Os Maias, de Eça de Queirós: o resumo do romance da família do Ramalhete
Resumo escrito para o acervo Net Love em 30 de setembro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Eça de Queirós. A obra é dele, saiu em 1888, em dois volumes, e está em domínio público no Brasil desde 1º de janeiro de 1971, setenta anos contados do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor, em 1900, como manda o artigo 41 da Lei 9.610 de 1998. O texto que lemos e citamos é a transcrição da Wikisource em português, feita da primeira edição (Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1888), uma página por capítulo. A grafia é a portuguesa de 1888, com formas como "Affonso", "Villaça" e "Olavia", e nós não a atualizamos. A primeira edição numera errado os capítulos do segundo volume, que pulam do IV para o VII; aqui usamos a numeração corrida, de 1 a 18, que as edições de hoje usam. O romance fala de um amor entre dois irmãos que não sabem que são irmãos; o resumo conta isso sem descrição. O vídeo é narrado com a voz de Rodrigo Soares, sintetizada por inteligência artificial com a autorização dele. As figuras deste texto e as imagens do vídeo foram geradas por inteligência artificial em 2026.
Uma casa e dois homens
O livro abre com a casa.
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.
Os Maias, capítulo 1
O nome é alegre, mas o narrador avisa que o Ramalhete é um "sombrio casarão de paredes severas".
E a família é pequena. Quando o narrador a apresenta, ela está assim:
e agora reduzida a dois varões, o senhor da casa, Affonso da Maia, um velho já, quasi um antepassado, mais edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra.
Os Maias, capítulo 1
Quando os dois vêm morar no Ramalhete, Carlos já está formado e volta de uma longa viagem pela Europa.
Onde está o pai dele?
O resto do primeiro capítulo e o segundo contam isso.

Pedro e a Monforte
Pedro da Maia é o filho único de Afonso.
Em Lisboa, ele se apaixona por Maria Monforte, loira, linda, cheia de joias, filha de um homem que tinha feito fortuna levando escravos.
A cidade logo arranja um apelido para ela.
As senhoras, deliciando-se em villipendiar uma mulher tão loira, tão linda e com tantas joias, chamaram-lhe logo a negreira!
Os Maias, capítulo 1
Afonso é contra o casamento.
Pedro casa assim mesmo.
Mais tarde, na volta de uma viagem, ele vai procurar o pai em Benfica e descobre que Afonso partiu para o campo dois dias antes.
Toma isso como desfeita, e entre pai e filho se faz, diz o livro, "uma grande separação".
O casal tem dois filhos: primeiro uma menina, Maria, e depois um menino, Carlos Eduardo, nome que a mãe tirou de um romance que andava lendo.
Um dia, numa caçada, a espingarda de Pedro dispara sem querer e fere um italiano, Tancredo, que ele leva para se tratar em casa.
O italiano fica, e passa a frequentar as noites do casal.
Pedro passa uns dias fora de Lisboa e, quando volta, encontra uma carta.
«É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que não sou digna de ti, e levo a Maria que me não posso separar d’ella.»
Os Maias, capítulo 2
Maria Monforte leva a filha e deixa o menino com a ama.
Pedro vai com o filho pequeno e a ama para a casa do pai, em Benfica, numa tarde de dezembro, de chuva forte.
Os dois se reconciliam.
De madrugada, Afonso ouve um tiro: Pedro se matou no quarto.
Afonso fecha a casa de Benfica e vai com o neto para a quinta de Santa Olávia, perto do rio Douro.
Carlos e o Ega
Carlos é criado pelo avô em Santa Olávia, com um preceptor inglês, o Brown.
Depois vai estudar Medicina em Coimbra, e lá o amigo mais íntimo é João da Ega, que tem monóculo, planos enormes e uma frase para tudo.
O narrador já avisa do que Carlos sofre.
Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo: e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um d’esses medicos litterarios que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer!
Os Maias, capítulo 4
Depois de formado, Carlos viaja pela Europa e, na volta, vai morar com o avô no Ramalhete.
Monta um consultório no Rossio e um laboratório, e pensa numa clínica, num livro, em experiências.
O livro diz que as ambições dele eram "intensas e vagas".
Em volta de Carlos gira uma roda de amigos que o livro desenha com humor: o velho poeta Alencar, o maestro Cruges, o inglês Craft, colecionador, e o Dâmaso Salcede, que se gaba de conhecer todo mundo.
Carlos tem um caso com a condessa de Gouvarinho.
Um passeio a Sintra com o Cruges termina, à noite, na estrada, com o maestro se lembrando de uma encomenda, na fala que fecha o capítulo 8: "Esqueceram-me as queijadas!"
A senhora do Hotel Central
Numa tarde, Carlos vai jantar com o Ega no Hotel Central.
Na porta, para uma carruagem, e desce dela uma senhora.
Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante d’elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d’ouro, e um aroma no ar.
Os Maias, capítulo 6
Logo depois, o Dâmaso conta que conhece o casal: são os Castro Gomes, "gente muito chic que vive em Paris".
O homem que passa por marido dela é o brasileiro Castro Gomes.
A senhora se chama Maria Eduarda.
Carlos não para de pensar nela.
Quando a filha pequena dela, Rosa, fica doente, é o Dâmaso quem leva Carlos ao hotel, como médico.
Castro Gomes viaja para o Brasil, e ela passa a morar numa casa da rua de S. Francisco.
É lá que ela chama Carlos para tratar da governanta inglesa, Miss Sarah, e ele começa a frequentar a casa.
Os dois se apaixonam.
No verão, ela vai para os Olivais, para uma casa com quinta que Carlos aluga do Craft.
A partir daqui o resumo conta o desfecho. Se você prefere chegar lá sem saber, pare neste parágrafo.
O que Castro Gomes conta
Castro Gomes volta a Lisboa e procura Carlos.
Conta, com calma, que Maria Eduarda não é mulher dele.
O que importa agora é que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprestára; e ella fica apenas com o seu, que é Madame Mac-Gren.
Os Maias, capítulo 14
Carlos se sente enganado e vai tirar satisfação.
Ela conta a sua história: viveu com um homem chamado Mac-Gren, o pai de Rosa, que ia casar com ela e morreu na guerra contra os alemães.
Ficou sem recursos, com a filha e a mãe doente, e depois foi viver com Castro Gomes.
Carlos perdoa, e faz a pergunta: "Maria, queres casar commigo?"
Os dois planejam partir para a Itália no fim de outubro e casar lá.
Depois, a conselho do Ega, Carlos decide esperar, para poupar o avô.
Os papéis do senhor Guimarães
Em Lisboa está de passagem o senhor Guimarães, tio do Dâmaso, que vive em Paris.
Numa noite, depois de um sarau no Teatro da Trindade, ele alcança o Ega na rua e conversa com ele sobre a mãe de Carlos, que conheceu em Paris, e sobre uma caixa de papéis que ela deixou com ele.
Quer que a caixa volte para a família, e na mesma noite a entrega ao Ega, na porta do hotel onde está.
Quando ele fala na irmã de Carlos, o Ega pergunta que irmã, e o Guimarães se espanta.
A que irmã!? Á irmã d’elle, á unica que tem, á Maria!
Os Maias, capítulo 16
Anos antes, o avô tinha contado a Carlos que a mãe morrera em Viena e que a irmã pequena também tinha morrido, e Carlos acreditava nisso.
O Guimarães explica que a menina que morreu era outra, filha do italiano.
Entre os papéis da Monforte há uma declaração escrita para a filha.
Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria Calzaski, por suppôr ser esse o nome de seu pai, é portugueza e filha de meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a commigo para Vienna, depois para Paris
Os Maias, capítulo 17
Maria Eduarda é a menina que a Monforte levou.
É irmã de Carlos.
E nenhum dos dois sabia.

O avô
O Ega passa a noite sem coragem de contar e vai procurar o Vilaça, o procurador da família.
Quem dá a notícia a Carlos é o Vilaça, e depois o Ega conta, em detalhe, a conversa com o Guimarães.
Afonso entra no quarto, e Carlos lhe entrega a declaração da mãe.
E, mesmo sabendo que ela é sua irmã, Carlos continua a passar as noites com ela, sem contar nada.
Afonso também sabe, e manda verificar.
Numa noite, aparece de castiçal na mão na porta do quarto do Ega e pergunta: "O Carlos? esteve lá?"
Na manhã seguinte, é encontrado no jardim do Ramalhete, sentado num banco, tombado sobre a mesa de pedra.
Alli morrera solitariamente, já o sol ia alto, n’aquella tosca mesa de pedra onde deixára pender a cabeça cansada.
Os Maias, capítulo 17
Carlos repete para si uma frase só: "O avô sabia tudo, d’isso morrera!"
O Ega tenta tirar esse peso dele e lembra que o avô tinha "quasi oitenta annos, e uma doença de coração".
Depois, porque Carlos não consegue, é o Ega quem escreve o bilhete a Maria Eduarda, dizendo que Afonso morreu de repente, de uma apoplexia.
A partida
Carlos vai para Santa Olávia, e é o Ega quem vai à casa de Maria Eduarda.
Ele fala do parentesco e deixa com ela a declaração da mãe, para ela ler depois que ele sair.
Ela parte para Paris, de trem, com a filha e a governanta, num vagão fechado, da estação de Santa Apolônia.
O Ega, que também vai para Santa Olávia, embarca no mesmo trem e se despede dela no Entroncamento.
E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, á portinhola d’aquelle wagon que para sempre a levava.
Os Maias, capítulo 17

Quase dez anos depois
Carlos e o Ega viajam juntos, para Londres, a América do Norte e o Japão.
O Ega volta, e Carlos fica morando em Paris.
No começo de 1887, depois de "um exilio de quasi dez annos", Carlos vem a Lisboa.
Conta ao Ega que Maria Eduarda escreveu: vai se casar com um francês, Mr. de Trelain.
Os dois vão ver o Ramalhete, onde a família já não mora; os móveis do salão estão embrulhados em lençóis.
Na conversa, o Ega resume tudo.
Falhámos a vida, menino!
Os Maias, capítulo 18
Os dois conversam e chegam ao que chamam de teoria definitiva da existência.
Aí percebem que estão atrasados para um jantar no Hotel Bragança, às seis, e veem ao longe um americano, o bonde da época.
Já apressando o passo, Carlos repete a teoria.
Com effeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ancia para coisa alguma...
Os Maias, capítulo 18
E o livro termina assim:
Então, para apanhar o «americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
Os Maias, capítulo 18
A última frase, como ela é
A última frase do romance é a que está acima, no capítulo 18, e o verbo é "romperam a correr".
Antes dela, os dois repetem "Ainda o apanhamos!".
O livro escreve "americano" entre aspas.
Era o nome que se dava então ao carro puxado sobre trilhos, o nosso bonde, e isso é informação nossa, não do livro.
Uma nota sobre 1888
O subtítulo do livro, na folha de rosto, é Episódios da Vida Romântica.
O romance pode ser lido como uma sátira da Lisboa rica do seu tempo: os jantares, as corridas de cavalos, os jornais, a política, os saraus.
E o próprio Carlos chega ao fim concordando com o Ega que os dois falharam.
O livro traz marcas de 1888.
A Monforte é chamada de "negreira" pelas senhoras de Lisboa, o criado do casal na porta do hotel é identificado pela cor da pele, e o antiquário Abrahão aparece como o "velho judeo".
Registramos isso como está no texto, sem corrigir as palavras.
Carlos e Maria Eduarda se apaixonam sem saber que são irmãos.
O parentesco escondido dá à história de amor um peso de tragédia, e este resumo conta essa parte sem descrição.
Por que ler hoje
Porque a cena do fim continua a dar o que pensar.
Depois de afirmarem que não vale a pena se esforçar por nada, Carlos e Ega correm desesperados atrás de um bonde.
A cena permite ler com ironia a teoria que os dois acabaram de formular, e cada leitor decide o que ela diz sobre a própria vida.
Leia o romance inteiro, na transcrição publicada pela Wikisource em português, feita da primeira edição, de 1888, com os 18 capítulos em páginas separadas. É dessa mesma transcrição que saem os trechos citados aqui, na grafia portuguesa da época. Os Maias não está no acervo da Net Love. A obra está em domínio público no Brasil desde 1971.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são O Primo Basílio, A Cidade e as Serras, Dom Casmurro, Quincas Borba e Os Lusíadas.
Transcrição do vídeo
Eu sou o Rodrigo Soares, e em três minutos eu te conto Os Maias, o romance de Eça de Queirós de mil oitocentos e oitenta e oito, sobre uma família portuguesa.
Aviso que no fim eu conto o desfecho.
No outono de mil oitocentos e setenta e cinco, os Maias vêm morar em Lisboa, num casarão de paredes severas que todos chamam de Ramalhete.
A família está reduzida a dois homens, o avô, Afonso da Maia, e o neto, Carlos.
O livro volta ao passado.
Pedro, o filho de Afonso, se apaixona por Maria Monforte, loira e linda, filha de um negreiro, e casa contra a vontade do pai.
O casal tem primeiro uma menina, depois um menino.
Um dia, Maria Monforte foge com um italiano, Tancredo, e leva a filha.
Pedro chega à casa do pai com o menino, numa tarde de chuva forte, e de madrugada se mata com um tiro.
Afonso vai viver com o neto em Santa Olávia.
Carlos cresce com o avô e se forma em Medicina em Coimbra, onde o amigo íntimo é João da Ega.
Em Lisboa, monta consultório e laboratório, com ambições que o livro chama de intensas e vagas.
Ao chegar ao Hotel Central, Carlos vê descer de uma carruagem uma senhora alta e loura, com passo de deusa.
O Dâmaso diz que conhece o casal, os Castro Gomes, gente muito chique que vive em Paris.
Ela é Maria Eduarda, e passa por mulher do brasileiro Castro Gomes.
Carlos é chamado como médico, para a filha dela e para a governanta.
Os dois se apaixonam, e ela passa o verão nos Olivais.
Até que o próprio Castro Gomes procura Carlos e conta que ela não é mulher dele, e que o nome dela é Madame Mac-Gren.
Carlos se sente enganado, mas ouve a história dela, e pergunta, Maria, queres casar comigo?
Os dois combinam casar e partir para a Itália.
Numa noite, o senhor Guimarães, tio do Dâmaso, fala ao Ega da irmã do Maia, e entrega a ele uma caixa de papéis da Maria Monforte, com uma declaração da mãe.
Maria Eduarda é a menina que a mãe levou, é irmã de Carlos, e nenhum dos dois sabia.
Quem conta a Carlos é o procurador, Vilaça, porque o Ega não tem coragem.
Carlos resiste, e, mesmo sabendo, ainda volta a passar a noite com ela, que de nada sabe.
Numa manhã, o avô é encontrado morto no jardim, junto a uma mesa de pedra.
Carlos segue para Santa Olávia, e o Ega deixa com Maria Eduarda a declaração da mãe.
Ela parte de trem para Paris, com a filha, e o Ega, no mesmo trem, se despede dela no Entroncamento e nunca mais a vê.
Quase dez anos depois, Carlos volta de Paris e visita com o Ega o Ramalhete deserto, e o Ega diz, falhámos a vida, menino.
Os dois concluem que não vale a pena correr para nada, e logo correm, desesperados, atrás do americano, o bonde da época.
Os Maias está em domínio público, e o resumo está no Net Love.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Eça de Queirós. Os trechos citados vêm da transcrição da Wikisource em português, feita da primeira edição de 1888, e saíram dos capítulos 1, 2, 4, 6, 14, 16, 17 e 18, na numeração corrida de hoje. A grafia da fonte é a de 1888 e não foi atualizada. As citações não trazem travessão de diálogo. A nota sobre 1888 foi escrita aqui e não cita nenhum crítico.
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