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Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett: o resumo da viagem a Santarém e da história de Joaninha novo

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2.202 palavras

Resumo escrito para o acervo Net Love em 8 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Almeida Garrett. A obra é dele e está em domínio público; o autor morreu em 1854. Os trechos citados vêm da edição de 1846, em dois volumes, impressa em Lisboa (veja A edição, no fim). A história de Joaninha passa pela guerra civil portuguesa e tem mortes, um ferido grave e uma família destruída por um segredo, e o resumo conta tudo isso sem detalhe.

O livro

Viagens na Minha Terra mistura duas coisas.

Uma é a viagem do narrador de Lisboa a Santarém, contada com digressões sobre política, literatura, arte e o Portugal do seu tempo.

A outra é uma novela, a história da menina dos rouxinóis, que um companheiro de viagem conta ao narrador no vale de Santarém.

O narrador avisa várias vezes que vai parar a viagem para conversar com o leitor, e para mesmo: há capítulos inteiros de comentário.

O resumo segue as duas linhas do livro, a viagem e a novela de Joaninha e Carlos.

Para facilitar a leitura, juntamos a novela num trecho só, embora no livro ela seja interrompida pela chegada a Santarém, que vem antes do fim da história.

Segundo o prefácio dos editores da edição de 1846, a obra tinha saído antes em partes numa revista, e esta foi a segunda publicação, corrigida pelo autor, com notas.

A partida

O narrador conta que sai de casa numa segunda-feira, 17 de julho de 1843, para conhecer Santarém, a vila mais histórica do reino.

Toma em Lisboa, no Terreiro do Paço, o barco a vapor que sobe o Tejo até Vila Nova da Rainha.

No barco, assiste a uma discussão entre campinos, os homens do gado do Ribatejo, e ílhavos, pescadores e lavradores vindos de Aveiro.

Os campinos se gabam de pegar touros, e um ílhavo pergunta quem tem mais força, o touro ou o mar, com que eles brigam dias seguidos.

Os passageiros dão razão aos ílhavos.

Logo no segundo capítulo, o narrador diz que a sua viagem é um símbolo.

Para ele, a marcha da humanidade anda puxada por dois princípios, o espiritual, como Dom Quixote, e o material, como Sancho Pança, e o seu tempo é o reino de Sancho.

Pelo caminho

Em Vila Nova da Rainha, o narrador ganha lugar numa carruagem até a Azambuja, onde para numa estalagem pobre e suja e bebe uma limonada que ele mesmo chama de abominável.

Procura o pinhal da Azambuja, famoso pelas histórias de salteadores, e quase não acha mais pinheiros.

Faz o resto do caminho numa mula de aluguel.

No Cartaxo, entra no café da vila, conversa com o dono e passeia pela terra do vinho.

Depois vem a charneca, a planície de mato rasteiro entre o Cartaxo e Santarém, que o narrador diz preferir às paisagens mais bonitas:

Eu amo a charneca.

Viagens na Minha Terra, edição de 1846, volume I, página 73

Ali, um companheiro mostra o lugar onde Dom Pedro passou a última revista ao exército liberal, e o narrador fica triste ao lembrar a guerra entre portugueses.

Passam a ponte da Asseca e chegam ao vale de Santarém.

A janela do vale

No vale, o narrador repara numa janela antiga entre as árvores, ouve rouxinóis cantando e começa a imaginar um romance com uma moça de olhos pretos na janela.

Um companheiro corrige: os olhos eram verdes, e a janela é a da menina dos rouxinóis, que já não mora ali.

Os dois descem das mulas, e o companheiro conta a história.

A avó, Joaninha e Frei Dinis

Numa tarde de verão de 1832, uma velha está sentada à porta da casa, dobando uma meada.

É a avó, cega, que chama pela neta, Joaninha.

Joaninha tem dezesseis anos, é delicada e grave, e tem olhos verdes.

As duas vivem sozinhas; o outro neto, Carlos, primo e companheiro de infância de Joaninha, está longe.

Toda sexta-feira, quem vem à casa é Frei Dinis, o guardião do convento de São Francisco de Santarém, um frade velho, austero e duro.

Numa dessas visitas, ele conta à avó que Carlos está com os liberais que desembarcaram no Porto, na guerra contra Dom Miguel.

O frade amaldiçoa o rapaz, a avó desmaia, e ele vai embora sem olhar para trás.

O narrador conta então quem era o frade.

Antes de ser frade, ele se chamava Dinis de Ataíde, foi militar na guerra contra os franceses e depois magistrado, e em 1825, de repente, entrou para o convento.

Deu quase toda a sua fortuna à avó, cuja família tinha ficado pobre.

O filho e o genro da avó tinham morrido anos antes, e todos achavam que tinham se afogado no Tejo numa cheia.

Carlos estudava direito em Coimbra.

Quando volta para casa, num fim de verão, está mudado, enfrenta o frade e diz que vai embora, porque o pão daquela casa foi pago com um preço que ele não aceita.

Quando Carlos anuncia à avó que vai partir, o frade não diz nada:

Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.

Viagens na Minha Terra, edição de 1846, volume I, página 168

Carlos parte para a Inglaterra e depois para a ilha Terceira, onde estavam os liberais.

A avó chora três dias trancada no quarto e fica cega.

Joaninha passa a cuidar dela e nunca mais sorri para o frade.

Um dia o frade traz uma carta de Carlos.

A carta é só para Joaninha e não fala da avó; Joaninha, ao ler em voz alta, inventa um pedido de bênção para a avó, e o frade, em silêncio, agradece.

A guerra chega ao vale

Em outubro de 1833, o exército de Dom Miguel recua para Santarém, e a casa do vale vira o último posto militar dos realistas.

A avó se recusa a sair dali, e Joaninha fica com ela.

Os soldados dos dois lados passam a conhecer a moça que fica à janela ouvindo os rouxinóis e a chamam de menina dos rouxinóis.

Ela cuida dos feridos, e todos a respeitam.

Numa tarde de abril, Joaninha adormece num bosquezinho perto das sentinelas liberais.

O oficial liberal que chega com reforço para o posto é Carlos.

Ele a encontra dormindo, ela acorda, e os dois se abraçam.

Na volta, as sentinelas atiram contra o vulto que não reconhecem, e Carlos sai ferido de leve num braço.

Carlos e Joaninha se encontram de novo.

Ela diz que nunca vai amar outro homem.

Ele não consegue responder com a mesma franqueza, porque na Inglaterra amou uma inglesa, Georgina, e se sente preso a ela.

Joaninha percebe e diz que sabe que ele ama outra mulher.

Georgina e o segredo do frade

Pouco depois vêm os combates de Pernes e de Almoster.

Carlos sai muito ferido, é feito prisioneiro e vai parar numa cela do convento de São Francisco, em Santarém.

Quem cuida dele é Georgina, que veio a Portugal para encontrá-lo.

Quando ele se recupera, ela diz com calma que já não o ama, que sabe que ele ama Joaninha e que quer vê-lo casado com a prima.

Frei Dinis aparece e pede perdão a Carlos.

O exército realista está deixando Santarém, depois da derrota na Asseiceira.

Carlos o acusa de ter matado o seu pai e de ter cegado a avó, e, fora de si, chega a ameaçá-lo.

A avó e Joaninha entram e o detêm, e a avó revela o segredo: o frade é o pai de Carlos.

Frei Dinis conta o resto.

A mãe de Carlos o amou, e o marido dela e o pai de Joaninha o atacaram juntos, de noite, na charneca.

Ele se defendeu sem saber quem eram, e os dois morreram; só depois os reconheceu.

Contou a verdade à mãe de Carlos, que morreu de remorso, e depois à avó.

Carlos beija a mão do pai, abraça a avó e sai da cela.

Não volta.

Três dias depois, chega uma carta dele, escrita perto de Évora.

Santarém

A viagem continua.

O narrador chega a Santarém e fica hospedado na Alcáçova, onde teria sido o palácio de Dom Afonso Henriques.

Da janela, de manhã, vê o vale do Tejo e se emociona.

Nos dias seguintes visita igrejas, conventos, muralhas e portas antigas, ouve a lenda de Santa Iria, vê a relíquia do Santo Milagre e procura, sem achar, a tenda do Alfageme da Ribeira.

O que mais o fere é o abandono: igrejas usadas como palheiro e quartel, o túmulo de São Frei Gil vazio, o túmulo do rei Dom Fernando aberto a golpes por soldados.

Pelo caminho, ele também conta como, numa noite de 1834, Frei Dinis e dois frades dominicanos levaram o corpo de São Frei Gil para guardá-lo com as freiras de Santa Clara.

E diz o pouco que se soube depois do encontro na cela: Frei Dinis saiu de Santarém, e Georgina partiu para Lisboa levando a avó e Joaninha.

A carta de Carlos

Na volta para Lisboa, o narrador passa outra vez pelo vale, numa sexta-feira.

Encontra a avó dobando à porta, sem ver nem ouvir ninguém, e Frei Dinis, magro como um esqueleto, lendo ao lado dela.

O frade diz que Joaninha está no céu e dá ao narrador a carta de Carlos.

Na carta, Carlos conta a Joaninha a sua vida na Inglaterra.

Viveu perto de uma família com três irmãs, Laura, Júlia e Georgina.

Amou Laura, que estava prometida a um capitão e partiu para a Índia; depois amou Georgina; na Terceira, uma freira jovem tentou consolá-lo, e ele diz que não a amou.

Diz que, ao rever Joaninha, entendeu que era ela quem sempre tinha amado, mas que não tem mais um coração inteiro para lhe dar.

Pede pena, não perdão:

Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, anjo adorado da minha alma, tem compaixão de mim, não me maldigas.

Viagens na Minha Terra, edição de 1846, volume II, página 205

E se despede dizendo que talvez vá ser homem político, ou agiota.

O fim

Frei Dinis conta o que aconteceu depois.

Carlos engordou, enriqueceu, virou barão e logo vai ser deputado.

Joaninha enlouqueceu e morreu ali mesmo, na casa do vale, nos braços da avó e de Georgina.

Georgina se fez católica e é abadessa de um convento na Inglaterra.

A avó perdeu a razão no dia em que a neta morreu.

O frade diz ainda que frades e liberais erraram todos, e que a sociedade não pode voltar a ser o que foi.

O narrador o deixa assim, ao lado da avó:

A velha dobava sempre, sempre

Viagens na Minha Terra, edição de 1846, volume II, página 231

Ele dorme no Cartaxo, sonha com barões e com chuva de dinheiro de papel, e volta de vapor a Lisboa, onde termina a viagem e o livro.

Frades e barões

A ideia que liga as duas linhas do livro é a dos frades e dos barões.

O narrador diz que não gosta de frades, mas que o frade é mais poético do que o barão, o homem enriquecido que tomou o lugar deles depois da guerra.

Por isso o destino de Carlos pesa tanto: o rapaz que lutou pela liberdade acaba barão.

E Frei Dinis, que o narrador descreve como homem de princípios duros e sinceros, termina sozinho, cuidando da avó que não o reconhece mais.

A edição

O texto lido aqui é o de Viagens na Minha Terra, por J. B. de Almeida-Garrett, Lisboa, Typographia da Gazeta dos Tribunaes, 1846, em dois volumes, com a obra nas páginas 1 a 272 do primeiro volume e 1 a 233 do segundo.

O exemplar é o da Biblioteca Nacional Central de Roma, digitalizado e publicado no Internet Archive.

Lemos a obra no texto reconhecido por máquina desse arquivo, página por página, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido nesse texto.

A grafia é a da edição ("valle", "janella", "rouxinoes"); no resumo, os nomes vão na grafia de hoje.

O texto reconhecido por máquina tem muitos erros, e por isso só citamos frases em que ele bate letra por letra com a imagem.

Leia o volume I e o volume II, na edição de 1846, impressa em Lisboa pela Typographia da Gazeta dos Tribunaes, no exemplar da Biblioteca Nacional Central de Roma digitalizado e publicado no Internet Archive. É dessa digitalização que saem os trechos citados aqui, copiados das imagens das páginas, com a grafia da edição. O acervo da Net Love tem este resumo, não a obra inteira. A obra está em domínio público.

Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Os Lusíadas, Amor de Perdição, A Cidade e as Serras e Os Maias.


Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Almeida Garrett. Os trechos citados vêm da edição de 1846 da Typographia da Gazeta dos Tribunaes: os trechos em bloco saíram do volume I, páginas 73 e 168, e do volume II, páginas 205 e 231, todos copiados da imagem da página e conferidos no texto reconhecido por máquina. As citações não trazem travessão de diálogo.