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Canaã, de Graça Aranha: o resumo do romance dos dois imigrantes alemães no Espírito Santo

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1.800 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 9 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Graça Aranha. A obra é dele e está em domínio público. Os trechos citados saem da edição de H. Garnier, impressa em Paris no fim de 1901, nas imagens de um exemplar da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP. O romance tem personagens com discursos racistas, a morte de um recém-nascido, uma prisão injusta e cenas em que os protagonistas pensam em morrer; o resumo diz isso sem descrever.

O livro

Canaã se passa no Espírito Santo, no fim do século XIX, entre a cidade do Porto do Cachoeiro, as colônias de imigrantes alemães e as terras do rio Doce.

São doze capítulos, sem título.

O livro alterna duas coisas: longas conversas de ideias entre os dois imigrantes e a história de Maria Perutz, uma moça pobre da colônia.

Neste resumo, os discursos racistas que o livro põe na boca de algumas personagens são das personagens, não deste resumo.

O resumo diz quem fala e o que defende, sem repetir os termos e sem concordar com eles.

A chegada

O romance começa com o imigrante a cavalo:

Milkau cavalgava mollemente o cançado cavallo que alugára para ir do Queimado á cidade do Porto do Cachoeiro, no Espirito-Santo.

Canaã, na edição de H. Garnier (Rio de Janeiro, impressa em Paris em 1901), página 1, capítulo I

No caminho, Milkau passa por uma fazenda em ruínas e conversa com um homem idoso que tinha vivido escravizado ali e que fala do passado com saudade.

No Porto do Cachoeiro, uma cidade em que quase todos são alemães, ele se hospeda na casa comercial de Roberto Schultz e conhece outro recém-chegado, Lentz, filho de um general alemão.

O agrimensor Felicíssimo, que mede e distribui as terras aos colonos, mostra a região aos dois.

Força e amor

Os dois imigrantes passam a noite conversando, e a conversa ocupa boa parte dos capítulos I e II.

Lentz defende a força.

Para ele, o mais forte deve dominar, e só os povos que ele considera superiores, como os alemães, poderiam criar civilização no Brasil; a mistura dos povos que formam o país, para ele, levaria à decadência.

Milkau responde que ninguém sabe dizer o que separa um povo do outro, que a civilização passa de povo em povo ao longo da história e se renova quando eles se misturam, e que o caminho da humanidade vai da força para o amor e a solidariedade.

Cada um conta a própria vida: Milkau fala da juventude na Alemanha e de uma crise em que pensou em morrer e escolheu viver para os outros; Lentz fala de um amor proibido e da fuga para o Brasil.

As terras do rio Doce

Os dois seguem com o agrimensor até as terras do rio Doce, passando por Santa Teresa.

À noite, no acampamento, os trabalhadores contam lendas alemãs e histórias de assombração.

Lentz tem um sonho de conquista, em que os alemães tomam a terra pela força; o sonho é dele, e o livro o mostra como a ideia que Milkau combate.

Os dois escolhem um lote, ajudam na medição e mandam derrubar e queimar a mata para plantar.

Milkau se instala na vida simples da colônia:

A felicidade de Milkau era perfeita.

Canaã, na edição de H. Garnier (Rio de Janeiro, impressa em Paris em 1901), página 141, capítulo V

Lentz, ao contrário, vive inquieto.

Numa festa na capela de Jequitibá e num baile que vem depois, Milkau conversa com uma moça loira que o observava na missa, Maria Perutz.

Maria Perutz

O capítulo VI conta a vida de Maria.

Filha de imigrantes, não conheceu o pai, que morreu quando a família chegou ao Brasil, e cresceu como criada na casa da família Kraus, no Jequitibá.

O narrador resume o que era a vida dela antes de conhecer a dor:

Viver puramente, viver por viver, na completa felicidade é adaptar-se definitivamente ao Universo, como vive a arvore.
Sentir a vida é soffrer; a consciencia só é despertada pela Dôr.

Canaã, na edição de H. Garnier (Rio de Janeiro, impressa em Paris em 1901), página 191, capítulo VI

Maria se envolveu com Moritz, o filho da família, e engravidou.

Os pais de Moritz queriam casá-lo com uma moça rica e mandaram o rapaz para longe, e ele aceitou sem protestar.

Maria ficou sozinha.

No mesmo capítulo chegam à casa os homens da Justiça, para fazer o inventário do velho Kraus: o juiz municipal Paulo Maciel, o juiz de direito Itapecurú, o promotor Brederodes e o escrivão Pantoja.

Eles bebem, discutem e cobram custas dos colonos pobres.

À mesa, discutem imigração e o futuro do país: Itapecurú e Brederodes falam contra os estrangeiros, e Paulo Maciel se mostra descrente do Brasil.

O promotor também persegue Maria com olhares e investidas, que ela recusa.

Expulsa

Grávida, Maria é expulsa da casa dos Kraus.

Ela anda pelas estradas pedindo ajuda; o pastor e a irmã dele a recusam, e outros colonos também.

Acaba como criada num albergue de Santa Teresa, onde Milkau a encontra por acaso.

Ele paga o que ela devia e a leva consigo, para deixá-la amparada; depois disso ela volta a trabalhar como empregada de outros colonos.

Milkau continua pensando nela:

Não ha desgraça pequena.
Toda a dôr é immensa.

Canaã, na edição de H. Garnier (Rio de Janeiro, impressa em Paris em 1901), página 265, capítulo VIII

O parto e a prisão

No capítulo IX, Maria entra em trabalho de parto sozinha, no cafezal, com medo de ser mandada embora se pedisse ajuda.

Ela desmaia depois do parto, e o recém-nascido morre enquanto ela está desmaiada.

O livro narra a cena; o resumo não a descreve.

A filha dos patrões vê de longe e espalha que Maria matou o filho.

Dois dias depois, Maria está presa no Porto do Cachoeiro, acusada de ter matado a criança.

Os comerciantes e os pastores da colônia exigem um castigo exemplar, e o promotor, que ela tinha recusado, conduz a acusação com rancor.

Milkau visita Maria na cadeia, ouve dela o que aconteceu e se convence de que ela é inocente.

Ele passa a defendê-la e por isso é malvisto na cidade.

A justiça

Paulo Maciel, o juiz municipal, fica amigo de Milkau.

Nas conversas do capítulo X, o juiz diz que no Brasil não há justiça possível, porque os processos chegam cheios de mentiras, e que pensa em ir embora para a Europa.

Milkau responde que a justiça é uma ilusão no mundo inteiro, que as pátrias passam e que a mistura dos povos é um caminho de toda a humanidade.

Lentz e a cadeia

No capítulo XI, Lentz, sozinho nas margens do rio Doce, cai num delírio de grandeza e numa crise em que pensa em tirar a própria vida.

A crise passa, e Milkau o traz de volta.

Os dois vão à cadeia, e Milkau descobre que, na ausência dele, Maria sofreu tentativas de violência sexual e maus-tratos dos soldados que a guardavam, e que ela resistia como podia.

Lentz, comovido pela primeira vez, tem pena dela.

A fuga

No último capítulo, Milkau entra de noite na cadeia, passa pelo guarda adormecido e tira Maria de lá.

Os dois fogem pela cidade e sobem a montanha.

Na subida da montanha, Milkau, desesperado, tenta tirar a própria vida e levar Maria com ele, e é ela quem o impede.

Os dois sobrevivem.

Este resumo não descreve a cena.

Se você está passando por um momento difícil ou pensa em tirar a própria vida, procure ajuda: o CVV, pelo telefone 188, atende de graça, 24 horas por dia, e também pelo site cvv.org.br.

Depois disso, os dois descem para a planície e correm a noite inteira atrás de Canaã, a terra prometida que Milkau diz ver ao longe.

Quando amanhece, a terra prometida não aparece:

Milkau viu que tudo era vazio, que tudo era deserto, que os novos homens ainda alli não tinham surgido.

Canaã, na edição de H. Garnier (Rio de Janeiro, impressa em Paris em 1901), página 359, capítulo XII

Milkau diz a Maria que a terra da promissão ainda não nasceu e que é preciso esperar por ela nas gerações que virão.

A última fala dele termina num pedido de paz:

Todo o mal está na Força e só o Amor póde conduzir os homens...

Canaã, na edição de H. Garnier (Rio de Janeiro, impressa em Paris em 1901), página 360, capítulo XII

O livro acaba com Milkau pedindo que as pessoas abandonem os ódios e se reconciliem.

O romance não diz o que acontece depois com Maria, com Milkau ou com Lentz.

Uma leitura

Canaã é um romance de ideias.

Lentz e Milkau representam dois jeitos de ver o mundo, a força e o amor, e o livro dá a última palavra a Milkau.

Os discursos racistas das personagens fazem parte desse debate do livro, e este resumo os registra como posições delas, não como verdade.

Ao lado das ideias, a história de Maria mostra uma moça pobre abandonada por todos, acusada com testemunhos que Milkau diz terem sido arranjados, e tirada da prisão por ele.

A edição que lemos

Lemos a edição de Chanaan, de Graça Aranha, da Academia Brasileira, publicada por H. Garnier, livreiro-editor do Rio de Janeiro.

A folha de rosto não traz o ano.

A última página tem a marca da tipografia de H. Garnier em Paris com a data de dezembro de 1901, e o catálogo da Biblioteca Brasiliana registra 1902.

O exemplar é o do próprio autor, com dedicatória e com emendas escritas à mão para uma segunda edição; este resumo segue o texto impresso e não usa as emendas.

Lemos a abertura de todos os capítulos e as páginas de que este resumo fala, no texto reconhecido por máquina desse exemplar; não lemos o romance inteiro página a página na imagem.

Cada trecho citado foi copiado da imagem da página impressa, na grafia da edição ("cançado", "cavallo", "immensa").

Leia o romance, nas imagens do exemplar da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP, na edição de H. Garnier impressa em 1901. O acervo da Net Love tem este resumo, não o romance inteiro. O romance está em domínio público.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Os Sertões, O Cortiço, Inocência e O Missionário.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o romance. A obra é de Graça Aranha. Os trechos citados vêm da edição de H. Garnier: os trechos em bloco saíram das páginas 1, 141, 191, 265, 359 e 360, todos copiados da imagem da página impressa. As citações não trazem travessão de diálogo.