Cidades Mortas, de Monteiro Lobato: o resumo do livro das cidadezinhas paradas no tempo novo
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Resumo escrito para o acervo Net Love em 8 de outubro de 2026. A apresentação, os comentários e a organização em blocos são nossos, de 2026, e não são de Monteiro Lobato. A obra é dele e está em domínio público no Brasil; o autor morreu em 1948. O texto que lemos e citamos é o da terceira edição, de 1921, da editora Monteiro Lobato & Cia. (veja A edição, no fim). O livro usa, em várias peças, palavras de desprezo contra pessoas negras e pobres; o resumo não as reproduz.
Itaóca, em toda parte
O livro abre com uma nota curta, sem título, sobre a cidade inventada onde se passam muitas das histórias:
Coitadinha de Itaóca!
Cidades Mortas, edição de 1921, página 1
A nota diz que Itaóca está em toda parte onde uma cidadezinha vive parada diante de um coronel, de um vigário e de uma partida de truco, e que ela vive do passado, sonhando com a estrada de ferro que não vem.
Cidades mortas
A primeira peça, que dá nome ao livro, não é um conto: é um retrato das cidades do chamado Norte do estado de São Paulo, que tinham sido ricas e agora morriam.
Para Lobato, o progresso no Brasil é nômade, um "progresso de cigano", que esgota a terra e vai embora:
Emigra, deixando atrás de si um rastilho de taperas.
Cidades Mortas, edição de 1921, página 3
Nas cidades ficam os casarões decadentes, o teatro em ruínas, as moças à janela esperando um marido que não vem, e só o estafeta do correio liga o lugar ao mundo.
No campo, a terra esgotada pelo café virou sapé e saúva, e as fazendas parecem conventos:
O dono está ausente.
Cidades Mortas, edição de 1921, página 5
A peça termina com um isolador de louça esquecido no alto de um poste, lembrança do tempo em que a riqueza passou por ali antes de seguir para o oeste.
As outras peças
Coisas do meu diario. Fragmentos sobre Oblivion, outra cidadezinha esquecida pelo telégrafo e pela ferrovia, com os poucos que leem jornal, os três livros que todos leram e releram, o porteiro do teatro e outras figuras do lugar.
Cavallinhos. Um rapaz vai sozinho ao circo que o encantava na infância e descobre que o encanto tinha acabado, porque a beleza das coisas estava nele.
Grammatica viva. O vigário de Itaóca prepara a casa para receber um visitante importante, que se revela um farmacêutico prático à procura de um lugar para abrir botica.
Noite de S. João. A festa junina: a fogueira, os fogos, a sanfona e um poeta de frases feitas tentando conquistar uma moça.
Pedro Pichorra. Um menino que voltava sozinho ao escurecer foge de um saci que era só uma moringa com um vaga-lume em cima, e o apelido que o pai lhe põe passa para a família inteira.
As seis decepções. Três irmãos vão à cidade, cada um querendo uma diversão diferente, brigam no caminho e voltam para casa sem nada.
Cabellos compridos. Das Dores, moça boazinha, tenta seguir o conselho de um padre de pensar em cada palavra da oração e se perde nas próprias divagações.
Um avó. O narrador lembra um antepassado esperto, que fugiu de Portugal disfarçado, vendeu relíquias falsas e virou agiota.
O Resto de Onça. Numa conversa sobre contos, um amigo que voltava do sertão conta a caçada em que um caçador foi atacado por uma onça e salvo por um cachorro.
Porque Lopes se casou. Lucas descreve ao amigo Lopes as misérias do casamento, e Lopes, indeciso, casa-se mesmo assim.
O caso do tombo. Um juiz conta o primeiro júri de uma Itaóca à beira-mar em vinte anos, para julgar um bêbado que derrubou um vereador, e como os jurados acabaram fugindo pela janela.
Gens ennuyeux. Uma conferência científica numa sociedade da cidade, contada pelo tédio de quem assiste.
O figado indiscreto. Um noivo tímido, que detesta fígado, esconde no bolso o que não consegue comer num jantar, e o segredo aparece na pior hora.
O plagio. Um amanuense copia num conto a frase final de um romance esquecido, recebe elogios só por ela e vive com medo de ser descoberto, até esquecer o caso.
Ernesto engordou. Já é major. Tem seis filhos.
Cidades Mortas, edição de 1921, página 67
O romance do Chopim. Uma professora conta às colegas, como um folhetim, o romance que o marido estaria escrevendo; o romance, revela o narrador, era o filho do casal.
O romance do chopim tem hoje onze annos.
Cidades Mortas, edição de 1921, página 73
O luzeiro agricola. Um poeta sem dinheiro vira inspetor agrícola. O ministro manda queimar o relatório que ele escreve sobre a beldroega; com outro ministro, ele faz uma demonstração de arado, a colheita fracassa, e o relatório seguinte diz que os resultados foram assombrosos.
A Cruz de Ouro. Dois coronéis comentam o escândalo de uma mulher numa festa da cidade, e um deles, ao ir à casa dela à noite, descobre que os dias da semana já estão tomados por homens da cidade, entre eles o outro coronel.
De como quebrei a cabeça á mulher do Mello. O narrador explica, em tom de exagero cômico, por que não aceita mais convites para jantar: uma anfitriã o obrigou a comer até não poder mais.
A poesia e o poeta. Paisagens que lembram ao narrador os versos do poeta Ricardo Gonçalves.
O espião allemão. Durante a guerra europeia, Itaóca se mobiliza contra a Alemanha, prende um homem desconhecido como espião e transforma em heróis os homens que o levaram à capital.
Nossa leitura
Esta parte é a nossa leitura do livro, não um fato do texto.
O livro ri das cidadezinhas, de seus coronéis, padres, poetas e funcionários, mas também tem pena delas.
A peça Cidades mortas explica o atraso pela terra esgotada e pelo dinheiro que foi embora; outras peças, porém, descrevem com desprezo os mais pobres do lugar, e é preciso ler o livro sabendo disso.
A edição
O texto lido aqui é o da terceira edição (9º milheiro) de Cidades Mortas (contos e impressões), de Monteiro Lobato, São Paulo, Monteiro Lobato & Cia., 1921, segundo a folha de rosto.
Lemos o livro nas imagens de um exemplar da Universidade da Califórnia digitalizado pelo Google e publicado no Internet Archive, e cada trecho citado foi copiado da imagem da página e conferido no texto reconhecido por máquina do mesmo arquivo.
Nessa digitalização faltam as páginas 94 e 97, do último conto.
Não achamos digitalizada a primeira edição, e por isso não afirmamos o ano dela.
A grafia é a da edição ("annos", "plagio").
Leia o livro inteiro, na terceira edição, de 1921, da Monteiro Lobato & Cia., num exemplar da Universidade da Califórnia digitalizado pelo Google e publicado no Internet Archive. É dessa digitalização que saem os trechos citados aqui, copiados das imagens das páginas, com a grafia da edição. O acervo da Net Love tem este resumo, não o livro inteiro. A obra está em domínio público no Brasil.
Este texto é da série Resumos de Livros. Outros da série são Urupês, Brás, Bexiga e Barra Funda, Vidas Secas, Macunaíma e Triste Fim de Policarpo Quaresma.
Este resumo é uma leitura de 2026, escrita para o acervo Net Love, e não substitui o livro. A obra é de Monteiro Lobato. Os trechos citados vêm da terceira edição de Cidades Mortas, de 1921: os trechos em bloco saíram das páginas 1, 3, 5, 67 e 73, todos copiados da imagem da página e conferidos no texto reconhecido por máquina. As citações não trazem travessão de diálogo nem os termos de cor que o livro usa.
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