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Clara dos Anjos, de Lima Barreto: o resumo do romance da moça do subúrbio novo

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2.331 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 7 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Lima Barreto. A obra é dele e está em domínio público no Brasil; o autor morreu em 1922. Os trechos citados vêm da primeira edição em livro, de 1948 (veja A edição, no fim). O romance fala de racismo; o resumo nomeia essa violência e não reproduz os insultos racistas que as personagens dizem. O livro lembra pessoas que foram escravizadas; a escravidão foi crime e violência contra pessoas, amparada pelas leis da época. O romance conta também o abuso de uma moça de dezessete anos e um assassinato, e o resumo conta os dois sem detalhe gráfico.

O romance e o conto

Lima Barreto escreveu dois textos com o nome Clara dos Anjos, e este resumo é do romance.

Segundo a nota do editor da edição de 1948, o romance saiu depois da morte do autor, em dezesseis números da Revista Sousa Cruz, de janeiro de 1923 a maio de 1924, e só virou livro em 1948.

A mesma nota diz que o autor tinha resumido o tema antes num conto, também chamado Clara dos Anjos, publicado numa revista em 1919 e depois no livro Histórias e Sonhos, de 1920.

Não confunda o romance com o conto: o conto é curto, e o romance tem dez capítulos e conta a história com muito mais gente em volta de Clara.

No fim do texto, o livro traz o lugar e a data em que foi escrito: Todos os Santos, no Rio de Janeiro, de dezembro de 1921 a janeiro de 1922.

A casa do carteiro

Joaquim dos Anjos é carteiro no Rio de Janeiro e mora numa casa pequena, dele, no subúrbio.

Veio moço dos arredores de Diamantina, em Minas Gerais, toca flauta, compõe valsas e polcas e vendeu duas delas a uma casa de músicas da rua do Ouvidor.

É casado com Engrácia, uma mulher boa, honesta e sem iniciativa, que deixa tudo nas mãos do marido.

A filha deles, Clara, é uma moça negra de dezessete anos, criada com muito cuidado e muito resguardo: quase não sai de casa, e só de vez em quando, num domingo, vai ao cinema acompanhada pela professora de costura.

Engrácia foi criada pela velha Babá, na casa da família que tinha sido dona da avó dela.

O livro conta isso de passagem, mas não esquece de onde vem aquela família.

Todos os domingos, dois amigos vão conversar na casa de Joaquim.

Um é Lafões, guarda das obras públicas.

O outro é Marramaque, padrinho de Clara, um homem quase inválido, que trabalha de contínuo numa secretaria, e que na mocidade sonhou ser poeta.

Numa dessas conversas, Lafões pede licença para levar ao aniversário de Clara um mestre do violão e da modinha.

O nome dele é Cassi, e Marramaque fica furioso: diz que aquele sujeito não pode entrar em casa de família.

Clara fica com a pergunta na cabeça: quem seria esse Cassi?

Quem era Cassi

Cassi Jones de Azevedo tem menos de trinta anos, é branco e é filho de uma família remediada do subúrbio.

O Jones é invenção: a mãe, Salustiana, diz descender de um Lord Jones que teria sido cônsul da Inglaterra em Santa Catarina, e o filho pôs o nome na assinatura.

Ele é conhecido como tocador de violão e cantor de modinhas, e o narrador explica o poder que isso tem sobre as moças do lugar:

Era bem misterioso êsse seu violão; era bem um elixir ou talismã de amor.

Clara dos Anjos, edição de 1948, página 42

O narrador não esconde quem ele é.

Cassi já tinha seduzido e abandonado várias moças pobres, e sempre escapava do processo ou do casamento: Cassi corria à mãe chorando e jurando inocência, e ela, mesmo sem acreditar, pedia ao marido que o livrasse da cadeia ou do casamento.

O livro chama esses atos de "covardes crimes" e mostra o método: Cassi escolhe as vítimas entre as moças pobres, de todas as cores, que pouco poderiam fazer contra ele, finge amor, escreve cartas, finge sofrer.

O narrador afirma que Cassi agia calculadamente, de caso pensado.

A festa de aniversário

No aniversário de Clara, a casa pequena fica cheia, mais de gente de idade do que de moços.

Lá estão Dona Margarida, uma viúva vizinha, nascida em Riga, filha de um operário alemão, que vive de costura e bordado, cria galinhas e é respeitada no bairro pela coragem e pela bondade; o velho dentista Meneses; e o doutor Praxedes.

Cassi toca e canta, e Clara fica encantada.

Marramaque, que não tira os olhos dele, solta uma indireta em verso que o chama de burro, e Cassi sai da festa jurando que o velho lhe paga.

Depois que todos vão embora, Engrácia diz ao marido que não quer mais Cassi naquela casa: Dona Margarida lhe contou quem ele é.

Joaquim concorda.

Clara, que ouve tudo do quarto, chora em silêncio.

A conversa na venda

Na venda do "Seu" Nascimento, os homens do bairro contam o que sabem de Cassi: as moças que ele seduziu e abandonou, os processos, a surra de guarda-chuva que Dona Margarida deu, numa estação, em Timbó, um companheiro de Cassi que a perseguia.

Meneses, que anda com Cassi, ouve tudo e fica com medo de estar se comprometendo.

Cassi, recebido de cara fechada na segunda visita, conclui que só duas pessoas atrapalham o caminho dele até Clara: Dona Margarida e Marramaque.

Pouco depois, Marramaque conta na venda que recebeu pelo correio, sem saber de quem, a vida inteira de Cassi copiada à máquina, com notícias de jornal e datas de processos, e que a deu ao compadre para que ele se prevenisse.

Arnaldo, companheiro de Cassi, escuta a conversa escondido e corre para contar.

O subúrbio, Meneses e o poeta

No meio do livro, Lima Barreto para a história e descreve o subúrbio carioca: a faixa de terra ao longo da linha da Central, as casas e os barracões construídos com o que se acha, a falta de água e de esgoto, a ameaça da varíola.

É também ali que o leitor conhece a vida do velho Meneses, que correu o interior como dentista prático e acabou pobre, bebendo, encostado na casa de parentes.

E conhece Leonardo Flores, poeta que já foi famoso no país inteiro e agora vive pobre e bebendo, com o orgulho de nunca ter vendido os seus versos.

As cartas e a morte do padrinho

Joaquim é um homem de boa-fé, que não consegue desconfiar de ninguém.

Quando Clara tem dor de dentes, Meneses passa a ir todos os dias à casa para tratá-la.

Cassi aproveita a miséria do velho dentista e o faz levar cartas para Clara.

Meneses entrega as cartas, se arrepende e continua entregando, e Clara as recebe como se fossem mensagens do céu.

Marramaque é o único que continua vigiando.

Numa noite de chuva, voltando para casa por uma ladeira escura, ele é atacado por dois homens e morto a pancadas.

O narrador encerra o capítulo dizendo que ele não fez versos, ou os fez maus, mas foi, ao seu jeito, um herói e um poeta.

Depois do crime

A morte de um velho pobre e inofensivo assusta a cidade inteira.

Cassi lê os jornais e ouve as maldições de todos contra os assassinos sem nenhum arrependimento, e Arnaldo, o cúmplice dele, vive com medo de ser descoberto pela polícia.

Clara, por pequenos sinais, atribui a Cassi a morte do padrinho e se sente culpada também.

Cassi começa a preparar a fuga: vende os galos de briga e as galinhas e guarda o dinheiro.

Numa dessas saídas, encontra Inês, a primeira moça que ele enganou, que tinha sido empregada da família e que a mãe dele pôs na rua grávida.

Inês o reconhece e o enfrenta diante de outras pessoas; o filho dela, ainda menino, já tinha passado pela Casa de Detenção.

Cassi escapa e só pensa no escândalo que teria sido se alguém o conhecesse ali.

A janela e a mancha no céu

O último capítulo abre com Clara na janela do quarto, de noite, esperando Cassi, que já a encontra às escondidas.

Ele promete pedi-la em casamento assim que arranjar emprego. O livro recorda esses encontros e conta o abuso pelo que Clara lembra e sente, sem descrição gráfica, e este resumo não os descreve.

Olhando o céu, ela repara numa mancha escura perto do Cruzeiro do Sul:

Então, no céu, também se encontram manchas?

Clara dos Anjos, edição de 1948, página 177

O velho Meneses morre, e é o doutor Praxedes quem leva a notícia à casa de Joaquim.

Sem saber de nada, ele conta, na frente de Clara, que Cassi embarcou para São Paulo, em Cascadura, uns quinze dias antes.

Clara entende que foi abandonada.

Está grávida, sozinha, e pela primeira vez vê Cassi como os outros o viam: ele a escolheu porque ela era pobre e por causa da cor dela, e contava com a indiferença de todos.

Ela tenta esconder a gravidez e acaba procurando Dona Margarida, que percebe que há alguma coisa grave e ouve a história inteira.

Na casa da família de Cassi

Dona Margarida leva Clara à casa da família de Cassi, para pedir justiça.

A mãe dele, Dona Salustiana, recebe as duas com desdém e pergunta, irônica, o que querem que ela faça.

Clara responde que ele se case com ela.

A mãe de Cassi responde com um insulto racista, e diz que a culpa é das moças.

Dona Margarida enfrenta a mulher em voz alta.

Então chega o pai, o velho Azevedo.

Clara se ajoelha diante dele e diz: "Seu filho me desgraçou!"

Ele a levanta, diz que não tem autoridade nenhuma sobre o filho, que já o amaldiçoou, que não perdoa o filho, e pede perdão a ela por ser pai de um homem assim.

As filhas pedem que as visitas se retirem.

A volta para casa

No bonde, Clara pensa no que acabou de ouvir.

Ela entende o lugar que a sociedade lhe dá, e entende que a educação de mimo e resguardo não a protegeu, porque ninguém lhe ensinou de que o mundo era feito.

O narrador diz o que ela conclui:

Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam...

Clara dos Anjos, edição de 1948, página 200

Em casa, Dona Margarida conta à mãe de Clara o que se passou.

O romance termina com Clara abraçada à mãe:

Nós não somos nada nesta vida.

Clara dos Anjos, edição de 1948, página 201

Uma nota sobre o racismo e o abuso no livro

O racismo é violência, e o livro o mostra do começo ao fim: no modo como Cassi escolhe as vítimas, na indiferença das autoridades e do bairro, e na sala da família dele, onde a mãe de Cassi recebe Clara.

Várias personagens dizem insultos racistas contra Clara e contra outras pessoas, e não reproduzimos os insultos aqui.

O romance não trata o que acontece com Clara como aventura de amor.

O narrador chama de crime o que Cassi faz, mostra um homem feito que se aproveita de uma moça de dezessete anos, criada sem conhecer o mundo, e mostra que ele contava com a falta de castigo.

Quem diz que a culpa é das moças é a mãe de Cassi, e o romance condena os crimes dele e expõe o preconceito que o protege.

Mas o livro também julga Clara com severidade: o narrador critica a educação que ela recebeu, a passividade dela e o pouco que ela pensava sobre o próprio destino, e a própria Clara, antes, achava que a culpa era das moças.

No fim, Clara entende que a desgraça dela não vem de ela valer menos, vem de como os outros a tratam. Ela conclui também que precisava ter tido vontade para se defender; essa cobrança sobre Clara faz parte do romance, e a responsabilidade pelo crime é de Cassi, que abusou dela.

A edição

O texto lido aqui é o da primeira edição em livro: Clara dos Anjos, de Lima Barreto, Rio de Janeiro, Editôra Mérito, 1948, com o romance nas páginas 27 a 201.

Lemos o romance nas imagens dessa edição digitalizadas pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (USP), e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina do mesmo arquivo.

A grafia é a da edição, anterior às reformas de 1971 e 1990 ("êle", "fôsse").

A nota do editor diz que o texto do livro é o mesmo da Revista Sousa Cruz, porque o manuscrito se extraviou.

A edição de 1948 traz também um prefácio de Lúcia Miguel Pereira e uma seleção de contos de Lima Barreto, que este resumo não usa.

Leia o romance inteiro, na primeira edição em livro, de 1948, digitalizada pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP. É dessa digitalização que saem os trechos citados aqui, copiados das imagens das páginas, com a grafia da edição. O acervo da Net Love tem este resumo, não o romance inteiro. A obra está em domínio público no Brasil.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Triste Fim de Policarpo Quaresma, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, O Mulato e O Cortiço.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o romance. A obra é de Lima Barreto. Os trechos citados vêm da edição de 1948 da Editôra Mérito: os trechos em bloco saíram das páginas 42, 177, 200 e 201, e as citações curtas entre aspas vêm também das páginas 57 e 199, todas copiadas da imagem da página e conferidas no texto reconhecido por máquina. As citações não trazem travessão de diálogo nem os termos raciais que o livro usa como rótulo ou insulto.

Na coleção Consciência Negra, leitura 9 de 11
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