CXXXVIII
Capitu que entra
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Quando levantei a cabeça, dei com a figura de Capitu deante de mim. Eis aí outro lance, que parecerá de teatro, e é tão natural como o primeiro, uma vez que a mãe e o filho iam á missa, e Capitu não saía sem falar-me. Era já um falar seco e breve; a mór parte das vezes, eu nem olhava para ela. Ela olhava sempre, esperando.
Desta vez, ao dar com ela, não sei se era dos meus olhos, mas Capitu pareceu-me livida. Seguiu-se um daqueles silêncios, a que, sem mentir, se pódem chamar de um século, tal é a extensão do tempo nas grandes crises. Capitu recompoz-se; disse ao filho que se fosse embora, e pediu-me que lhe explicasse...
— Não ha que explicar, disse eu.
— Ha tudo; não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. Que houve entre vocês?
— Não ouviu o que lhe disse?
Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. Eu creio que ouvira tudo claramente, mas confessal-o seria perder a esperança do silêncio e da reconciliação; por isso negou a audiência e confirmou unicamente a vista. Sem lhe contar o episódio do café, repeti-lhe as palavras do final do capítulo.
— O que? perguntou ela como se ouvira mal.
— Que não é meu filho.
Grande foi a estupefacção de Capitu, e não menor a indignação que lhe suecedeu, tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso fôro. Já ouvi que as ha para vários casos, questão de preço ; eu não creio, tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. Mas, haja ou não testemunhas alugadas, a minha era verdadeira; apropria natureza jurava por si, e eu não queria duvidar dela. Assim que, sem atender á linguagem de Capitu, aos seus gestos, á dôr que a retorcia, a coisa nenhuma, repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. Após alguns instantes, disse-me ela :
— Só se pode explicar tal injuria pela convicção sincera; entretanto, você que era tão cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra de desconfiança. Que é que lhe deu tal ideia? Diga,— continuou vendo que eu não respondia nada,— diga tudo; depois do que ouvi, posso ouvir o resto, não pode ser muito. Que é que lhe deu agora tal con
vicção? Ande, Bentinho, fale! fale! Despeça-me d`aqui, mas diga tudo primeiro.
— Ha coisas que se não dizem.
— Que se não dizem só metade; mas já que disse metade, diga tudo.
Tinha-se sentado n'uma cadeira ao pé da mesa. Podia estar um tanto confusa, o porte não era de acusada. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse.
— Não, Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se você acha que tenho defesa, ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais!
— A separação é coisa decidida, redargui pegandolhe na proposta. Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio; cada um iria com a sua ferida. Uma vez, porém, que a senhora insiste, aqui vai o que lhe posso dizer, e é tudo.
Não disse tudo; mal pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome. Capitu não poude deixar de rir, de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui; depois, em um tom juntamente irônico o melancólico:
— Pois até os defunctos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!
Concertou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio que suspirou, enquanto eu, que não pedia outra coisa mais que a plena justificação dela, disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. Capitu olhou para mim com desdém, e murmurou:
— Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança...A vontade de Deus explicará tudo... Ri-se? É natural; apesar do seminário, não acredita em Deus; eu creio... Mas não falemos nisto; não nos fica bem dizer mais nada.