Amor é fogo que arde sem se ver
Amor he hum fogo que arde sem se ver;
He ferida que doe e não se sente;
He hum contentamento descontente;
He dor que desatina sem doer;
He hum não querer mais que bem querer;
He solitario andar por entre a gente;
He hum não contentar-se de contente;
He cuidar que se ganha em se perder;
He hum estar-se preso por vontade;
He servir a quem vence o vencedor;
He hum ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar póde o seu favor
Nos mortaes corações conformidade,
Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?
Para conferir
- Obras Completas de Luís de Camões, tomo II, edição de 1843: o texto do soneto e a grafia portuguesa de 1843 (he, hum, póde, mortaes), preservada sem modernização.
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