Cantiga de Esponsais, de Machado de Assis: o resumo do conto do mestre de música que não consegue terminar o seu canto
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Resumo escrito para o acervo Net Love em 9 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Machado de Assis. A obra é dele e está em domínio público no Brasil. O texto que lemos e citamos é o do livro Histórias sem Data, da casa B. L. Garnier, de 1884, nas páginas 49 a 56, e o trecho citado foi copiado da imagem da página impressa. O conto tem um homem escravizado entre os personagens; o resumo diz homem escravizado onde o livro usa as palavras da época.
A missa no Carmo
O narrador pede à leitora que se imagine em 1813, na igreja do Carmo, no Rio de Janeiro, numa daquelas festas antigas com missa cantada.
Ele não quer mostrar os padres, o sermão nem as moças, e sim a cabeça branca do velho que rege a orquestra.
É Romão Pires, de uns sessenta anos, nascido no Valongo ou por ali, bom músico e bom homem, que todos chamam de mestre Romão.
Dizer que mestre Romão regia a missa era um chamariz, como seria anos depois anunciar um ator famoso no teatro.
Fora da música ele é circunspecto, anda devagar, olha para o chão e tem um riso triste.
Diante da orquestra, ao contrário, a vida se espalha pelo corpo inteiro dele.
A missa daquele dia nem é dele, é de José Maurício, mas ele a rege com o mesmo amor que daria a uma obra sua.
A casa e a tristeza
Acabada a festa, o mestre beija a mão dos padres na sacristia, aceita um lugar à mesa do jantar e volta, calado, para a casa da rua da Mãe dos Homens.
Lá mora com Pai José, um homem idoso escravizado, que o narrador diz ser a verdadeira mãe dele.
A casa não é rica nem alegre: é sombria, sem mulher, sem passarinho e sem flor.
O que há de mais alegre é um cravo, onde o mestre às vezes toca, e ao lado alguns papéis de música, nenhum composto por ele.
Mestre Romão, diz o narrador, poderia ser um grande compositor.
Parece que ha duas sortes de vocação, as que tem lingua e as que a não tem.
Cantiga de Esponsais, em Histórias sem Data, página 51
As vocações com língua se realizam.
As sem língua vivem numa luta constante entre o impulso de dentro e a falta de um meio de dizê-lo aos outros.
A de mestre Romão é desta segunda sorte: ele traz dentro de si óperas, missas e harmonias novas que não consegue pôr no papel.
É essa a única causa da tristeza dele, embora a vizinhança imagine outras, como doença, falta de dinheiro ou um desgosto antigo.
O canto de 1779
Há uma peça que ele gostaria de terminar ao menos: um canto esponsalício, isto é, um canto de casamento.
Começou a escrevê-lo três dias depois de casar, em 1779, quando sentiu em si alguma coisa parecida com inspiração.
A mulher tinha vinte e um anos, não era nem muito nem pouco bonita, era muito simpática e o amava tanto quanto ele a ela.
A inspiração, porém, se debatia dentro dele como um pássaro preso que não acha a porta da gaiola.
Ele escreveu algumas notas, uma folha e nada mais, e tentou de novo muitas vezes durante o casamento.
A mulher morreu com vinte e três anos.
Quando ela morreu, ele releu aquelas primeiras notas e ficou ainda mais triste por não ter fixado no papel a felicidade que se fora.
A doença
Ao entrar em casa depois da festa, mestre Romão diz a Pai José que se sente adoentado.
O remédio da botica não adianta; o narrador explica que o mestre sofre do coração, de uma doença grave e crônica.
Os vizinhos passam a falar só disso, e os conhecidos vêm visitá-lo dizendo que não é nada, cada um com a sua explicação.
Ele sorri, mas pensa consigo que é o fim.
Cinco dias depois da festa, o médico o encontra realmente mal e recomenda que não pense em música.
A palavra música dá ao mestre uma ideia.
Sozinho com Pai José, ele abre a gaveta onde guarda desde 1779 o canto começado e decide terminá-lo agora, de qualquer jeito, para deixar um pouco de si na terra.
Imagina até que em 1880 talvez alguém toque a peça e conte a história de um certo mestre Romão.
A última tentativa
O começo do canto parava numa nota lá, a última que ele tinha escrito.
Mestre Romão manda levar o cravo para a sala dos fundos, porque precisa de ar.
Pela janela, vê nos fundos de outra casa um casal casado havia oito dias, debruçado na janela, de braços passados nos ombros e mãos dadas.
Ele sorri com tristeza e diz que aqueles chegam e ele sai, mas que ao menos vai compor o canto para que os dois o toquem.
Senta-se ao cravo, toca as notas antigas, chega ao lá, e não consegue passar dele.
Repete o começo, lembra a mulher e os primeiros tempos, olha de novo para o casal, que agora se olha nos olhos, e as notas seguintes não vêm.
Desesperado, ele rasga o papel.
O fim
Nesse momento, a moça da janela, absorvida no olhar do marido, começa a cantarolar sem pensar uma coisa que ninguém tinha cantado antes.
Na cantiga dela, um certo lá vem seguido de uma bela frase musical, exatamente a que mestre Romão procurou durante anos sem achar.
O mestre a ouve com tristeza, balança a cabeça e morre naquela noite.
Por que o conto é lido assim
Nesta leitura, o conto é sobre a distância entre sentir e saber dizer.
Mestre Romão tem a música dentro de si, mas falta a ele a língua para tirá-la de lá.
A frase que ele procurou durante anos nasce de graça, sem esforço, na boca de uma moça recém-casada que nem sabe que está compondo.
A frase que faltava ao canto de casamento, que ele não conseguiu escrever no tempo da própria felicidade, surge no fim no cantarolar de uma recém-casada.
A edição
O conto está no livro Histórias sem Data, de Machado de Assis, Rio de Janeiro, B. L. Garnier, Livreiro-Editor, 1884, ano impresso na folha de rosto, com o título impresso Cantiga de esponsaes.
Lemos o conto nas imagens dessa edição digitalizadas pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (USP) e publicadas no Wikimedia Commons.
O trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina dessas mesmas imagens.
A transcrição da Wikisource que acompanha essas imagens está marcada como não revisada, por isso não citamos dela.
A nota da Wikisource diz que o conto saiu antes na revista A Estação, em 1883; não conferimos essa primeira publicação.
Leia o conto inteiro, na Wikisource em português, que mostra a transcrição ao lado das imagens da edição de Histórias sem Data. A transcrição de lá mantém a grafia da época e ainda não foi revista; os trechos citados aqui foram copiados das imagens das páginas, com a grafia da edição. O acervo da Net Love tem este resumo, não o conto inteiro. A obra está em domínio público no Brasil.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Missa do Galo, A Igreja do Diabo, Noite de Almirante, O Espelho e A Cartomante.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o conto. A obra é de Machado de Assis. O trecho citado vem de Histórias sem Data, B. L. Garnier, 1884: o trecho em bloco saiu da página 51, copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina. As citações em bloco não trazem travessão de diálogo.
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