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O Juiz de Paz da Roça, de Martins Pena: o resumo da comédia em um ato novo

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1.816 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 8 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Martins Pena. A peça é dele e está em domínio público. Lemos a peça nas Comedias de Martins Penna publicadas pelo Jornal do Brasil em 1927, e cada citação em bloco traz a página e quem fala.

Uma comédia curta da roça

O Juiz de Paz da Roça é uma comédia em um ato, em prosa, com vinte cenas.

A ação se passa na roça, em duas casas: a do lavrador Manuel João e a do juiz de paz.

Na peça, o juiz de paz cuida das brigas pequenas dos vizinhos e, em vários casos, diz que as partes estão conciliadas.

Na peça, o juiz não entende de lei e usa o cargo em proveito próprio.

A edição que lemos escreve os nomes como no tempo dela: Manoel João, Anninha, Thomaz.

No nosso texto usamos a grafia de hoje, Manuel João e Aninha.

A casa de Manuel João

A peça começa com Maria Rosa e a filha, Aninha, costurando em casa.

Manuel João saiu para o trabalho às quatro da manhã e ainda não voltou.

Quando a mãe sai da sala, Aninha chama José, o rapaz de quem gosta e que esperava escondido entre os pés de café.

José vendeu o bananal que o pai deixou, mas está sem dinheiro.

Mesmo assim propõe que os dois casem na freguesia sem o pai dela saber e depois vão morar na corte, no Rio de Janeiro.

Ele conta das maravilhas de lá: teatros, peças de mágica, cavalos que dançam e um macaco que chamam de major.

Aninha fica encantada, e eles combinam o casamento para a manhã seguinte.

Manuel João chega cansado, com a enxada no ombro.

Conta tudo o que trabalhou, pede o jantar e diz à mulher que é preciso casar a filha.

Maria Rosa responde que eles são pobres, e "quem é pobre não casa".

A família janta carne seca, feijão e laranjas, comendo com as mãos.

O recruta

Batem à porta: é o escrivão do juiz de paz.

Ele vem intimar Manuel João a levar um recruta preso até a cidade, porque é preciso mandar gente para a guerra no Rio Grande.

Manuel João reclama que são sempre os pobres que pagam, mas o escrivão diz que, se ele não for, vai preso.

Maria Rosa se queixa: o marido vive vestindo a farda da guarda nacional, ora para levar presos, ora para atacar quilombos, comunidades de pessoas que fugiam da escravidão.

Manuel João sai fardado, e Aninha só lembra de pedir uns sapatos franceses da cidade.

O juiz em casa

Na casa dele, o juiz de paz se prepara para a audiência, de chinelas e sem gravata.

Recebe um cacho de bananas de presente, com uma carta cheia de palavras difíceis que ele mesmo não entende.

E comenta, satisfeito:

O certo é que é bom ser juiz de paz cá pela roça.
De vez em quando temos nossos presentes de gallinhas, bananas, ovos, etc., etc.

O Juiz de Paz da Roça, nas Comedias de Martins Penna (Rio de Janeiro, 1927), página 12, fala do Juiz

A audiência

Os lavradores entram com os seus requerimentos, e o escrivão lê um por um.

O primeiro é de Inácio José, que pede que Gregório seja mandado para longe por ter dado uma umbigada, um golpe com a barriga, na mulher dele, Josefa.

Gregório nega, Josefa insiste, e o juiz resolve assim:

Está bom, senhora, socegue.
Sr. Ignacio José, deixe-se d'essas asneiras; dar embigadas não é crime classificado no codigo.

O Juiz de Paz da Roça, nas Comedias de Martins Penna (Rio de Janeiro, 1927), página 14, fala do Juiz

O segundo é de Manuel André, que quer o juiz na marcação de um sítio que o vizinho diz ser metade dele.

O juiz diz que está ocupado com a roça dele e manda o homem procurar o suplente, que é compadre dele.

Manuel André responde que o juiz não pode prendê-lo à toa, porque a Constituição não manda.

O juiz não gosta.

A Constituição! está bem! Eu, o juiz de paz, hei por bem derogar a constituição!...

O Juiz de Paz da Roça, nas Comedias de Martins Penna (Rio de Janeiro, 1927), página 14, fala do Juiz

Derogar quer dizer revogar, anular.

E ainda diz "Suspendo-lhes as garantias", enquanto Manuel André foge correndo.

O terceiro é de Sampaio, que quer de volta um leitão que entrou na horta de Tomás e que Tomás guardou para si.

Os dois puxam o bicho cada um para um lado.

O juiz sugere que deem o leitão de presente a alguém, e Tomás entende o recado e oferece o leitão ao próprio juiz, que aceita.

Quando o juiz diz que não pode atender outro pedido de Sampaio, Tomás lembra os votos que o juiz lhe pediu para aqueles sujeitos.

O quarto é de Francisco Antônio, que quer o filhote da égua da mulher dele, que o vizinho José da Silva reclama porque o potro nasceu malhado como o cavalo dele.

No requerimento, para provar que os filhos pertencem às mães, Francisco Antônio usa como exemplo o filho de uma mulher que ele mantém escravizada.

O juiz dá razão a ele e, quando José da Silva fala em recorrer, ameaça mandá-lo para soldado.

José da Silva cede, e o juiz encerra a sessão.

José preso

Manuel João chega para buscar o recruta, e o recruta é José.

O juiz manda deixá-lo no quartel do Campo de Santana, mas Manuel João diz que já é tarde e que o preso pode fugir no caminho.

Como não há cadeia, o juiz manda que ele leve o rapaz para casa e o prenda num quarto até o dia seguinte.

Logo depois chega Josefa com três galinhas e uma cuia de ovos para o juiz, que fica contente com a visita.

Na casa de Manuel João, José é trancado num quarto, e a chave fica em cima da mesa.

Aninha abre a porta.

José conta que, assim que saiu da casa dela, encontrou o juiz, que mandou agarrá-lo, e que ia ser soldado à força.

Aninha propõe que fujam para casar naquela hora, e os dois saem correndo para a igreja.

Maria Rosa encontra a porta aberta e grita: "O soldado fugiu".

E logo descobre que Aninha fugiu com ele.

Manuel João pede a jaqueta e o chapéu para ir se queixar ao juiz, mas antes os dois voltam, ajoelham-se e contam que já estão casados.

O pai acaba aceitando, e diz que agora José não pode mais ser soldado, porque está casado.

O fim na casa do juiz

Enquanto isso, o juiz conta ao escrivão que vai à cidade se aconselhar com um advogado, porque não sabe despachar os requerimentos difíceis.

Conta que, quando não sabia o que despachar, escrevia "Não tem logar", e que isso quase lhe custou o cargo.

O escrivão pergunta se ele "não se envergonha sendo um juiz de paz", e o juiz responde que muitos juízes de direito também não sabem.

Chega a família de Manuel João com José.

Quando ouve que o recruta não pode ser soldado, o juiz pensa logo numa rebelião, mas a explicação é outra: José casou com Aninha.

O juiz aceita o que está feito, pede desculpas a José por tê-lo xingado e chama os lavradores da audiência para um café e uma dança.

Antes da festa, pergunta baixinho a Tomás se o leitão ficou no chiqueiro.

A peça termina com viola, palmas e uma cantiga.

Em cima d'aquelle morro
Tem um pé de ananaz;
Não ha homem n'este mundo
Como o nosso juiz de paz.

O Juiz de Paz da Roça, nas Comedias de Martins Penna (Rio de Janeiro, 1927), página 25, fala do Tocador

Uma nota de leitura

A peça ri de um juiz que troca a justiça por galinhas e leitões, que pede votos e que diz revogar a Constituição quando é contrariado.

Ri também do recrutamento à força para a guerra, do qual Manuel João reclama que só os pobres pagam.

A peça mostra pessoas escravizadas como parte do dia a dia da roça, e não as trata como personagens com voz.

Manuel João tem um homem escravizado, Agostinho, que trabalha com ele e fica sem a carne do jantar.

Mãe e filha conversam sobre o preço de pessoas escravizadas e sobre comprar uma menina escravizada para Aninha, e um lavrador usa o filho de uma mulher escravizada como argumento num requerimento.

A comédia não discute nada disso.

A escravidão foi um crime, e a página registra esses trechos sem repetir os termos da época.

A edição que lemos

Lemos a peça nas Comedias de Martins Penna, o número 8 do Supplemento Romantico do Jornal do Brasil, impresso nas oficinas gráficas do jornal, no Rio de Janeiro, em 1927.

A peça vai das páginas 5 a 25.

A nota biográfica do volume diz que Martins Pena nasceu no Rio de Janeiro em 1815 e morreu em Lisboa no fim de 1848, e cita O Juiz de Paz da Roça entre as peças mais conhecidas dele.

A edição de 1927 não dá a data da peça, e por isso este resumo também não dá.

Lemos o texto nas imagens do exemplar da Universidade da Carolina do Norte digitalizado no Internet Archive.

O texto reconhecido por máquina dessa edição tem muitos erros, e por isso cada trecho citado foi copiado da imagem da página e só entrou quando a imagem e esse texto coincidiam.

Por que ler hoje

Porque é curta e engraçada.

E porque o juiz de Martins Pena ainda serve de espelho para quem usa um cargo público como se fosse coisa sua.

Leia a peça, nas imagens das Comedias de Martins Penna (Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 1927), no exemplar da University of North Carolina digitalizado no Internet Archive. A peça vai das páginas 5 a 25. O acervo da Net Love tem este resumo, não a peça inteira. A peça está em domínio público.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Auto da Barca do Inferno, O Alienista, Memórias de um Sargento de Milícias e A Moreninha.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui a peça. A obra é de Martins Pena. Os trechos citados vêm das Comedias de Martins Penna, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 1927: os trechos em bloco saíram das páginas 12, 14 e 25, e as frases curtas entre aspas na prosa vêm também das páginas 9, 20 e 22, todas copiadas da imagem da página e conferidas no texto reconhecido por máquina. A grafia da edição não foi mexida. As citações não trazem fala com travessão. A nota de leitura foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.