Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo he composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Differentes em tudo da esperança:
Do mal ficão as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que ja coberto foi de neve fria,
E em mi converte em chôro o doce canto.
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda ja como sohia.
Para conferir
- Obras Completas de Luís de Camões, tomo II, edição de 1843: o texto do soneto e a grafia da edição de 1843, com Mudão-se em vez de Mudam-se, preservada sem modernização.
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