transcrição que saem os trechos citados aqui, com a grafia dela. O Memorial de Aires não está no acervo da Net Love. A obra está em domínio público no Brasil desde 1979.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, O Alienista e Senhora.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Machado de Assis. Os trechos citados vêm da transcrição da Wikisource em português, feita sobre a edição de H. Garnier de 1908, e levam a data da entrada do diário de onde saíram, de 9 de janeiro de 1888 até a última entrada, sem data, de 1889. A grafia da fonte não foi mexida. As citações não trazem travessão de diálogo. A nota sobre 1888 foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.