Väinämöinen e o Sampo novo
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O Kalevala é a epopeia que o médico Elias Lönnrot montou com os cantos populares que recolheu em viagens pela Finlândia e pela província de Arcângel. Segundo o prefácio de John Martin Crawford, que o traduziu para o inglês em 1888, a primeira edição saiu em 1835, e a segunda, de 1849, chegou à forma madura, com cinquenta runas. Este verbete segue Crawford e confere alguns trechos com a tradução de W. F. Kirby, de 1907. Crawford escreve o nome do herói como Wainamoinen, e a terra do Norte como Pohyola; aqui se usam as formas de Kirby, Väinämöinen e Pohjola. No glossário, Kirby define o Sampo como um moinho mágico de grão, de sal e de moedas; no prefácio, Crawford o chama de talismã do sucesso e diz que é evidentemente o velocino de ouro dos argonautas, comparação que é dele, não do poema.
Na runa X, Väinämöinen volta para casa depois de ter prometido o ferreiro Ilmarinen como resgate, para salvar a própria vida em Pohjola, que Crawford chama também de Sariola; Kirby resume a promessa na introdução: a senhora de Pohjola, Louhi, ofereceu a filha a quem forjasse o Sampo, e Väinämöinen disse que não sabia fazê-lo, mas mandaria o irmão Ilmarinen. Ilmarinen se recusa a ir. Väinämöinen então lhe fala de uma árvore florida com a lua e a Ursa Maior nos galhos, que ele mesmo tinha feito crescer cantando, e o convida a subir para buscá-las; quando o ferreiro está lá em cima, Väinämöinen canta um vento de tempestade que o leva pelos ares até Pohjola. Louhi pede o Sampo e promete a filha como paga. Ilmarinen não acha forja e constrói uma sobre uma pedra de cores de arco-íris. Do fogo saem, um a cada dia, um arco, um barco, uma novilha e um arado, todos belos e todos de má índole, e ele os quebra e os devolve ao fogo. Põe então os ventos para soprar os foles, e na terceira noite sobe do fundo da fornalha o Sampo, de tampa colorida: de um lado mói farinha, de outro faz sal, de um terceiro cunha dinheiro. Louhi o guarda na montanha de cobre, atrás de nove fechaduras, com raízes que descem nove braças. A moça não quer se casar, e Ilmarinen volta para casa sem noiva.
Na runa XXXIX, Väinämöinen propõe a Ilmarinen ir buscar o Sampo. O ferreiro prefere o caminho por terra e forja para o companheiro uma espada de fogo; no caminho, os dois encontram na praia um barco que chora porque nunca foi à guerra. Väinämöinen o põe na água e, cantando, o enche de gente; nem os rapazes, nem as moças, nem os velhos conseguem fazê-lo andar, até que Ilmarinen pega os remos. Num promontório, Lemminkainen, que Crawford também chama de Kaukomieli e de Ahti, pede para ir junto como terceiro herói. Na runa XL, o barco encalha no dorso de um lúcio enorme. Lemminkainen golpeia a água e cai nela; Ilmarinen quebra a própria espada; Väinämöinen mata o peixe com a espada de fogo. Dos ossos da queixada, depois do banquete, ele mesmo faz uma harpa, que Kirby chama de kantele, a harpa finlandesa, como explica no glossário.
Na runa XLII, os três chegam a Pohjola. Väinämöinen diz a Louhi que vieram dividir o Sampo; ela responde que ninguém divide uma perdiz com três heróis, e ele avisa que, se ela não dividir, eles o levarão à força. Louhi chama os guerreiros; Väinämöinen toca a harpa de osso de peixe até que todo o Norte adormeça e, com flechas de sono tiradas de uma bolsa de couro, fecha as pálpebras dos que dormem. Diante da montanha, o canto dele faz tremer as portas; Ilmarinen unta as fechaduras e as dobradiças, com manteiga e toucinho na tradução de Kirby, e as portas se abrem. Lemminkainen se gaba de que vai trazer o Sampo e não consegue movê-lo, porque as raízes descem nove braças. Usam então um boi gigantesco de Pohjola para arar em volta das raízes, e o Sampo se solta. As traduções divergem no tamanho dos chifres do boi: sete braças em Crawford, uma em Kirby. Na volta, Väinämöinen não quer cantar antes de chegar em casa. No terceiro dia, Lemminkainen canta, e canta tão mal que um grou se assusta e voa gritando até Pohjola, onde acorda o povo. Louhi encontra as fechaduras quebradas e o Sampo levado e manda contra o barco um nevoeiro, que Väinämöinen desfaz com a espada; depois Iku-Turso, o monstro do mar, que Väinämöinen ergue pelas orelhas e solta quando ele promete não voltar; e por fim a tempestade de Ukko, que arranca do barco a harpa e a leva para o fundo, para alegria do povo do mar.
Na runa XLIII, Louhi vem atrás num navio de guerra com cem espadachins e mil arqueiros. Väinämöinen lança na água pedaços de isca de acender fogo e faz subir um recife, onde o navio dela se despedaça. Louhi faz então de si mesma uma águia monstruosa: foices viram garras, o casco vira o corpo, e os guerreiros vão nas asas e na cauda. Pousa no mastro, e Väinämöinen lhe pergunta pela última vez se ela aceita dividir o Sampo no promontório da névoa; ela recusa. Lemminkainen fere as garras dela com a espada, Väinämöinen a golpeia com o leme, e os guerreiros dela caem ao mar. Mesmo assim, Louhi arrasta o Sampo para a água, onde ele se parte. Parte dos pedaços fica no fundo e faz a riqueza do mar (os maiores, diz Kirby); outros, as ondas levam até a praia, e Väinämöinen se alegra, porque deles virá a semente da boa sorte. Louhi ameaça mandar geada, granizo, o urso e nove doenças, e ele responde que só Deus tem poder para banir um povo. Aqui as traduções voltam a divergir. Em Crawford, Louhi leva para casa a tampa e deixa o cabo no mar; em Kirby, leva só um pequeno fragmento da tampa, e em Kirby também é num lago, não no mar, que o Sampo se quebra. Nas duas, daí vem a pobreza de Pohjola. Väinämöinen recolhe os fragmentos na praia da ilha da névoa (Kirby diz que os semeia) e pede ao Criador paz, felicidade e fartura para a terra de Kalevala.
Para conferir
- Kalevala, compilado por Elias Lönnrot, tradução de John Martin Crawford, 1888, prefácio, no Projeto Gutenberg (ebook 5186): Lönnrot e as viagens de coleta, as edições de 1835 e de 1849 com cinquenta runas, o Sampo como talismã do sucesso e a comparação com o velocino de ouro, que é de Crawford.
- Kalevala, tradução de Crawford, runa X, no Wikisource: Ilmarinen prometido como resgate, o abeto com a lua e a Ursa, o vento que o leva a Pohjola, a forja, o arco, o barco, a novilha e o arado, o Sampo que mói farinha, sal e dinheiro, as nove fechaduras e as raízes, e a recusa da filha de Louhi.
- Kalevala, tradução de Crawford, runa XXXIX, no Wikisource: a proposta de ir buscar o Sampo, a espada de fogo, o barco que chora, os remadores e Lemminkainen como terceiro herói.
- Kalevala, tradução de Crawford, runa XL, no Wikisource: o barco preso no dorso do lúcio, Lemminkainen na água, a espada quebrada de Ilmarinen, o peixe morto por Väinämöinen e a harpa feita da queixada dele.
- Kalevala, tradução de Crawford, runa XLII, no Wikisource: a conversa com Louhi, a harpa que faz dormir, as flechas de sono, as portas abertas, as raízes, o boi e o arado, o canto de Lemminkainen e o grou, o nevoeiro, Iku-Turso e a tempestade que leva a harpa.
- Kalevala, tradução de Crawford, runa XLIII, no Wikisource: o navio de Louhi, o recife, a águia, a última recusa, o Sampo partido no mar, as ameaças de Louhi, a tampa levada e o cabo deixado no mar, e a prece de Väinämöinen.
- Kalevala, tradução de William Forsell Kirby, 1907, introdução, no Wikisource: a grafia Väinämöinen e Pohjola e o resumo da runa VII: Louhi oferece a filha a quem forjar o Sampo, e Väinämöinen promete mandar Ilmarinen.
- Kalevala, tradução de Kirby, glossário: o Sampo como moinho mágico de grão, de sal e de moedas, e o kantele como a harpa finlandesa.
- Kalevala, tradução de Kirby, runa 42: as fechaduras untadas com manteiga e as dobradiças com toucinho, e o boi de chifres de uma braça.
- Kalevala, tradução de Kirby, runa 43: o Sampo quebrado num lago, os pedaços maiores no fundo, o pequeno fragmento da tampa levado por Louhi e os pedaços semeados por Väinämöinen.



