Rama, Sita e o arco de Shiva novo
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O Ramayana, o poema de Valmiki sobre o príncipe Rama, foi posto em versos ingleses por Ralph T. H. Griffith, então diretor do Colégio de Benares, numa edição publicada entre 1870 e 1874; ele escreve Ráma e Sítá. No livro I, o sábio Viśvámitra leva consigo Rama e o irmão Lakshmaṇ, filhos do rei Daśaratha, de Ayodhyá. Terminado um sacrifício, os eremitas que o acompanham propõem uma viagem: Janak, rei de Mithilá, prepara uma grande cerimônia, e lá Rama poderá ver um arco terrível, que nem deus, nem gigante, nem demônio consegue armar, e cuja corda os filhos de reis mais fortes tentaram esticar em vão. Nessa primeira descrição, no canto XXXIII, o arco foi dado pelos deuses a um rei de Mithilá como prêmio de um sacrifício e fica guardado no palácio, em óleo perfumado com aloés e incenso.
Em Mithilá, no canto LXVI, Janak conta outra origem. O arco era de Rudra, que uma nota citada por Griffith identifica com Shiva: ele o empunhou no sacrifício de Daksha e ameaçou despedaçar os deuses porque não lhe deram a sua parte; acalmado, devolveu inteiros os membros feridos, e desde então o arco ficou com os antepassados de Janak, nas mãos de um rei chamado Devarát, sexto descendente de Nimi. Janak conta também de onde veio Sita. Um dia, arando a terra, ele encontrou sob a relha uma criança que brotava do chão, e por esse nascimento a chamou Sita, palavra que, anota Griffith, quer dizer sulco. Prometeu a filha, que não nasceu de mulher, como prêmio do valor heroico. Muitos pretendentes vieram, nenhum conseguiu levantar o arco, e os rejeitados cercaram Mithilá por um ano, até que os deuses mandaram a Janak um exército em socorro. Se Rama armar o arco, diz o rei, Sita será dele.
A pedido do sábio, Janak manda trazer o arco. Cinco mil jovens empurram a caixa de ferro de oito rodas em que ele fica, e o rei repete que nem titã, nem deus, nem serpente consegue dobrá-lo: como um homem conseguiria? Rama abre a caixa, ergue o arco pelo meio, como quem brinca, diante de milhares de pessoas, e puxa a corda até o arco se partir em dois. O estalo soa como o grito das tempestades, a terra treme como quando um monte se racha, e o povo cai desmaiado; só o rei, os dois príncipes e o sábio aguentam o choque. Quando todos voltam a si, Janak declara que Sita, mais querida para ele que a luz e a vida, será mulher de Rama, e com a licença do sábio manda mensageiros a Ayodhyá. Eles viajam três noites, e Daśaratha decide partir no dia seguinte para Mithilá.
O casamento está no canto LXXIII. Com a ajuda de Viśvámitra e Śatánanda, Vaśishṭha, que veio com Daśaratha, arma o altar com flores, taças de concha, incensários e arroz tostado, e põe a oferenda no fogo. Janak toma Sita pela mão e a coloca diante do fogo, de frente para Rama, dizendo: aqui está Sita, minha filha, para dividir contigo os deveres da tua vida; recebe-a do pai, junta mão com mão; esposa fiel, ela te seguirá como a tua sombra. Enquanto ele a asperge com o orvalho sagrado, deuses e santos gritam que está bem. No mesmo rito Janak dá Urmilá a Lakshmaṇ, Mándavi a Bharat e Srutakírti a Śatrughna, os outros irmãos de Rama. Os noivos circundam o fogo, Janak, os sábios e o recinto sagrado. Cai do céu uma chuva de flores, e as ninfas dançam ao som da música celeste. Com a música ainda soando, os príncipes dão três voltas em torno do fogo e levam as noivas ao palácio que Janak preparou.
O próprio poema não conta o arco de um jeito só. Para os eremitas do canto XXXIII, ele foi presente dos deuses a um rei de Mithilá; para Janak, era de Rudra desde o sacrifício de Daksha. No canto LXXV, Paraśuráma, o outro Rama, filho de Jamadagni, que surge no caminho de volta para desafiar o príncipe, conta que o Artífice Celeste fez dois arcos: um foi dado a Shiva, que com ele matou Tripura, e é o que Rama quebrou; o outro, a Vishnu. Numa disputa entre os dois deuses, Vishnu prevaleceu, e Shiva, enfurecido, entregou o seu a Devarát. No livro II, canto CXVIII, a própria Sita conta a história à eremita Anasúyá com outros detalhes: uma voz do céu confirmou que a menina achada no sulco era filha do rei; o arco, a aljava e as flechas foram presente de Varuṇ ao avô dela, no tempo do grande rito de Daksha; Janak anunciou o que Griffith traduz por Bride's Election, a escolha da noiva; e, quando o arco se partiu, Janak ofereceu Sita a Rama com água pura, mas o príncipe só a recebeu depois de saber a vontade do pai.
Para conferir
- Ramayana de Valmiki, tradução em verso de Ralph T. H. Griffith, 1870-1874, folha de rosto e livro I, canto XXXIII, no Projeto Gutenberg: o tradutor e as datas, Viśvámitra com Rama e Lakshmaṇ, a proposta dos eremitas e o arco dado pelos deuses, guardado em óleo com aloés e incenso.
- Ramayana, tradução de Griffith, livro I, cantos LXVI a LXVIII, notas 245 e 246: Rudra no sacrifício de Daksha, Devarát, Sita achada no sulco e o sentido do nome, o cerco de Mithilá, a caixa de oito rodas, o arco partido, os mensageiros e a decisão de Daśaratha de partir.
- Ramayana, tradução de Griffith, livro I, canto LXXIII: o altar, as palavras de Janak ao dar Sita, as outras três noivas, as três voltas em torno do fogo e a chuva de flores.
- Ramayana, tradução de Griffith, livro I, cantos LXXIV e LXXV, nota 254: Paraśuráma, filho de Jamadagni, e os dois arcos do Artífice Celeste, o de Shiva e o de Vishnu.
- Ramayana, tradução de Griffith, livro II, canto CXVIII: Sita conta a Anasúyá a voz do céu, o arco de Varuṇ, a escolha da noiva e Rama que espera a vontade do pai.



