Perséfone, a que volta na primavera novo
Perséfone é filha de Deméter e Zeus. A mãe cuida do grão que vira pão; o pai governa o céu. A filha acaba repartida entre a terra que floresce e o lugar para onde vão os mortos. No começo da história, ela colhe flores com outras moças. Estende as mãos para um narciso e o chão se abre. A passagem de um mundo ao outro começa ali, no meio de um gesto pequeno.
Hades a rapta, com o consentimento de Zeus. Deméter exige a filha de volta e impede a terra de produzir. A fome obriga os deuses a negociar, mas a romã comida embaixo prende Perséfone àquele reino. Há versões: no Hino Homérico, Hades oferece uma semente às escondidas, e ela relata que foi forçada; em Ovídio, come sete sem saber a consequência. O acordo também muda. No Hino, passa um terço do ano embaixo; em Ovídio, metade com a mãe, metade com o marido. A volta traz o reencontro e a terra florida: a separação entra no calendário.
Perséfone é também rainha do mundo de baixo. Tem honras próprias e poder ao lado de Hades. No Hino, quem despreza esse poder fica sujeito a castigo. O rapto faz parte da história dela, mas não esgota quem ela é. A moça que chama pela mãe ocupa também um trono diante dos mortos. Não cabe só no papel de vítima, nem vira vilã por governar um lugar que os vivos temem.
O nome Perséfone quase não aparece na conversa de todo dia. O que ficou mais perto de nós foi a história que acompanha a primavera: a filha retorna, a mãe a recebe, a terra volta a dar. Em Elêusis, as duas estavam ligadas aos Mistérios, ritos cujo conteúdo os participantes deviam guardar em segredo. O Hino aproxima o destino dos mortos daquelas cerimônias. A mesma deusa reúne a alegria do broto e a pergunta sobre o que vem depois.
Para conferir
- Hino Homérico a Deméter, versos 1 a 39, 301 a 469 e 473 a 482: rapto, fome, romã, divisão do ano, primavera e ritos de Elêusis.
- Ovídio, Metamorfoses, livro V, versos 341 a 571: rapto de Prosérpina, sete sementes de romã e divisão do ano em duas metades.



