Os Bruzundangas, de Lima Barreto: o resumo da sátira do país imaginário novo
- Tamanho
- 1.235 palavras
Resumo escrito para o acervo Net Love em 8 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Lima Barreto. A obra é dele e está em domínio público no Brasil; o autor morreu em 1922. O texto que lemos e citamos é o da edição de 1922 de Jacintho Ribeiro dos Santos, do Rio de Janeiro (veja A edição, no fim). O livro registra preconceitos de cor da sociedade que satiriza; o resumo diz isso sem reproduzir os termos.
Um país que não existe
A Bruzundanga é um país imaginário, e o narrador fala dela como quem esteve lá e conheceu os seus costumes.
No prefácio, ele parte de um velho livro português, a Arte de Furtar, e explica por que vale a pena conhecer os males da Bruzundanga: são maiores que os nossos, e conhecê-los nos ajuda a enxergar os nossos.
O prefácio vem assinado por Lima Barreto.
O livro não é um romance: são capítulos curtos, cada um sobre uma instituição ou um costume do país, com casos, personagens de nomes estrambóticos e muito humor.
Os poetas samoiedas
O capítulo especial de abertura, antes do capítulo I, trata dos literatos da Bruzundanga.
Os poetas da escola samoieda atribuem a sua escola a um príncipe cujas poesias nunca leram e seguem uma doutrina importada da França.
O narrador ri de uma poesia feita para impressionar, que imita os sons e, segundo as regras de um dos mestres, deve fazer o leitor dormir.
A nobreza doutoral
Na Bruzundanga, a verdadeira nobreza é a dos diplomas.
Médicos, advogados e engenheiros têm privilégios que os outros não têm, e o povo aceita esses privilégios:
O povo mesmo acceita esse estado de cousas e tem um respeito religioso pela sua nobreza de doutores.
Os Bruzundangas, edição de 1922, página 41
Há também a outra nobreza, a dos títulos inventados: gente que muda o sobrenome, compra árvores genealógicas e vira príncipe ou marquês.
Política, riqueza e Constituição
Os políticos da Bruzundanga são medíocres, cada um coloca os parentes nos cargos, e a população do campo passa fome.
O país, dizem os livros escolares, é o mais rico do mundo, mas compra carvão no estrangeiro, e o café sustenta uma oligarquia que todos pagam.
O financista Karpatoso, que ganha fama de gênio, propõe aumentar os impostos sobre o que o povo consome e isentar de impostos a seda e o veludo; termina louco.
A Constituição do país foi copiada, depois de muita discussão, da de Brobdingnag, o país dos gigantes de As Viagens de Gulliver, e ganhou artigos próprios: o ministro não pode entender do assunto da sua pasta, e o deputado só pode ter as opiniões do governador que o elege.
O chefe do governo, o Manda-Chuva, deve ser um homem medíocre, e essa exigência sempre é cumprida.
Ensino e diplomacia
O ensino serve para tirar diplomas, e o grande medo dos rapazes são os exames, que os pais poderosos dão um jeito de arranjar.
O narrador propõe acabar com o privilégio do diploma.
O sonho de todo bruzundanguense é morar fora do país, e a diplomacia é o caminho dos doutores para isso.
Um funcionário escreve um relatório de duzentas páginas para decidir se o peixe servido num jantar era garoupa ou bijupirá, conclui que era cação, e o trabalho é tido como modelo de erudição.
O narrador conclui:
A Bruzundanga é um paiz de terceira ordem e a sua diplomacia é meramente decorativa.
Os Bruzundangas, edição de 1922, página 77
Ministros, heróis e eleições
Um usineiro que financiou uma revolta vira senador e depois ministro da Agricultura, exige coisas práticas, põe os funcionários do ministério para plantar com a enxada e some quando o açúcar começa a render.
Quando perguntam por ele, a resposta é:
Está occupado com coisas praticas.
Os Bruzundangas, edição de 1922, página 106
Os heróis do país são figuras discutíveis, e o mais celebrado deles, o visconde de Pancome, fica famoso por subir uma montanha que um roceiro da região já tinha subido muitas vezes.
Pancome despreza os feios e os mestiços, e o narrador condena esse preconceito.
As eleições são uma farsa: as atas são escritas como os mesários querem, e votam até os mortos.
Um rapaz convencido de que deve exercer os seus direitos políticos vai votar e termina na Santa Casa, depois de uma agressão, e explica o que lhe aconteceu com duas palavras: direitos políticos.
A consulta médica e a organização do entusiasmo
Um merceeiro paga caro a consulta de um médico famoso, que também é jogador de futebol, e ouve o diagnóstico:
O senhor não tem nada.
Os Bruzundangas, edição de 1922, página 134
Sai indignado por ter pago tanto dinheiro para não ter nada.
Em outro capítulo, o narrador conta a proposta de uma Guarda do Entusiasmo, um corpo de homens fardados para aplaudir quem o governo mandar, e ela é organizada em menos de um mês.
O fim do livro
Os últimos capítulos falam do secretário que acompanha o ministro para tirar teias de aranha da roupa dele, de uma província que se acha modelo e de um amanuense nomeado por ser bonito e saber dançar, que acaba na Academia de Letras.
O livro termina com uma série de notas soltas sobre o teatro, os jornais, os sábios e a indústria da Bruzundanga.
Nossa leitura
Esta parte é a nossa leitura do livro, não um fato do texto.
A Bruzundanga é o Brasil visto de fora, com os nomes trocados para que o leitor ria antes de se reconhecer.
O alvo de Lima Barreto é o mesmo de outros livros dele: o diploma que vale mais que o saber, a política feita por parentes e a pose de um país que se acha rico e trata mal o próprio povo.
A edição
O texto lido aqui é o de Os Bruzundangas, de Lima Barreto, Rio de Janeiro, Jacintho Ribeiro dos Santos, editor, 1922, segundo a folha de rosto, com o livro nas páginas 3 a 191.
Lemos o livro nas imagens do exemplar digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina do mesmo arquivo.
A grafia é a da edição ("paiz", "occupado", "praticas").
Leia o livro inteiro, na edição de 1922 de Jacintho Ribeiro dos Santos, digitalizada pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP. É dessa digitalização que saem os trechos citados aqui, copiados das imagens das páginas, com a grafia da edição. O acervo da Net Love tem este resumo, não o livro inteiro. A obra está em domínio público no Brasil.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Triste Fim de Policarpo Quaresma, Numa e a Ninfa, O Homem que Sabia Javanês, Recordações do Escrivão Isaías Caminha e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Lima Barreto. Os trechos citados vêm da edição de 1922 de Jacintho Ribeiro dos Santos: os trechos em bloco saíram das páginas 41, 77, 106 e 134, todos copiados da imagem da página e conferidos no texto reconhecido por máquina. As citações não trazem travessão de diálogo nem os termos de cor que o livro usa.
Continue em Resumos de Livros
- A Nova Califórnia, de Lima Barreto: o resumo do conto da cidade que quis fazer ouro1.216 palavras
- Numa e a Ninfa, de Lima Barreto: o resumo do romance do deputado e da ninfa1.089 palavras
- O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto: o resumo do conto do falso professor1.748 palavras



