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O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto: o resumo do conto do falso professor novo

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1.748 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 7 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Lima Barreto. A obra é dele e está em domínio público no Brasil; o autor morreu em 1922. O texto que lemos e citamos é o do volume de 1915 que trouxe o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma e, depois dele, alguns contos, entre eles este, nas páginas 287 a 297 (veja A edição, no fim).

Uma conversa na confeitaria

O conto é uma conversa entre dois amigos numa confeitaria, com cerveja na mesa.

Quem conta é Castelo, e quem ouve é o amigo Castro.

Castelo vinha contando as artimanhas que já usou para viver, como a vez em que, em Manaus, escondeu que era bacharel para ganhar a confiança dos clientes do escritório de feiticeiro e adivinho que mantinha lá.

Castro se admira de tanta aventura num Brasil que ele chama de imbecil e burocrático, e Castelo responde com outra história:

Imagina tu que eu já fui professor de javanez!

O Homem que Sabia Javanês, edição de 1915, página 288

E foi por isso, ele diz, que acabou nomeado cônsul.

O anúncio

Castelo tinha chegado havia pouco ao Rio e estava na miséria, fugindo de uma casa de pensão para outra sem saber como ganhar dinheiro.

Um dia leu no Jornal do Commercio este anúncio:

Precisa-se de um professor de lingua javaneza. Cartas etc.

O Homem que Sabia Javanês, edição de 1915, página 288

Pensou que ali não haveria muitos concorrentes.

Foi à Biblioteca Nacional, pediu uma enciclopédia na letra J e aprendeu que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa.

Copiou o alfabeto, andou pela cidade decorando as letras e escreveu os sinais na areia dos jardins para guardá-los na memória.

De manhã, já se achava sabendo o alfabeto inteiro.

Na saída, o encarregado da casa de pensão cobrou o aluguel atrasado.

Castelo respondeu que ia ser nomeado professor de javanês, uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor, e o homem, um português, esqueceu a dívida.

Animado, Castelo respondeu ao anúncio.

O velho barão

Dois dias depois chegou a resposta: ele devia procurar o doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, barão de Jacuecanga, na rua Conde de Bonfim.

Sem dinheiro para a passagem, Castelo foi a pé.

A casa era enorme, velha e mal cuidada, com retratos antigos na sala e um jarrão de porcelana de que ele gostou muito.

O barão chegou devagar, já muito velho e surdo, e Castelo sentiu vontade de ir embora: enganar aquele velho lhe pareceu um crime.

Hesitou, mas ficou.

Castelo disse que era de Canavieiras, na Bahia.

Quando o barão perguntou onde ele tinha aprendido javanês, inventou na hora que o pai era um marinheiro javanês que se estabelecera perto de Canavieiras como pescador.

Castro, que ouve tudo, pergunta se o velho acreditou, e Castelo responde que a aparência dele podia passar por mestiço de malaio.

O barão explicou por que queria aprender.

O avô dele, o conselheiro Albernaz, que acompanhou Pedro I quando o imperador abdicou, trouxe de Londres um livro numa língua esquisita, presente de um hindu ou siamês.

O avô contou ao filho que, segundo quem lhe dera o livro, escrito em javanês, ele evitava desgraças e trazia felicidade; disse que não sabia nada ao certo e pediu que o neto o entendesse.

O barão não tinha levado aquilo a sério, mas agora, velho, depois de tantos desgostos, tinha perdido os filhos e os sobrinhos, e só lhe restava uma filha casada, com um único filho de saúde frágil.

Precisava ler o livro.

O livro era um volume antigo, encadernado em couro, sem a folha de rosto.

Tinha umas páginas de prefácio em inglês, e foi por elas que Castelo soube que eram as histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês.

Contou isso ao barão, que não percebeu de onde vinha a informação e ficou admirado com o saber do professor.

As lições e as histórias inventadas

O barão não conseguia aprender nem quatro letras.

Em um mês, os dois tinham chegado à metade do alfabeto.

A filha, Dona Maria da Glória, e o genro, que era desembargador, acharam graça na ideia, e o genro passou a admirar abertamente o jovem professor.

Depois de dois meses, o barão desistiu de estudar e pediu que Castelo lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro.

Castelo confessa a Castro o que fez:

Sabes bem que até hoje nada sei de javanez, mas compuz umas historias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do chronicon.

O Homem que Sabia Javanês, edição de 1915, página 294

O barão ouvia aquilo como palavras de um anjo.

Levou Castelo para morar na casa, enchia o professor de presentes e aumentava o ordenado.

Quando recebeu uma herança de um parente esquecido que vivia em Portugal, atribuiu a sorte ao javanês, e Castelo quase acreditou também.

Do barão ao ministério

O medo de Castelo era aparecer alguém que soubesse a língua de verdade.

Mesmo assim, o barão o mandou com uma carta a um visconde, para que ele entrasse na diplomacia, e o visconde o encaminhou à Secretaria dos Estrangeiros.

Lá todos se admiravam: um homem que sabia javanês.

Só um funcionário o olhou com raiva e perguntou se ele sabia canaque, a língua que esse funcionário dizia saber.

O ministro também perguntou onde ele tinha aprendido, e Castelo repetiu a história do pai javanês.

O ministro achou que a aparência dele não servia para a diplomacia; o melhor seria um consulado na Ásia ou na Oceania, quando houvesse vaga.

Enquanto isso, Castelo ficaria adido ao ministério e representaria o Brasil num congresso de linguística em Bale.

Castelo resume para Castro a situação:

Imagina tu que eu até ahi nada sabia de javanez, mas estava empregado

O Homem que Sabia Javanês, edição de 1915, página 295

O velho barão morreu.

Deixou o livro ao genro, para que chegasse ao neto, e deixou a Castelo uma quantia no testamento.

A fama

Castelo tentou estudar as línguas da região, comprou livros e assinou revistas, mas, bem jantado, bem vestido e bem dormido, não aprendia nada.

E a fama crescia.

Gramáticos o consultavam, eruditos do interior lhe escreviam, e ele recusou uma turma de alunos.

A convite do Jornal do Commercio, escreveu um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna.

Castro pergunta como, se ele não sabia nada, e Castelo explica: descreveu a ilha com a ajuda de dicionários e livros de geografia, e depois citou o mais que pôde.

Uma vez, quase foi descoberto.

A polícia prendeu um marinheiro que só falava uma língua que ninguém entendia, e chamaram Castelo para traduzir.

Ele demorou a ir, e quando chegou o homem já estava solto: tinha se feito entender pelo cônsul holandês com meia dúzia de palavras em holandês.

O marinheiro era javanês.

O congresso e a volta

Na Europa, Castelo assistiu à abertura do congresso, viu que o tinham inscrito na seção de tupi-guarani e partiu para Paris.

Antes de ir, mandou publicar num jornal da cidade o próprio retrato e notas sobre a sua vida e as suas obras.

Quando ele voltou, o presidente do congresso lhe pediu desculpas pela seção errada, e Castelo prometeu mandar os seus trabalhos sobre o javanês, que até hoje não escreveu.

Acabado o congresso, mandou publicar trechos do que saiu no jornal de Bale em Berlim, em Turim e em Paris, onde ganhou um banquete.

Tudo isso custou perto de dez mil francos, quase toda a herança do barão.

No Rio, foi recebido no cais como glória nacional, e o presidente da República o convidou para almoçar.

Dentro de seis meses foi nomeado cônsul em Havana, onde ficou seis anos, e diz que vai voltar para lá para aperfeiçoar os seus estudos.

Castro acha tudo fantástico.

Castelo arremata dizendo que, se não estivesse contente, seria "Bacteriologista eminente", e chama o amigo para irem embora.

Nossa leitura

Esta parte é a nossa leitura do conto, não um fato do texto.

Castelo conta a fraude com graça e diz que foi perdendo os remorsos, e o conto não faz sermão contra ele.

Na nossa leitura, a sátira mira sobretudo quem acredita nele: o barão, o desembargador, o ministro, os gramáticos, os jornais, o congresso, a cidade que o aplaude no cais.

Nenhum deles chega a pôr à prova o javanês de Castelo, e a fama de saber uma língua rara basta para lhe abrir o emprego público e o consulado.

A edição

O texto lido aqui é o de Triste Fim de Polycarpo Quaresma, de Lima Barreto, Rio de Janeiro, Typ. Revista dos Tribunaes, 1915, segundo os dados do exemplar na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP (a folha de rosto não aparece na digitalização).

Esse volume traz o romance e, depois dele, sete contos; O Homem que Sabia Javanês ocupa as páginas 287 a 297.

Lemos o conto nas imagens dessa digitalização, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina do mesmo arquivo.

A grafia é a da edição ("javanez", "historias", "Castello").

O conto não está no livro Histórias e Sonhos, de 1920: conferimos o índice desse livro na mesma biblioteca, e ele não aparece lá.

Leia o conto inteiro, no volume de 1915 que traz também Triste Fim de Policarpo Quaresma, digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP; o conto está nas páginas 287 a 297. É dessa digitalização que saem os trechos citados aqui, copiados das imagens das páginas, com a grafia da edição. O acervo da Net Love tem este resumo, não o conto inteiro. A obra está em domínio público no Brasil.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Triste Fim de Policarpo Quaresma, Clara dos Anjos, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá e O Alienista.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o conto. A obra é de Lima Barreto. Os trechos citados vêm do volume de 1915 da Typ. Revista dos Tribunaes: os trechos em bloco saíram das páginas 288, 294 e 295, e as citações curtas entre aspas vêm também da página 297, todas copiadas da imagem da página e conferidas no texto reconhecido por máquina. As citações não trazem travessão de diálogo.