Iara, a mãe-d'água novo
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A Iara aparece nas fontes antigas com nomes e formas diferentes: uyara em João Barbosa Rodrigues, oiára em João Simões Lopes Neto, mãe-d'água em Gonçalves Dias e no próprio Simões Lopes Neto. Antes de todos eles, a carta em latim que o jesuíta José de Anchieta escreveu em São Vicente, em maio de 1560, já fala de seres da água. Na tradução deste verbete: há outros, nos rios, a que os índios chamam igpupiára, isto é, que moram na água, e que também matam os índios. Não longe dali, diz Anchieta, há um rio habitado por cristãos, que os índios atravessavam antigamente em canoas pequenas, feitas de um só tronco ou de casca, e onde muitas vezes eram afogados por eles, antes de os cristãos irem para lá. A carta não descreve a forma desses seres, nem diz se são homens ou mulheres; e é o olhar de um missionário, que os conta entre as aparições, ou antes demônios, que aterrorizam os índios.
Em O Selvagem, de 1876, Couto de Magalhães faz uma lista de seres que, na sua leitura das crenças tupis, protegem cada ordem da criação, e nela a sorte dos peixes fica com o Uauyará, um ser masculino que se transforma em boto. Nenhum dos seres sobrenaturais dos índios, escreve, forneceu tantas lendas à poesia americana: no Pará não haveria povoação do interior sem uma série de histórias, ora grotescas, ora melancólicas e ternas, em que ele é o herói.
João Barbosa Rodrigues, em 1890, lê o assunto ao contrário. Na introdução da Poranduba amazonense, põe a uyara, que define como sereia ou ondina, ao lado do boto, das bruxas montadas em cabos de vassoura e dos lobisomens, entre o que, segundo ele, os portugueses trouxeram para o Brasil, junto com vários contos. Ele mesmo diz ter publicado lendas da Uyara e do Boto na Revista Brazileira, em 1881. Para Barbosa Rodrigues, portanto, a sereia dos rios e o boto são heranças europeias aclimatadas aqui; para Couto de Magalhães, o Uauyará, que vira boto, é ser da tradição indígena.
Em verso, a figura aparece no poema A mãe d'água, de Gonçalves Dias, nos Últimos cantos, de 1851. É a elaboração de um poeta, em verso. Um menino chama a mãe para ver, no fundo da água, uma bela criatura de longos cabelos de ouro, com a trança nas mãos e um pente de marfim, e que parece sorrir para ele. A mãe responde que aquilo é a mãe d'água traidora, que ilude os meninos pequenos e desobedientes, e lembra quantas mães choram filhos perdidos por terem dado ouvidos à sombra enganosa que se vê dentro da água. A figura, a quem o poema chama de fada, oferece ao menino os seus palácios, os seus tesouros encantados e o seu reino de cristal, onde mil sereias lhe formam o séquito. O menino se atira na água; a mãe grita por ele, e só os ecos respondem.
Nas notas das Lendas do Sul, de 1913, João Simões Lopes Neto registra a Oiára, ou mãe-d'água, como um demônio macho-fêmea dos rios: um tapuio ou uma tapuia de rara beleza, que mora no fundo dos rios ou dos lagos, fascina quem cai em seu poder e o leva a se lançar na água. Quem não chega a se afogar e é retirado da água conta ter visto palácios encantados no fundo do rio, acompanhado por uma bela mulher, se é homem, ou por dois belos tapuios, se é mulher. Na volta à terra, as Oiáras soltam a vítima e voltam para o rio, mas deixam em seu lugar pequenos tapuios para guardar o enfermo, que devem impedir que outros espíritos da água se apoderem dele. Na nota de abertura do livro, o autor conta a oiára entre as lendas que chegaram ao Rio Grande do Sul do centro e do norte do Brasil, com os mamelucos paulistas, e que ali se apagaram no esquecimento.
Comparadas, as fontes não contam a mesma figura. Em Anchieta, seres sem forma descrita que afogam os índios nos rios; em Barbosa Rodrigues, uma sereia que ele atribui à herança portuguesa; em Gonçalves Dias, uma moça de cabelos de ouro que atrai uma criança; em Simões Lopes Neto, um ser que é macho e fêmea e que encanta homens e mulheres. Os palácios no fundo da água estão tanto no poema de 1851 quanto na nota de 1913.
Para conferir
- José de Anchieta, carta de São Vicente, maio de 1560, em latim, na Collecção de noticias para a historia e geografia das nações ultramarinas, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1812, tomo I, n. III, parágrafo XLVI, p. 161 e 162, no Internet Archive: os igpupiára, isto é, os que moram na água, que matam os índios, e o rio habitado por cristãos onde os índios se afogavam ao atravessar em canoas de um tronco ou de casca. A tradução do latim é deste verbete.
- José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, Typographia da Reforma, 1876, parte II, Família e religião selvagem, p. 137, no Internet Archive: a sorte dos peixes confiada ao Uauyará, que se transforma em boto, e as lendas dele no Pará.
- João Barbosa Rodrigues, Poranduba amazonense, Rio de Janeiro, Leuzinger, 1890, Advertência e introdução, p. III e notas, no Internet Archive: a uyara, sereia ou ondina, com o boto, as bruxas e os lobisomens entre o que os portugueses trouxeram, e as lendas da Uyara e do Boto publicadas na Revista Brazileira em 1881.
- Gonçalves Dias, A mãe d'água, em Ultimos cantos, Rio de Janeiro, Paula Brito, 1851, p. 47 a 57, no Wikisource, com o fac-símile: os cabelos de ouro e o pente de marfim, a mãe d'água traidora que ilude os meninos, as mães que choram filhos perdidos, a fada, os palácios, os tesouros e o reino de cristal, as mil sereias, o salto do menino e os ecos.
- João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, Pelotas, Echenique & C., 1913, Nota e nota 11, A Oiára, p. 90, no Wikisource, com o fac-símile: o demônio macho-fêmea, o tapuio ou a tapuia de rara beleza, o salto na água, os palácios encantados, a bela mulher ou os dois tapuios, os pequenos tapuios que guardam o enfermo contra os outros espíritos da água e a oiára vinda com os mamelucos paulistas.



