Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto: o resumo do rapaz que veio ao Rio para ser doutor novo
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Resumo escrito para o acervo Net Love em 3 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Lima Barreto. A obra é dele e está em domínio público no Brasil; o autor morreu em 1922. O texto que lemos e citamos é a transcrição da Wikisource em português, que declara como edição de referência a da Ática, de São Paulo, de 1995, uma página para a Breve notícia e uma para cada um dos catorze capítulos. A transcrição tem erros de digitação, e nós não os corrigimos. O romance fala de racismo; o resumo nomeia essa violência e não reproduz os insultos racistas que as personagens dizem. O livro lembra pessoas que foram escravizadas; a escravidão foi crime e violência contra pessoas, amparada pelas leis da época. No fim, uma personagem tira a própria vida; o resumo conta isso sem detalhe. Se você está sofrendo, o CVV atende pelo telefone 188, de graça, a qualquer hora. As figuras deste texto foram geradas por inteligência artificial em 2026.
A Breve notícia e o prefácio de Isaías
O livro abre com uma nota assinada por Lima Barreto, datada de 31 de dezembro de 1916.
Nela, Lima Barreto se apresenta como amigo do autor das memórias, Isaías Caminha, escrivão da Coletoria Federal de Caxambi, no Espírito Santo.
Conta que as Recordações começaram a sair na revista Floreal, no fim de 1907, que o livro depois foi impresso em Portugal, e que nesta segunda edição ele devolve ao texto o prefácio que Isaías tinha escrito.
O prefácio, datado de 1905, explica por que as memórias existem.
Isaías leu numa revista um artigo que dizia que as pessoas do nascimento dele brilham na infância e não dão nada na idade adulta.
Ele resolveu responder com a própria vida, para mostrar que a explicação estava em outro lugar.
a sentença geral que tirava, não estava em nós, na nossa carne e nosso sangue, mas fora de nós, na sociedade que nos cercava, as causas de tão feios fins de tão belos começos.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Breve notícia
No fim da nota, Lima Barreto conta o que aconteceu com o amigo dez anos depois: "Enviuvou sem filhos, enriqueceu e será deputado."
O menino que queria ser doutor
O capítulo 1 conta a infância de Isaías no interior.
O pai, como o livro conta aos poucos, é o vigário da freguesia, um homem culto que nunca pôde assumir o filho em público; a mãe é pobre e não tem o estudo do pai.
Isaías é um aluno brilhante, e a professora, D. Ester, lhe dá de presente um livro chamado "Poder da Vontade".
Terminado o curso secundário, ele passa dois anos ouvindo por dentro uma voz que manda: "Vai para o Rio!"
Um bando de patos que passa no céu em forma de V, a inicial de "Vai", decide a partida.
O tio Valentim, que trabalha no Correio, leva o sobrinho ao coronel Belmiro, que escreve uma carta de recomendação ao deputado Castro.
No caminho de volta, Isaías sonha com o diploma.
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor...
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 1
Na despedida, a mãe chora e não consegue terminar o conselho que começou a dar.
A viagem e o balcão da estação
No capítulo 2, numa parada do trem, Isaías pede o troco num balcão de café e ouve do caixeiro que ali não se rouba, enquanto um rapazola alourado ao lado recebe o dele com gentileza.
O contraste feriu-me, e com os olhares que os presentes me lançaram, mais cresceu a minha indignação.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 2
No Rio, ele se hospeda no Hotel Jenikalé, na praça da República, e conhece Laje da Silva, que diz ser dono de uma padaria em Itaporanga e conhece todos os jornalistas da cidade.
A carta que não vale nada
No capítulo 3, com Laje, Isaías conhece Raul Gusmão, jornalista cheio de pose, e o repórter Oliveira, de O Globo.
Depois vai à Câmara dos Deputados, onde assiste a uma sessão em que quase ninguém escuta quem fala.
Na saída, num café da rua do Ouvidor, Laje lhe apresenta o doutor Michaelowsky, um estrangeiro que diz escrever em dez línguas e que o livro chama ainda de Ivã Gregoróvitch Rostóloff.
No capítulo 4, ele procura o deputado Castro no hotel dia após dia, e o porteiro sempre responde que ele não está.
Um criado do hotel conta que o deputado mora de fato em Vila Isabel, numa casa onde Isaías é recebido por uma moça que não é a esposa.
Castro lê a carta com uma ruga na testa, diz que o país está em crise e recomenda que o rapaz o procure no escritório.
Na volta, no bonde, Isaías lê no jornal que o deputado parte naquele dia para São Paulo.
O dinheiro vai acabando, e ele começa a sentir que a cidade inteira o olha de cima.
A delegacia
No capítulo 5, há um furto no hotel: levaram cerca de seis contos do coronel Figueira, outro hóspede.
Isaías é intimado a ir à delegacia.
Lá, ouve um funcionário se referir a ele com um termo racista, e o delegado não acredita que ele seja estudante.
Era mais uma variante daquelas poucas humilhações que eu já sofrera; era o sentimento geral da minha inferioridade, decretada a priori, que eu adivinhei na sua pergunta.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 5
Quando o delegado o chama de ladrão, Isaías o chama de imbecil e vai para o xadrez.
As lágrimas correram-me e eu pensei comigo: A pátria!
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 5
No capítulo 6, depois de mais de três horas no xadrez, Isaías volta à presença do delegado, agora brando, que o manda embora quando ouve que ele conhece um jornalista de O Globo.
A recomendação dele é que Isaías saia daquele hotel e que não conte nada ao jornalista.

A procura de trabalho e a fome
O capítulo 6 começa com o Isaías mais velho, já escrivão, confessando que escrever o livro lhe faz mal e que não é literato.
De volta à história, o jovem Isaías decide lutar e responde a um anúncio para acompanhar um cesto de pão.
O dono do negócio olha para ele e diz que ele não serve, sem dar motivo.
Naquela recusa do padeiro em me admitir, eu descobria uma espécie de sítio posto à minha vida.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 6
No cais, desanimado, ele chega a sentir o mar como um convite, e segue andando.
No capítulo 7, vende os livros, recebe da mãe cinquenta mil-réis e se muda para uma casa de cômodos.
Ali conhece Abelardo Leiva, poeta de salão e revolucionário de café, que o leva aos lugares da boemia e ao Apostolado Positivista.
Por Leiva conhece Plínio de Andrade, que publica panfletos e ataca a imprensa.
Agostinho Marques, um antigo colega, dá a Isaías um bico de professor e secretário, mas viaja para o Norte, e a fome se agrava.
Chega uma carta do tio: a mãe está muito doente.
Nesse dia, Gregoróvitch o encontra na rua e o chama à redação de O Globo.
A redação de O Globo
O capítulo 8 é a primeira noite de Isaías na redação.
O diretor e dono do jornal é o doutor Ricardo Loberant, temido pelos poderosos e tirano com os empregados.
Em volta dele estão o redator-chefe Aires d'Ávila, o secretário Leporace, o crítico Floc, o gramático Lobo, o próprio Gregoróvitch e uma porção de repórteres.
Isaías vê o romancista Veiga Filho escrever a notícia que elogia a conferência que ele mesmo fez, para sair no jornal como se fosse de outro.
Era a Imprensa, a Onipotente Imprensa, o quarto poder fora da Constituição!
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 8
Contínuo
No capítulo 9, Isaías é contínuo do jornal: leva tinta aos tinteiros, papéis às mesas, recados à rua, e ganha cem mil-réis por mês.
Depois da fome, aquilo parece a salvação.
Considerei-me feliz no lugar de contínuo da redação do O Globo.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 9
Ele para de estudar, não abre mais livro e passa a ler só O Globo.
Leiva entra no jornal como repórter e começa a gritar com ele para que traga penas.
A fábrica de notícias
O capítulo 10 mostra como o jornal funciona por dentro.
Loberant combate o empréstimo da Prefeitura, e as quadrinhas de Losque, que acabam com o estribilho "e dinheiro não virá", são repetidas pela cidade inteira.
Então aparecem, em Santa Cruz, os corpos de um homem e de uma mulher assassinados.
A rua enche de gente diante dos boletins do jornal, e Loberant manda inventar detalhes para vender mais.
Adelermo era a imaginação do jornal, e em seus ombros recaía todo o peso da necessidade de informações imediatas ao público quando os documentos faltavam ou eram omissos.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 10
O título escolhido para a notícia é "Descampado da morte".
Um jovem médico, Franco de Andrade, propõe medições do corpo para descobrir a "raça" das vítimas, o jornal o elogia, e, na véspera da identificação das vítimas, ele é nomeado diretor do serviço médico-legal da polícia.
Depois de oito dias de investigação sem resultado, por acaso, a polícia descobre que os mortos eram um industrial italiano de Buenos Aires e a mulher dele, de passagem pelo Rio.
A lei dos sapatos e o motim
No capítulo 11, Isaías mora numa casa de cômodos no Rio Comprido, um antigo palacete dividido em dezenas de quartos, e é pela lavadeira, D. Felismina, que ele sabe da vida dos vizinhos.
É ela quem pergunta a ele se é verdade que vão obrigar todo mundo a andar calçado.
A lei, cuja aprovação pelo Conselho Municipal o capítulo 10 conta, obriga quem sai à rua a usar sapatos, e no capítulo 11 corre o boato de que o governo quer operar os pés grandes.
No capítulo 12, O Globo ataca a lei todos os dias, e a cidade explode.
Durante três dias há bondes queimados, barricadas na rua do Ouvidor e cargas de cavalaria.
Plínio morre num dos combates, e Isaías vê, quase em frente ao jornal, a morte de um pequeno vendedor de jornais, derrubado por uma carga de cavalaria.
As vociferações da minha gazeta tinham produzido o necessário resultado.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 12
Nesses mesmos dias, Isaías conta que a mãe tinha morrido dois meses antes, e que ele sentiu pouco, porque já começava a ter vergonha do próprio nascimento.

A vitória de Loberant e a morte de Floc
O capítulo 13 abre com o necrológio que o jornal publica de um homem tratado como grande colaborador e que, na verdade, era o cozinheiro particular do diretor.
O motim derruba a maior parte dos ministros, o prefeito e o chefe de polícia; a lei dos sapatos fica esquecida nas coleções legislativas, e o empréstimo fica prometido ao banqueiro que Aires d'Ávila favorecia.
Os empregados do jornal ganham cargos públicos: Leporace vai para as antiguidades egípcias do Museu Nacional, Leiva para o Tribunal de Contas.
Isaías, que via tudo de perto, conta o que isso fez com ele.
todas as coisas majestosas, todas as grandes coisas que eu amara, vinham ficando diminuídas e desmoralizadas.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 13
Uma noite, Floc volta do teatro Lírico e não consegue concluir a crônica.
Naquela noite, ele tira a própria vida na redação.
Mandam Isaías buscar Loberant numa casa de prostituição, e ele encontra o diretor e Aires d'Ávila em plena farra.
De contínuo a repórter
O capítulo 14 conta a mudança de vida de Isaías.
Loberant, envergonhado por ter sido visto, passa a conversar com ele e se espanta de saber que o contínuo tinha mãe, família e estudo.
Isaías vai para a expedição, com aumento, e depois vira repórter, cobrindo a Marinha e a Alfândega.
Um colega o insulta na portaria do ministério; Isaías o encontra depois na rua e bate nele, e Loberant gosta.
Daí em diante, os dois viram amigos íntimos, companheiros de passeios e noitadas, e o diretor lhe dá dinheiro sempre que saem.
Em algum momento desses anos, Isaías pede ao diretor ajuda para conseguir o lugar de escrivão, o mesmo que ocupa quando escreve as memórias; Loberant estranha, mas fala com o ministro e presta a fiança.
No passeio que fecha o livro, à ilha do Governador, com o diretor e uma moça italiana, Isaías se lembra da casa da mãe e se pergunta o que fez da própria inteligência.
Na volta, de carro, ele vê soldados levando presa uma mulher no largo da Lapa; ao chegar à casa da italiana, lembra que era a moça da casa do deputado Castro.
Ele recusa o convite da italiana para entrar e volta a pé, pensando.
Sentia-me sempre desgostoso por não ter tirado de mim nada de grande, de forte e ter consentido em ser um vulgar assecla e apaniguado de um outro qualquer.
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, capítulo 14
O livro termina quando ele encontra Loberant na rua, e o diretor sorri e o chama de "Tolo!"

Uma nota sobre o racismo no livro
O racismo é violência, e o livro mostra isso do começo ao fim: no balcão da estação, na delegacia, na recusa de emprego, nos comentários da redação.
Várias personagens dizem insultos racistas contra Isaías e contra Plínio de Andrade, e não reproduzimos os insultos aqui.
O próprio narrador, às vezes, descreve pessoas com palavras de cor e imagens que hoje reconhecemos como racistas.
O livro também ri da imprensa, da Câmara e dos literatos do tempo; essa sátira é do livro e do narrador, e o resumo a registra como do livro.
A transcrição
A Wikisource em português declara como edição de referência a da Ática, de São Paulo, de 1995, disponibilizada pela Biblioteca Virtual do Estudante, da USP.
Não comparamos a transcrição com o impresso de 1995 nem com as primeiras edições.
A grafia é a de antes da reforma de 1990, com trema ("freqüenta").
Na transcrição, o nome do jornal da cidade natal de Isaías e o da freguesia do pai ficam em branco.
O mesmo jornalista estrangeiro aparece com dois nomes, Michaelowsky e Gregoróvitch Rostóloff, e Plínio aparece como Plínio de Andrade e como Plínio Gravata; mantivemos os nomes como o livro os dá.
Lima Barreto tem outros dois livros na série, Triste Fim de Policarpo Quaresma e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá.
Leia o romance inteiro, na Wikisource em português, que declara como edição de referência a da Ática, de 1995. É dessa mesma transcrição que saem os trechos citados aqui, com a grafia dela. Recordações do Escrivão Isaías Caminha não está no acervo da Net Love. A obra está em domínio público no Brasil.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Triste Fim de Policarpo Quaresma, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, O Mulato, O Ateneu, Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Cortiço.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Lima Barreto. Os trechos citados vêm da transcrição da Wikisource em português, que declara como edição de referência a da Ática, de 1995: os trechos em bloco saíram da Breve notícia e dos capítulos 1, 2, 5, 6, 8, 9, 10, 12, 13 e 14, e as citações curtas entre aspas também foram conferidas no texto. As citações não trazem travessão de diálogo nem os insultos racistas do livro.
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