O Cortiço, de Aluísio Azevedo: o resumo do romance que explica o Brasil pelo aluguel
Resumo escrito para o acervo Net Love em 24 de setembro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Aluísio Azevedo. A obra é dele, saiu em 1890 e está em domínio público desde 1984. Os trechos entre aspas são cópia exata da transcrição que a Wikisource fez da primeira edição, de B. L. Garnier, e cada um traz o número do capítulo. Essa transcrição não tem grafia uniforme: em partes ela guarda a ortografia de 1890, com formas como annos, janellas, afreguezada e figado, e em outras ela aparece já atualizada. Deixamos cada trecho exatamente como está na fonte, sem uniformizar nada. O vídeo é narrado com a voz de Rodrigo Soares, sintetizada por inteligência artificial com a autorização dele. As figuras deste texto e as imagens do vídeo foram geradas por inteligência artificial em 2026.
Um homem, uma venda e uma conta
O Cortiço não começa com o cortiço.
Começa com um empregado de venda juntando dinheiro.
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo;
O Cortiço, capítulo 1
O patrão volta para Portugal e deixa a taverna e um conto e quinhentos para o rapaz.
A partir daí João Romão não para mais.
Ele compra o terreno dos fundos em pedaços, hoje quatro braças, amanhã seis, e em cada pedaço levanta uma fileira de casinhas de porta e janela.
Cada tijolo assentado vira aluguel.
O cortiço nasce assim, não de um projeto, mas de uma conta que dá certo todo mês.

Quem paga a conta
Do lado dele, desde a primeira página, trabalha Bertoleza.
Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e à noite peixe frito e iscas de figado;
O Cortiço, capítulo 1
Bertoleza é escravizada.
Ela paga jornal ao dono, guarda o que sobra, e está juntando o preço da própria alforria.
É esse dinheiro, e esse trabalho, que entram na sociedade com João Romão.
Guarde isso, porque é a chave do livro inteiro: o capital que levanta o cortiço não é poupança de um homem esforçado, é o trabalho de uma mulher escravizada.
Quem foi Aluísio Azevedo
Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo nasceu em São Luís do Maranhão em 14 de abril de 1857.
Foi caricaturista, jornalista, romancista e, mais tarde, diplomata, e é apontado como o introdutor e principal nome do naturalismo na literatura brasileira.
Morreu em Buenos Aires em 21 de janeiro de 1913, aos 56 anos.
Naturalismo, aqui, quer dizer uma coisa bem concreta: escrever gente como quem descreve um organismo, procurando a causa do comportamento no meio, na raça, no clima e no instinto, antes de procurar no caráter ou na escolha.
É isso que dá ao livro a força de reportagem e é isso, também, que produz as páginas mais difíceis de ler hoje.
Voltamos a esse ponto no fim.

O cortiço é o personagem principal
O título não é endereço, é nome de personagem.
Azevedo dedica capítulos inteiros a descrever a estalagem São Romão como um corpo que respira.
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janellas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormio de uma assentada sete horas de chumbo.
O Cortiço, capítulo 3
Cem casinhas, tinas de lavadeira alugadas por dia, bicas, coradouros, fado português e modinha brasileira saindo das mesmas gargantas.
O narrador chama aquilo de formigueiro, e a palavra não é elogio nem ofensa: é método.
O que interessa ao livro não é o destino de um morador, é o que acontece quando muita gente pobre é posta junta e cobrada por metro quadrado.
Miranda, o sobrado e a guerra do muro
Do outro lado da divisa mora Miranda, português dono de loja de fazendas no centro, casado com Dona Estela, que tem pretensão de nobreza, e pai de Zulmira.
Entre as duas casas João Romão levanta uma parede que é o resumo do livro.
um grosso muro de dez palmos de altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças vermelhas, por cima de uma tabuleta
O Cortiço, capítulo 1
O sobrado despreza a estalagem pelo barulho e pela sujeira.
A estalagem inveja o sobrado pelo título e pelo salão.
Os dois se medem por cima desse muro durante o romance inteiro, e a disputa vale mais que qualquer amizade: é ela que move o fim da história.
Rita Baiana e Jerônimo
No cortiço chega Jerônimo, português, pedreiro, homem de trabalho medido em anos.
Jerônimo viera da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena, tentar a vida no Brasil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em cuja fazenda mourejou durante dois anos, sem nunca levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de mãos vazias e uma grande birra pela lavoura brasileira.
O Cortiço, capítulo 5
Ele tem mulher, Piedade, e rotina de relógio.
Até ver Rita Baiana dançar.
A partir dali Jerônimo troca o vinho pela cachaça, a viola pelo pandeiro, a casa pela outra casa, e Azevedo explica essa troca do jeito da escola dele.
Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda;
O Cortiço, capítulo 7
Repare no que está sendo dito.
A mulher não aparece como pessoa com vontade própria, aparece como clima, como fruta, como veneno e como bicho.
Quem explica é o narrador de 1890, e essa explicação é parte do objeto deste resumo, não uma frase que se possa citar como se fosse elogio.

A partir daqui o resumo conta o desfecho. Se você prefere chegar ao fim do livro sem saber, pare neste parágrafo e volte depois.
O incêndio
No meio do romance o cortiço pega fogo.
— Acudam aqui! Acudam aqui! Há fogo no número 12. Está saindo fumaça! — Fogo! A esse grito um pânico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um incêndio lamberia aquelas cem casinhas enquanto o diabo esfrega um olho!
O Cortiço, capítulo 10
É a cena mais famosa do livro, e o que vem depois dela é mais importante que ela.
João Romão reconstrói, e reconstrói melhor: casas de tijolo, aluguel mais alto, nome novo.
A desgraça coletiva sai do lado do prejuízo e entra do lado do lucro.
Onde havia estalagem passa a haver avenida, e a gente que morava ali começa a não caber mais no preço.
O desfecho
O resto é a conta chegando para a pessoa errada.
João Romão enriquece, quer o que o vizinho tem, e pede a mão de Zulmira.
Para casar, precisa apagar Bertoleza da vida dele.
Ele não a mata.
Faz o que é pior e mais barato: manda chamar a família do antigo dono e entrega a mulher de volta.
Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro.
O Cortiço, capítulo 23
— É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. — Prendam-na! É escrava minha! A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.
O Cortiço, capítulo 23
Bertoleza se mata com a faca de limpar peixe, no chão da cozinha, enquanto na sala da frente o futuro marido recebe uma comissão que veio cumprimentá-lo por serviços prestados à sociedade.
O romance acaba aí, e não comenta.
É a mesma cena, o mesmo minuto, duas pessoas, e a conta inteira.
O olhar de 1890
Este livro tem 136 anos e enxerga com os olhos do tempo dele.
Pessoas negras, pobres e imigrantes aparecem descritas em termos de animal, de planta e de clima.
A sexualidade das mulheres, sobretudo a das mulheres negras e mestiças, é tratada como força da natureza que age sobre os homens, e não como vontade de alguém.
Isso não é um deslize do enredo, é o método da escola: se o comportamento se explica por raça, meio e instinto, o personagem deixa de ter escolha e passa a ter causa.
Não dá para ler O Cortiço sem ver isso, e não adianta apagar.
Apagar seria fingir que o racismo científico do fim do século 19 não estava na literatura brasileira mais premiada da época, e ele estava, com todas as letras.
O que dá para fazer é separar duas coisas que o livro mistura: o que ele observa e o que ele explica.
A observação continua exata.
A explicação é datada, e é de 1890, não é nossa.

Por que ler hoje
Porque a máquina que Azevedo desenhou continua ligada.
Alguém compra o terreno em pedaços, levanta o que couber, aluga por mês e por dia, melhora o imóvel, sobe o preço e troca de morador.
A palavra mudou, o cortiço virou outra coisa, mas a conta é a mesma, e continua fechando na ponta de quem paga.
E porque o livro tem uma honestidade que os personagens não têm: ele mostra a origem do dinheiro.
Está tudo lá, desde a página um, quem trabalhou e quem ficou com o resultado.
O romance inteiro, 23 capítulos, está em domínio público e pode ser lido de graça.
Leia o romance inteiro, em domínio público, na transcrição da primeira edição de 1890 publicada pela Wikisource em português. São os 23 capítulos, de graça, e é dessa mesma transcrição que saem os trechos citados aqui. O Cortiço não está no acervo da Net Love.
Este texto é da série Resumos de Livros. Os outros da série são Dom Casmurro, de Machado de Assis e Pai Rico, Pai Pobre.
Transcrição do vídeo
Eu sou o Rodrigo Soares, e em três minutos eu te conto O Cortiço, o romance que Aluísio Azevedo publicou em mil oitocentos e noventa e que é o retrato mais duro que a nossa literatura fez do dinheiro.
Aviso que no fim eu conto o desfecho.
Aluísio Azevedo nasceu no Maranhão em mil oitocentos e cinquenta e sete, foi caricaturista e jornalista, e trouxe para cá o naturalismo, a escola que explicava as pessoas por meio, raça e instinto, antes do caráter.
A história começa com um homem e uma conta: João Romão, empregado de venda, junta moeda por moeda, herda a taverna do patrão, e daí em diante cada tijolo que ele assenta é um aluguel a mais.
Onde havia quintal, ele levanta casinha.
Só que essa conta não fecha sozinha.
Quem trabalha ao lado dele é Bertoleza, escravizada, que vende angu de manhã e peixe frito à noite, e que entrega a ele as economias com que compraria a própria alforria.
É com esse dinheiro que o cortiço começa.
E o cortiço vira gente.
Azevedo escreve ele como um corpo que acorda às cinco da manhã, abrindo cem portas e janelas ao mesmo tempo, com cheiro, barulho, briga e festa.
Não é cenário: é o personagem principal do livro.
Do outro lado do muro mora Miranda, português de loja no centro, casado com uma senhora de pretensão a nobreza.
Ele despreza o vizinho da venda, o vizinho inveja o título dele, e os dois se medem por cima do muro o livro inteiro.
No cortiço chega Jerônimo, português, pedreiro, com mulher e filha.
Aí ele vê Rita Baiana dançando e larga tudo, e Azevedo explica isso pelo clima, pela terra e pelo sangue, como quem explica uma planta.
A conta disso é violenta: tem briga com Firmo, tem polícia, tem gente presa, tem morte.
E o cortiço, que nasceu de barraco, vai virando avenida, com casa melhor e aluguel mais caro, empurrando para fora, devagar, quem sempre morou ali.
Agora eu conto o fim.
No meio do livro o cortiço pega fogo, cem casinhas de madeira de uma vez, e no dia seguinte João Romão reconstrói tudo melhor, mais caro e com outro nome.
O incêndio não quebra ele, promove.
E o desfecho é a conta chegando para a pessoa errada.
João Romão fica rico, quer casar com a filha do vizinho, e para isso precisa se livrar de Bertoleza: ele chama os antigos donos dela e a entrega, viva, de volta ao cativeiro.
Este livro enxerga com os olhos da época dele, tratando raça, pobreza e desejo como se fossem natureza.
Não dá para ler sem ver isso, e nem para apagar: o olhar é de mil oitocentos e noventa, não é o nosso.
Mas o que ele viu do dinheiro continua de pé: alguém sobe, e alguém paga a subida.
São vinte e três capítulos, e o romance inteiro está de graça na Wikisource, com o link aqui embaixo.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o romance. A obra é de Aluísio Azevedo. Os trechos citados vêm da transcrição da primeira edição de 1890, de B. L. Garnier, publicada na Wikisource em português, e saíram dos capítulos 1, 3, 5, 7, 10 e 23. A descrição do naturalismo e a separação entre o que o romance observa e o modo como ele explica as pessoas foram escritas aqui, e não citam nenhum crítico.



