A Nova Califórnia, de Lima Barreto: o resumo do conto da cidade que quis fazer ouro novo
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Resumo escrito para o acervo Net Love em 7 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Lima Barreto. A obra é dele e está em domínio público no Brasil; o autor morreu em 1922. O texto que lemos e citamos é o do volume de 1915 que trouxe o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma e, depois dele, alguns contos, entre eles este, nas páginas 273 a 284 (veja A edição, no fim). O conto termina com violência e mortes num cemitério, e o resumo conta isso sem detalhe.
O forasteiro
Ninguém em Tubiacanga sabia de onde tinha vindo o homem que se chamava Raimundo Flamel.
O agente do correio só sabia o nome, porque era assim que vinham endereçadas as muitas cartas, revistas e livros que ele recebia do mundo inteiro.
O pedreiro Fabrício contou na venda que tinha sido contratado para construir um forno na sala de jantar da casa, e que lá dentro havia balões de vidro e utensílios estranhos.
O alarme se fêz na villa.
A Nova Califórnia, edição de 1915, página 273
Uns acharam que ele fabricava dinheiro falso, outros que tinha parte com o diabo.
Quem acalmou a cidade foi o farmacêutico Bastos, homem formado, vereador e respeitado: para ele, o desconhecido devia ser um sábio, um grande químico.
A cidade passou a cumprimentá-lo de chapéu na mão e a chamá-lo de doutor.
O mestre-escola
Só uma pessoa não admirava Flamel: o capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de Tubiacanga.
Pelino tinha fama de sábio porque era gramático e corrigia o português de todo mundo, das conversas da farmácia aos grandes escritores do Rio.
Via no recém-chegado um rival e dizia que ele era um caloteiro ou um aventureiro.
Mas Flamel pagava as contas em dia, era generoso com os pobres, e o farmacêutico tinha visto o nome dele citado numa revista como químico de valor.
O segredo
Anos depois, Flamel entrou pela primeira vez na farmácia e pediu para falar com Bastos em particular.
Contou que tinha feito uma grande descoberta e que precisava de três pessoas conceituadas como testemunhas, para garantir a prioridade da invenção.
A descoberta era fazer ouro.
Bastos seria uma das testemunhas e indicou as outras duas: o coronel Bentes, homem rico e quase ateu, e o tenente Carvalhais, coletor, que era maçom.
Flamel quis saber se eram religiosos, porque a experiência precisava de ossos de defunto.
No domingo, os três foram à casa dele; dias depois, Flamel desapareceu sem deixar explicação.
Os ossos do cemitério
Tubiacanga era uma cidade pacífica, de três ou quatro mil habitantes.
De repente, começaram a ser violadas as sepulturas do cemitério, e os ossos sumiam.
A cidade inteira se indignou, e Pelino escreveu na Gazeta que nunca houvera crime tão repugnante.
Dez homens montaram guarda no cemitério e, na quarta noite, apanharam dois dos ladrões e os espancaram até deixá-los estendidos como mortos.
De manhã, a população reconheceu neles o coletor Carvalhais e o coronel Bentes, fazendeiro rico e presidente da Câmara.
Bentes ainda vivia e contou que juntava ossos para fazer ouro, e que o companheiro que tinha fugido era o farmacêutico.
Houve espanto e houve esperanças.
A Nova Califórnia, edição de 1915, página 281
Cada um pensou no que faria com o ouro: o carteiro, na formatura do filho; o escrivão, no muro da casa; outro, num pasto para os bois.
A multidão correu à casa do farmacêutico.
Bastos apareceu com uma pequena barra de ouro na mão, pediu que lhe poupassem a vida e prometeu ensinar o segredo.
Disse que a receita precisava ser escrita e só poderia ser entregue impressa no dia seguinte, e o subdelegado se responsabilizou pela promessa.
Cada um foi para casa pensando numa coisa só: juntar o maior número de ossos que pudesse.
A noite
Na casa do engenheiro da estrada de ferro, o doutor explicou no jantar que aquilo era impossível: ouro é ouro, e osso é osso.
A filha, Cora, que desdenhava a cidade, riu da credulidade dos vizinhos.
Mas, de noite, o engenheiro saiu escondido pela janela, a filha saiu descalça, e a mulher saiu também.
O mesmo aconteceu em todas as casas: a cidade inteira foi ao cemitério, dos mais ricos aos mais pobres, e o conto faz questão de nomear os respeitáveis que estavam lá.
O conto descreve a cena com crueza, e este resumo não a descreve.
os mortos eram poucos e não bastavam para satisfazer a fome dos vivos.
A Nova Califórnia, edição de 1915, página 283
Houve brigas, facadas e tiros, e o próprio Pelino feriu a faca um comerciante por causa de um osso.
De manhã, o cemitério tinha mais mortos do que tinha recebido em trinta anos.
Só uma pessoa não foi ao cemitério: o bêbado Belmiro, que passou a noite bebendo à beira do rio, indiferente a tudo, enquanto o farmacêutico fugia com o seu segredo.
Nossa leitura
Esta parte é a nossa leitura do conto, não um fato do texto.
O narrador mostra uma barra de ouro na mão do farmacêutico, mas não confirma que ela tenha sido feita com ossos; o que o conto mostra é o que a promessa de riqueza fez com uma cidade que se dizia pacífica e respeitável.
Os que mais se indignaram com o roubo de ossos, como o gramático Pelino e a moça Cora, estão entre os que vão ao cemitério de noite.
O único que fica de fora é o bêbado da cidade.
A edição
O texto lido aqui é o de Triste Fim de Polycarpo Quaresma, de Lima Barreto, Rio de Janeiro, Typ. Revista dos Tribunaes, 1915, segundo os dados do exemplar na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP (a folha de rosto não aparece na digitalização).
Esse volume traz o romance e, depois dele, sete contos; A Nova Califórnia ocupa as páginas 273 a 284.
Lemos o conto nas imagens dessa digitalização, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina do mesmo arquivo.
A grafia é a da edição ("villa", "fêz").
Leia o conto inteiro, no volume de 1915 que traz também Triste Fim de Policarpo Quaresma, digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP; o conto está nas páginas 273 a 284. É dessa digitalização que saem os trechos citados aqui, copiados das imagens das páginas, com a grafia da edição. O acervo da Net Love tem este resumo, não o conto inteiro. A obra está em domínio público no Brasil.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são O Homem que Sabia Javanês, Triste Fim de Policarpo Quaresma, Clara dos Anjos, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá e O Alienista.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o conto. A obra é de Lima Barreto. Os trechos citados vêm do volume de 1915 da Typ. Revista dos Tribunaes: os trechos em bloco saíram das páginas 273, 281 e 283, todos copiados da imagem da página e conferidos no texto reconhecido por máquina. As citações não trazem travessão de diálogo nem os termos de cor que o conto usa.
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